Jornal do Brasil

Sábado, 21 de Julho de 2018 Fundado em 1891
Influência do Jazz

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Thiago Goes


Coltrane inspirando nossos caminhos

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Confesso que o lançamento de “Both directions at once: The lost album” estava me deixando mais ansioso do que a Copa do Mundo ou até mesmo o resultado das eleições de outubro. O trabalho do mestre artístico e espiritual John William Coltrane, junto com seu magnífico quarteto, foi descoberto após ficar guardado por mais de meio século na casa de sua ex-mulher, Juanita Naima Coltrane. O aclamado músico, que morreu em 1967, é considerado pela crítica, ao lado de Charlie Parker, a maior sumidade do saxofone de todos os tempos.

Reprodução

Gravado em única sessão no mítico estúdio de Rudy Van Gelder, em Nova Jersey, em 1963, o trabalho captura um Coltrane à beira de um salto criativo, com as sete faixas (14 na versão deluxe) passeando entre o tradicionalismo do jazz dos anos 1950 e o início de uma ascensão sonora que culminaria no free jazz anos depois.

“Both directions at once” não chega a ser tão comercial como “My favorite things” (1961), também não alcança a inovação de “A love supreme” (1963), mas é uma importante “mudança de chave” para o período.

Algumas curiosidades marcam o disco, a começar pelo nome, escolhido pelo músico Ravi Coltrane, filho do segundo casamento de Coltrane e um dos responsáveis pela negociação dos direitos do material entre a gravadora e a família. Segundo ele, o título do álbum faz referência a uma conversa entre o pai e o amigo e também saxofonista Wayne Shorter.

Amparado por um criativo McCoy Tyner no piano (único remanescente da banda vivo), Elvin Jones na bateria e Jimmy Garrison no baixo, Coltrane fez desse seu quarteto o mais emblemático, responsável pela maioria de seus sucessos no período de ouro de sua carreira, entre 1957 e 1965.

Quando gravaram o disco, Coltrane e sua banda estavam em uma temporada de duas semanas de shows na famosa casa de jazz Birdland, em Nova York. No dia seguinte à gravação, fizeram um novo trabalho (talvez o mais comercial de suas carreiras) com o cantor Johnny Hartman, mostrando que Trane, como era chamado pelos amigos, estava em uma fase repleta de ideias e confiante na capacidade de executar todo e qualquer tipo de som.

As faixas se dividem entre inéditas, originais e standards do jazz, incrementados pelos takes alternativos na versão deluxe. De toque latino e cativante, “11386” (inédita e sem um nome definido) ficou no topo das minhas preferências, com destaque para o arrebatador solo em soprano de Coltrane, que também surge na outra inédita, “11383”, dessa vez de maneira mais obsessiva. 

As versões de “Impressions” (feitas pela primeira vez em estúdio) e “Nature boy” (de Eden Ahbez e consagrada por Nat King Cole), ainda que excelentes, me levantam dúvidas sobre suas versões compactas, incomum para os trabalhos de Coltrane na época.

A faixa “Vilia”, da ópera “A viúva alegre”, de Franz Lehár, compõe a parte de standards em tons mais leves do disco. Completam a lista “Slow blues”, a maior delas (com mais de 11 minutos), que mostra Coltrane no tenor, alternando suas frases entre o romance e o rosnado de seu saxofone, e “One up, one down”, em um swing parecido com “11383”, com Jones aceleradíssimo na bateria. 

Coltrane sempre falava que a música é uma forma de dizer o quanto o mundo é maravilhoso. Ele sempre quis que ela inspirasse a capacidade das pessoas de viver a vida de maneira significativa. Se não foi possível com a seleção brasileira contra a Bélgica, que Trane inspire o povo brasileiro a escolher melhores líderes para o nosso país em outubro. 

A coluna desta semana, ele já inspirou.

BEBOP 

MARIO PRIOLLI Nossa homenagem à memória do fundador do Canecão, que morreu na semana passada, em Cabo Frio. Priolli foi responsável por tornar o Canecão a mais importante casa de shows da história da nossa cidade, recebendo todos os grandes nomes da MPB e da música internacional. Descanse em paz, mestre.



Tags: caderno b, cultura, jazz, música, priolli

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