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Maria Thereza Goulart completa 79 anos e começa a comemorar centenário de Jango

Jornal do Brasil CELINA CÔRTES (CELINA.CORTES@JB.COM.BR)

Na próxima quinta-feira, Maria Thereza Goulart, a mais bela primeira-dama que este país já teve, faz 79 anos, cheia de motivos para comemorar. Após três anos em Porto Alegre, cidade que adora, acabou decidindo se mudar para o Rio de Janeiro, onde chega de vez até o fim deste mês. “Sou meio cigana e gosto de mudanças”, confessa, com seu sotaque gaúcho. O motivo mais forte, porém, é  esquentar as baterias para comemorar o centenário de seu marido, o ex-presidente João Goulart, nascido em 1º de março de 1919. O primeiro passo será a criação do Espaço Jango, cuja sede é negociada no bairro da Glória, na Zona Sul. E, no início de 2019, ela lança sua biografia, assinada pelo jornalista Wagner William.

Com oito netos, os mesmos 46 kg de sua juventude distribuídos em 1m58, ela beira os 80 anos com invejável forma física e mental. Perdeu as contas de quantos namorados teve depois de ficar viúva, contudo, nada aconteceu em sua vida amorosa nos últimos seis anos. Maria Thereza pegou o avião de Porto Alegre para dar entrevista ao JORNAL DO BRASIL e garante que será a última, algo difícil de crer. Com excelente memória e ânimo juvenil, legging preta, moletom cinza e tênis de oncinha, ela falou ao jornal no apartamento de sua filha Denise Goulart, 60 anos, dois casamentos desfeitos e dois filhos da segunda união. “Devo vir morar em um apart hotel próximo”, diz ela, que gosta da Lagoa Rodrigo de Freitas, na Zona Sul, onde sua filha escolheu para viver. Maria Thereza aproveitou esse momento rico que está vivendo para abrir seu baú de memórias ao JB. 

>> Família busca apoio para Espaço Jango

E claro que o principal foco gira em torno de João Goulart, 20 anos mais velho, que conheceu aos 14 anos, com quem se casou aos 17. “Eu morava em uma casa vizinha à dele, em São Borja (RS), mas não o conhecia. Era famoso, por ser riquíssimo, bonito e solteirão”, lembra. Maria Thereza estudou no colégio interno Americano dos 9 anos aos 17 e, até os 4 anos, foi criada na fazenda dos pais, no interior de São Borja. Eles decidiram que a filha iria morar na cidade com a tia Oraide, que, por essas coincidências, era casada com um primo de Getulio Vargas, Dinarte. E foi ele quem pediu à sobrinha para entregar uma carta em mãos a Jango. Quando tocou a campainha, quem abriu a porta foi o irmão do ex-presidente, que pediu à linda jovem, de 14 anos, para voltar quando ouvisse a buzina de seu irmão anunciando sua chegada. Dito e feito. “Ele saltou do carro e ficou fazendo mil perguntas: quem eu era, de quem era filha”, recorda, divertida.

Depois disso, foram alguns encontros casuais. Em um deles, Jango apreciou a bela participando de um desfile beneficente. Aproximaram-se, encontraram-se na fazenda de Getulio e engataram um namoro. “Andei de carro pela primeira vez com ele e tomei minha primeira cuba libre em sua companhia, aos 15 anos”, conta. Já aos 17 anos, quando voltou à cidade de férias do internato, os dois foram a uma festa, e Jango a pediu em casamento. “Não, ainda não estou preparada”, esquivou-se ela. “É sério”, ele argumentou. Em seguida, procurou os pais da moça, e o casamento foi marcado. Maria Thereza sonhava estudar arquitetura de interiores, mas não houve tempo. O casal, que se tratava como Jango e Teca, mudou-se para o Rio e, no primeiro ano de união, nasceu João Vicente e, no ano seguinte, Denise. 

Fuga para o Uruguai 

As lembranças felizes são indissociáveis dos momentos duros que a vida lhe reservou. No dia do golpe militar, em 1º de abril de 1964, Jango estava no Rio, enquanto sua mulher e os dois filhos encontravam-se na Granja do Torto, em Brasília. O presidente seguiu para o Rio Grande do Sul, para se encontrar com Leonel Brizola, casado com sua irmã,  Neusa, e o casal presidencial só voltou a se ver quatro dias depois. “Deixei tudo para trás. Fiz minha malinha, com uma saia de couro e duas blusas de seda e outra para os meninos. Pegamos um avião pequeno, de Jango, e seguimos para o Uruguai, para a casa na Praia de Solimões, a 40 km de Montevidéu, de um amigo de meu marido que trabalhava no Itamaraty”, relata. 

O piloto Maneco avisou que desceria no aeroporto menor, porque o maior estava lotado de jornalistas, um tumulto impróprio para o trio naquela situação delicada. “Quando chegamos, a casa estava arrumada, mas não havia nada para comer. Cheguei a pular o muro e pedi ajuda à vizinha, Dona Alda, uma senhora de quem fiquei amiga. Ela já sabia quem éramos, porque logo havia outro bando de jornalistas em nossa porta. João tinha mania de tomar leite. Gentilmente, ela nos forneceu leite e biscoitos. As crianças estranharam, perguntavam onde estava ‘o papai’. No dia seguinte, pedi ao amigo de meu marido para me levar à cidade, onde comprei roupas e fui ao supermercado”, conta. “Quando Jango nos avisou que chegaria, fomos pegá-lo no aeroporto. Foi uma festa, eu estava em pânico!”, admite. 

E durante tantos anos de exílio, iniciado no Uruguai, país que abandonaram quando veio o golpe de 73, seguiram para a Argentina, a convite de Perón, cuja morte trouxe sua mulher, Evita, à presidência. Um novo golpe militar, de todos o mais violento, voltou a assombrar a família, em 1976. “Estávamos em Buenos Aires quando surgiu o boato de que um comando comunista ia sequestrar nossos filhos. Jango imediatamente os mandou para Londres”, revela. Antes disso, Maria Thereza foi presa em 1969 com uma prima ao cruzar a fronteira do Uruguai com o Rio Grande do Sul: “Foi muito desagradável. Chegaram a me deixar nua, creio que para me humilhar. Passei por vários interrogatórios e ficamos dois dias incomunicáveis. No terceiro dia promoveram um grande almoço e nos soltaram. Nunca soube o motivo dessa detenção”. 

Maria Thereza acredita no assassinato de Jango pela Operação Condor, que uniu os comandos militares do Brasil, Uruguai e Argentina na caça a políticos perseguidos pelos regimes militares: “Na véspera de sua morte, em 6 de dezembro de 1976, Jango estava em ótima saúde. Denise, que morava em Londres, tinha dado a ele roupas modernas, que o motivaram a fazer regime. Estava muito gordo, conseguiu perder 10kg e sentia-se feliz com isso. Viajamos de carro de um fazenda em  Tacuarembó, no Uruguai, para outra fazenda da família, em Mercedes, na província de Corrientes. Ao chegar, cansado, ele acertou contas com o capataz e foi dormir”. 

Quando Maria Thereza foi se deitar, não conseguia pegar no sono. “Ventava muito, e as janelas batiam. Percebi que ele respirava com dificuldade. Por volta de 1h30 da madrugada, acendi a luz, Jango deu uma respirada forte, virou para o lado e apagou. Não pensei que estivesse morto, mas o capataz veio me ajudar e constatou seu falecimento”, relembra, no único momento da entrevista em que se emociona. Jango tomava remédios diários para o coração, e a suspeita é de que alguém conseguiu trocar o medicamento. “Éramos monitorados o tempo inteiro”, acrescenta. Em dezembro de 2014 — 38 anos após a morte —, o corpo do ex-presidente foi exumado. Entretanto, não se encontrou nenhuma substância venenosa nos restos mortais. 

O trágico episódio traz uma recordação engraçada à ex-primeira dama. Ela conta que o marido tinha tanto medo de sentir dor e de ser hospitalizado que chegou ao cúmulo de montar uma sala no Palácio Laranjeiras, onde ficava quando vinha ao Rio, para seu dentista de Brasília. “Eu vivia dizendo que ele tinha um dente escuro. Falei com Jório, nosso dentista, que veio para o Rio, e o problema teve de ser resolvido com anestesia geral!”, ri Maria Thereza. Do seu arsenal de memórias, cuja balança tende a pender para as melhores recordações, uma delas foi o dia em que sua beleza foi equiparada pela revista “Time” à de Jacqueline Kennedy. Seus traços perfeitos já passaram por uma cirurgia plástica, e a boa forma é garantida com uma rotina de exercícios divididos entre a academia de ginástica e longas caminhadas. “Sou elétrica”, define-se. E ninguém duvida.



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