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Shakespeare, Pasteur e a importância de contextualizar

Jornal do Brasil THELMA LOPES *

Na história da humanidade jamais tivemos disponível volume tão grande de informações. Os múltiplos canais que hoje proliferam, e se popularizam, possibilitam acessar assuntos de diferentes fontes e naturezas sobre os mais variados temas. A comunicação cotidiana também foi ineditamente facilitada com recursos que permitem a troca instantânea de mensagens, imagens, animações e que fazem um telefonema parecer artigo de luxo, demonstração de amor, ou mesmo algo antiquado. Paradoxalmente, a capacidade de estabelecer conexões não é proporcional ao vasto mundo de conteúdos que podemos usufruir nos dias atuais. E aqui há reflexão que envolve diferentes âmbitos. Seja no campo dos afetos ou da construção dos conhecimentos, se é que eles podem ser dissociados em alguma medida, parece estar nos faltando capacidade de selecionar e ponderar.

Uma das principais razões é a rapidez com que as informações se propagam. Outra é a forma descontextualizada como são apresentadas. Não que seja exclusivo de nosso tempo, mas cada vez mais a competência de contextualizar tem sido relegada ou mesmo comprometida – o que é preocupante, dado que é a faculdade de relacionar que garante a análise de diferentes pontos de vista. Sejam fatos contemporâneos ou históricos, é a relação que estabelecemos entre eles que permite a construção de leituras mais plenas, capazes de aproximar episódios e personagens aparentemente distantes entre si. 

Se, durante o século 16, os fundamentos conceituais, metodológicos e institucionais da Ciência Moderna começaram a se consolidar por meio de estudos de Galileu Galilei, culminando na Revolução Científica, considerada como uma das mais profundas do pensamento humano, foi também naquele século que William Shakespeare transformou a linguagem teatral. Nascidos no mesmo ano, 1564, ambos questionaram o seu tempo. Se o primeiro foi de encontro ao modelo geocêntrico, o segundo desvelava a hierarquização estabelecida no modelo de sociedade Elizabetana. 

Um falava sobre certo globo errante que seria deslocado do centro do universo; o outro, apostou que um tal “The Globe” reposicionaria o teatro mundial. Se viajamos do universo macroscópico de Galileu ao mundo microscópico de Louis Pasteur, identificamos que o século 19, marcado pela “revolução pausteriana”, processo social abrangente, que modificou procedimentos na área da saúde que perduram até hoje, foi também revolucionado por Alexandre Dumas Filho. Ao escrever o romance “A Dama das Camélias” chocou e fascinou a sociedade da época ao retratar a história de uma plebeia e um jovem da alta burguesia francesa. 

Uma compreensão mais ampla da atuação Pasteur, requer análise de outras significativas produções de conhecimento geradas ao seu redor. Enquanto Pasteur redefinia a prática científica, a legislação, os hábitos cotidianos e fundamentava, passo a passo, a biologia moderna, Dumas caminhava em direção à revolução literária e dramatúrgica na qual a tuberculose foi vista, muitas vezes, como a redenção moral de suas vítimas. Com a encenação de seu texto, o bacilo da tuberculose, isolado por Robert Koch, com base nos trabalhos de Pasteur, estava em cena, divinizado pela frágil dama pálida, imortalizada nos palcos por Sarah Bernhardt. 

Em nosso tempo, a desconexão entre os conteúdos parece ter acentuado. Por um lado devido à aceleração nunca antes vista com a qual são produzidos e difundidos. 

Por outro, a dissociação das informações pode ser atribuída à cultura de enaltecer determinados saberes em detrimento de outros. Fato é que o prejuízo é grande. Isso porque contextualizar, além de propiciar visão plural, coloca em plano de análise relações entre causa e efeito, ação e reação. Não é possível compreender plenamente, por exemplo, algumas deformações da sociedade brasileira, sem contextualizá-las. 

A violência, que de tão avassaladora, pode nos parecer gratuita, não está dissociada do cruel desequilíbrio existente na divisão das riquezas. A noção de meritocracia não se aplica ao nosso país, porque a população não parte de condições igualitárias para competir no mercado de trabalho. As cotas raciais, em universidades ou concursos públicos, fazem sentido porque temos uma dívida histórica a ser paga. Mais que acumular informações é preciso articular ideias, relacionar pensamentos, elaborar e analisar contextos. Por outras palavras: alimentar os sensos crítico e criativo. Caso contrário, não passaremos de empilhadores de informações, incapazes de ler até mesmo a mais óbvia das equações: “muitos com quase nada” mais “poucos com muitíssimo” resultam em um país injusto e cruel.

* Artista pro?ssional, mestre em Teatro e doutora em Ciências



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