Jornal do Brasil

Domingo, 19 de Agosto de 2018 Fundado em 1891
Influência do Jazz

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Thiago Goes


A liberdade de Leo Gandelman

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Um dos principais nomes da música instrumental brasileira abre a sua casa para uma conversa sobre a carreira, planos e opiniões sobre a música e o Brasil. A vista para o Palácio Guanabara e para o Cristo Redentor impressiona. Mas, sendo Leo Gandelman o anfitrião do elegante apartamento no Parque Guinle, nas Laranjeiras, a audição passa a ser o sentido mais privilegiado para o convidado. Além das relíquias da música espalhadas pela casa, o saxofonista mantém um moderno estúdio para estrela alguma colocar defeito.

Prestes a completar 62 anos no próximo dia 10, ele se mostra ansioso por novos projetos e realizações

Quando me recebeu, Leo estava animado: acabara de receber a notícia da premiação no The BrandLaureate, troféu entregue a personalidades de grande impacto em seus respectivos países. O prêmio é mais um para a coleção do múltiplo artista, que acumula, em seus mais de 40 anos de carreira, uma vasta história de sucessos não só como instrumentista, mas também como arranjador, compositor e, mais recentemente, apresentador, à frente do excelente “Vamos tocar”, em sua terceira temporada no Canal BIS.

Em um papo que durou mais de duas horas, Gandelman relembrou a infância, marcada pela atmosfera de um lar com pais musicistas, até os preparativos para o próximo álbum, ainda em segredo. Prestes a completar 62 anos no próximo dia 10, ele se mostra ansioso por novos projetos e realizações: “Dependo da música para sobreviver espiritualmente”, reflete o arista.

JORNAL DO BRASIL: Como a música surgiu na sua vida?

LEO GANDELMAN: Sou um cara de sorte, nasci em um berço musical. Meu pai foi maestro e minha mãe, professora de piano e fundadora da escola Pro Arte. Comecei a estudar flauta e piano aos cinco anos, e sempre fui alimentado pela música, não só eu, mas minhas irmãs também. O grande momento da família era a hora do jantar, quando meus pais falavam sobre música em um diálogo de muito entendimento e conteúdo.

E a paixão pelo saxofone?

Até os 17 anos, tocava flauta, inserido na música clássica, mas sempre soube que aquilo não era para mim, pois sentia falta de criar, me sentia preso. Me apaixonei pela fotografia e, durante dois anos, abandonei a música. Até que aos 19, fui chamado por um amigo para fotografá-lo com um saxofone e, usando minha base de flautista, pude experimentar o instrumento. Aquela liberdade musical e o improviso com as notas foi amor à primeira vista. Descobri ali o que queria fazer na vida. Abandonei a fotografia e imergi no aperfeiçoamento musical com o sax, indo estudar na Califórnia.

Existiu algum músico que lhe ajudou no início?

Após dois anos em Berkeley, retornei ao Brasil em 1979, quando comecei a trabalhar na noite, no extinto Dancing Brasil. Lá, conheci o Bidinho, que me levou para Campo Grande, onde nos juntamos a Serginho Trombone e Zé Carlos Bigorna, e montamos um naipe de sopros, que rapidamente fez sucesso. Logo recebemos um convite para gravar com o Lincoln Olivetti, e, em seguida, começamos a gravar com centenas de artistas. Foram praticamente oito anos diariamente nos estúdios.

Quando ocorre a decisão de partir para a carreira solo?

 Na estrada, tocando com Paralamas do Sucesso, Gilberto Gil, Lulu Santos, entre tantos outros, pude entender como funcionava o show business e preparar o meu “ataque” da maneira certa. Meu primeiro trabalho como líder foi em 1987, com o disco “Leo Gandelman”, que teve sucesso na época pela faixa “A ilha”, tema da novela “Brega e chique”. A partir daí, assinei com a Polygram um contrato para cinco discos, e abri as portas para o Brasil e para o mundo.

Você se considera um músico de jazz ou um músico pop?

Um artista jamais deve se rotular. Quem se rotula, se limita. Usei o jazz para me libertar do texto e improvisar e criar. Mas não me considero um jazzista virtuoso. Sou um músico que trafega entre os limites do que eu acho verdadeiro. O grande lance da arte é a busca, a procura. Não o resultado. 

Essa constante busca é o que alimenta sua paixão pela música? 

Dependo da música para sobreviver espiritualmente. Me considero um privilegiado por viver do meu sonho após tantos anos de carreira. Apesar da difícil realidade que estamos enfrentando, não podemos deixar de acreditar nos nossos sonhos. Eles são o combustível da vida.

Como você enxerga a relação da música com a política? 

Sempre que eu tenho um microfone na mão, me sinto no dever de manifestar minha opinião política. Acho importante minhas ideias estarem atreladas ao meu trabalho. Batalho muito pela cultura brasileira, e também pela preservação do meio ambiente.  

Com toda essa sua história, como você vê a produção da música atual? 

A música virou um produto, as pessoas estão, cada vez mais, com acesso a conteúdo, porém, de uma maneira banalizada. Não se “escuta” realmente a música, apenas se utiliza dela. Não existe mais tempo para se devotar à audição. Numa mesma playlist, o cara ouve Beatles e Wesley Safadão ao mesmo tempo, se entretendo, mas sem entender o que está escutando.

Quem são suas maiores referências?

Coltrane e Miles foram os grandes gênios, sem dúvida. Coltrane foi o meu guru, minha grande referência, um criador de sistemas. Além deles, Wayne Shorter também foi muito importante, com sua maneira exclusiva e única de tocar. Nacionalmente falando, Serginho Trombone foi um cara que me apontou caminhos, me colocou no mapa. Márcio Montarroyos me mostrou que era possível uma carreia solo como instrumentista. Azymuth, Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti são outros grandes nomes que me inspiraram.

Longe dos palcos, o que você gosta de fazer?

Sou um pai, com quatro filhos e três netos, com um quarto neto a caminho. Amo estar com eles e reunir minha família. Adoro estar em casa, onde tenho meu estúdio e minhas relíquias. 



Tags: caderno b, cultura, jazz, leo gandelman, música

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