Jornal do Brasil

Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017

Internacional

Albinos africanos lutam contra o tráfico de órgãos, o preconceito e as crenças tribais

Agência BrasilEduardo Castro

Maputo (Moçambique) – No interior da África, ainda é forte a crença de que portadores de albinismo são presságio de muita sorte ou grande azar. Na Tanzânia, desde 2007, pelo menos 59 pessoas foram assassinadas por traficantes de órgãos, usados em rituais de magia. “As crenças existem. De que o albino não morre, desaparece. E de que o sangue ou o cabelo do albino pode ajudar a acumular riquezas”, disse Ana Gabriela Eugênio, presidenta da primeira associação moçambicana a lidar com o tema.

Entretanto, em pouco mais de um ano de existência, a Associação Diferentes Somos Iguais não registrou nenhum caso de assassinato de crianças motivado pelo tráfico de órgãos. Em Moçambique, o problema maior, disse ela, é o preconceito. “Nós temos alguns membros que foram abandonados pelos pais porque a mãe preferiu conservar o lar. Existe a crença forte de que um albino na família é sinal de azar”.

Na província de Cabo Delgado, na fronteira com a Tanzânia, uma criança albina chegou a ser vendida pelos pais para um estrangeiro no ano passado, segundo ela. “Muitos são deixados em casa. Não estudam nem trabalham por causa da vergonha da família.” Boa parte dos albinos tem a saúde precária, porque não recebem os cuidados necessários, como proteger a pele e os olhos da exposição ao sol.

No interior da África, ainda é forte a crença de que portadores de albinismo são presságio de muita sorte ou grande azar. Crédito: Reprodução
No interior da África, ainda é forte a crença de que portadores de albinismo são presságio de muita sorte ou grande azar. Crédito: Reprodução

Professora de uma escola secundária, casada com um não albino e mãe de uma menina sem problemas de pigmentação na pele, Ana Gabriela se considera privilegiada. “Nasci e cresci aqui em Maputo e tive uma vida absolutamente normal. Quer dizer, normal para quem tem albinismo”. Segundo ela, uma vida normal inclui usar roupas fechadas mesmo no verão escaldante, passar protetor solar o tempo todo e proteger os olhos da radiação solar.

“Eu tinha mais condições de comprar protetor, além de ter a informação de que a exposição ao sol pode causar um cancro [câncer] de pele mais facilmente”. Vendo as dificuldades dos demais, ela diz que “tentou auxiliar de alguma forma” ao criar a associação.“Era um apoio que eu sentia que precisava existir.”

Apoio que, espera, cresça ainda mais depois da primeira audiência que teve com o presidente da República. Armando Guebuza recebeu Ana Gabriela no fim de setembro. Ela pediu ao presidente auxílio para motivar os jovens albinos a voltar para a escola, bem como para a compra de medicamentos e protetores solares, “vendidos aqui [em Moçambique] a preços exorbitantes”, já que todos são importados.

Nesse período, já há o que comemorar. Graças a um entendimento da associação com o Ministério da Saúde de Moçambique, o tempo de espera por uma consulta com um especialista caiu de três meses para, no máximo, uma semana, de acordo com a líder da associação, especialmente em Maputo. Mas a tarefa à frente ainda é grande, pois Moçambique ainda não tem sequer um levantamento sobre a incidência do albinismo na população. Na vizinha Tanzânia, a conta foi feita e apontou que o país tem 170 mil albinos.

Tags: africanos, albinos, crenças, dificuldades

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