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Escândalo da era Bush pode minar nova agenda de Obama

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WASHINGTON - À medida que informações sobre o programa secreto da CIA começam a surgir, a questão de como os Estados Unidos conduziram sua guerra ao terror sob a administração de George Bush, quem deteve e torturou e, pelas ordens de quem é cheia de armadilhas para o novo governo de Barack Obama. O presidente americano fala com frequência sobre a necessidade de o país avançar, em vez de olhar para trás. Mas isso não é garantia de que ele será capaz de resistir a chamados para algum tipo de investigação das políticas de inteligência do seu antecessor.

De acordo com uma análise publicada nessa terça-feira pela BBC, o argumento da ala esquerda do Partido Democrata parece ter ganho terreno em Washington na última semana. Eles agora acreditam que algum tipo de inquérito é necessário para reafirmar o estado de direito e restaurar a superioridade moral dos EUA frente à diplomacia internacional.

Por outro lado, os republicanos que se opõem à reabertura das feridas do passado garantem que lavar muita roupa suja em público muito depressa pode comprometer operações de contraterrorismo em curso, envergonhar alguns dos fiéis aliados dos EUA e até mesmo alienar alguns profissionais de inteligência que obedeceram ordens do governo Bush e que continuam a fazê-lo sob a direção de Barack Obama.

Acusações

Alguns democratas mais esquerdistas acreditam plenamente que o governo Bush, na sua reação aos ataques terroristas do 11 de Setembro, desviou suas ações para muito além da lei e da Constituição que deveria estar defendendo.

Sob o mesmo viés, o ex-vice-presidente Dick Cheney é retratado como uma figura malevolente e antiética, a figura central em alegações complexas sobre a relação entre o Congresso e a CIA. Democratas o acusam de mandar autoridades seniores da agência de inteligência ocultarem do Congresso a existência de uma operação antiterrorista secreta.

Atrocidades também podem ter ocorrido quando o general Abdul Rashid Dostum, aliado dos EUA, assumiu responsabilidade por cerca de 4 mil presos, após uma rendição em massa de talibãs, no fim de novembro de 2001. Prisioneiros estavam sendo transportados da prisão em Kunduz para Sheberghan, a oeste de Mazar-e-Sharif. Segundo a BBC, dois pesquisadores da ONG Médicos pelos Direitos Humanos que visitaram a prisão de Sheberghan em janeiro de 2002, ouviram testemunhos sobre um massacre no local. Algum tempo depois, investigadores desenterraram uma vala comum em Dasht-e Leili, repleta de corpos.

De acordo com a revista Newsweek , os presos estavam amontoados uns em cima dos outros em conteineres para serem transportados de uma prisão para outra e acabaram morrendo sufocados. Já testemunhos colhidos pelo New York Times sugerem que as vítimas foram mortas a tiros enquanto ainda estavam nos containeres.

Alternativas

O governo poderia até montar um inquérito sobre este incidente isolado dos presos de Sheberghan, sugere a análise da BBC, sem que isso crie grande alvoroço na política interna do país. Mas qualquer investigação mais ampla implicaria em um considerável risco político.

Qualquer tipo de inquérito abrangente poderia sugar o ar da política de Washington e dificultar a busca de Obama pelo espírito bipartidarista em questões delicadas como, por exemplo, a reforma do sistema de saúde americano.

Além disso, em um país onde o poder tende a se alternar entre partidos de linhas conservadora e liberal, uma forma óbvia de garantir um inquérito sobre governos democratas no futuro é orquestrar uma investigação de um governo republicano do passado.

No entanto, alguns democratas não serão persuadidos por esse pragmatismo. O procurador-geral americano Eric Holder já deixou bem claro que está pensando em nomear um promotor especial para averiguar as suspeitas. Deve se reconhecer que, no fim, a pressão da esquerda para que o governo tome alguma medida é enorme.