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Internacional

Disputa eleitoral na França tem Hollande como favorito, mas cenário pode mudar

Jornal do Brasil Annaclara Velasco

O capítulo das próximas eleições presidenciais na França começou muito antes do anúncio dos candidatos ao cargo. Em maio do ano passado, Dominique Strauss-Kahn, do Partido Socialista, cotado como um forte candidato à disputa, foi impossibilitado de continuar com suas aspirações após ter sido acusado de estupro pela camareira Nafissatou Diallo, do hotel Sofitel, em Nova York. O novo nome que representará a esquerda, François Hollande, parece ter sido bem escolhido, visto que tem aparecido como favorito nas pesquisas de intenção de voto. Aparentemente, os franceses não querem pagar para ver a continuidade do governo de Nicolas Sarkozy que, atingido pela crise econômica europeia, apresenta índices recordes de desemprego e desaceleração na economia e na indústria.

Em sua campanha, Hollande defende um programa ousado e, muitas vezes polêmico, com propostas como o déficit zero (até 2017) e o aumento de imposto sobre os franceses que recebem mais de EUR1 milhão por ano, que subirá para 75%. Mas não só os milionários sofrerão com a reforma fiscal. O socialista pretende ainda reduzir em 30% os salários do presidente e dos ministros franceses. O conjunto de propostas do candidato de esquerda também promete retirar imediatamente os soldados franceses do Afeganistão e autorizar o casamento e a adoção de filhos pelos homossexuais.

Hollande em campanha corpo a corpo em Reims, nordeste da França

Do outro lado da troca de farpas está o atual presidente, líder do União por um Movimento Popular (UMP, Union pour un Mouvement Populaire em francês). Nicolas Sarkozy foi eleito em 2007, quando uma de suas principais bandeiras era a luta contra os imigrantes ilegais. Cinco anos depois, o marido de Carla Bruni continua batendo na mesma tecla, defendendo um referendo sobre imigração e desemprego. Mas, apesar de seus esforços de defender uma França nacionalista, Sarkozy apresenta um dos menores índices de popularidade das últimas décadas. O professor de Negociação e Disputas Públicas da Fundação Getúlio Vargas, Yann Duzert, atribui esta impopularidade a dois fatos.

"Um fator importante que contribuiu para esta desaprovação foi a crise econômica mundial. O outro é a personalidade de Sarkozy, que foi ostentatório no início da presidência com iates, relógios rolex. Isso criou uma certa frustração na população francesa, que prefere a temperança, moderação e a humildade", analisa.

Sarkozy garantiu que irá se afastar da política caso não seja reeleito

Como um suspiro de autoconfiança, o candidato conservador garantiu em rede nacional, na última quinta-feira (8), que se afastaria da política caso não fosse reeleito. Em meio a críticas ao programa do opositor, Sarkozy indagou: "Se o povo francês não botar fé em mim vocês realmente acham que eu continuaria na política? A resposta é não". A declaração perigosa, dentro de um cenário onde Hollande aparece dois pontos percentuais na frente de Sarkozy, externou uma certa confiança em resultados melhores. 

De fato, observa Duzert, os números do governo atual estão melhorando, mas o presidente pode não ter tempo para melhorar sua imagem de chefe de estado, já que o primeiro turno das eleições acontece no dia 22 de abril.

"A campanha começou há pouco tempo. É sempre mais difícil para um presidente ter aprovação num contexto de crise mundial. Existe medo, consternação e falta de otimismo da parte do povo, e o Sarkozy é visto como a mesmice de que as coisas não vão mudar. Mas a esperança de uma estabilização da crise na Grécia pode ter impactos favoráveis na economia francesa, o que pode dar uma dinâmica positiva à campanha. A grande pergunta é se pouco mais de um mês é suficiente ou não", diz.

Já o cientista social Geraldo Tadeu Moreira Monteiro, professor do departamento de Direito da universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), é mais otimista. Ele lembra que, em 2007, os eleitores de Sarkozy representavam 31% da população no primeiro turno. A diferença entre o atual presidente e seu principal opositor já atingiu 10%, mas hoje representa apenas 2%, dentro da margem de erro das pesquisas.

"Um segundo turno já é certo, já que há uma fragmentação muito grande dos votos. Hoje ele (Sarkozy) tem 28% dos votos, mas ainda está em crescimento, o que significa que ele recuperou a posição que estava em 2007. No segundo turno, apesar de as pesquisas mostrarem o contrário, acredito que ele ganhe. O eleitorado de direita e centro somam 58% da população, por isso acho que o campo da direita ainda não está derrotado", argumenta.

Boicote

A negativa da chanceler alemã Angela Merkel para um encontro com Hollande levantou suspeitas de uma aliança de apoio de importantes líderes mundiais ao candidato conservador. De acordo com a secretária do Partido Socialista, Martine Aubry, Hollande havia solicitado uma reunião com Merkel, mas a chanceler respondeu que não desejava o encontro. A revista alemã Der Spiegel afirmou que vários dirigentes conservadores europeus haviam fechado um acordo para boicotar o candidato da oposição. Segundo a publicação,  Merkel, o italiano Mario Monti, o espanhol Mariano Rajoy e o britânico David Cameron decidiram não receber Hollande pois o candidato, caso seja eleito, afirmou que pretende renegociar o acordo orçamentário europeu.

O apoio dos grandes líderes europeus pode ser motivo de preocupação para uma certa parte da população, na opinião de Duzert. Apesar de se mostrar integrado às outras nações, por um outro lado, os franceses que desejam uma França independente "vão prestigiar uma postura mais rebelde e valorizar um candidato que se distancie dos outros lideres da mundialização". 

"A postura de estadista adotada pelo presidente, porém, é uma forma de se diferenciar do candidato socialista, se afirmando como membro da liderança europeia", finaliza Geraldo. 



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