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PT mobiliza sua base pela improvável candidatura de Lula

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O Partido dos Trabalhadores joga nesta terça-feira (14) todo seu peso na balança com manifestações e uma campanha na imprensa na véspera da data limite de inscrição da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva.

Três colunas de mil pessoas chegaram pela manhã a Brasília, na chamada "Marcha Nacional Lula Livre", que partiu no sábado de três localidades a 50 quilômetros da capital para pedir que o líder da esquerda, que desde abril cumpre uma pena de 12 anos e um mês de prisão por corrupção passiva, possa participar da disputa eleitoral.

As marchas foram preparadas pelo PT e por organizações sociais, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Na quarta-feira marcharão até o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), onde membros do PT, entre eles o companheiro de chapa escolhido por Lula, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, inscreverão a sua candidatura, no último dia do prazo legal.

Até então vão passar a noite acampados em um terreno baldio perto do estádio Mané Garrincha, a 4,5 quilômetros do Palácio do Planalto.

Vestindo uma camiseta vermelha com o rosto de Lula estampado, Genesio Roanes, um caminhoneiro aposentado, de 62 anos, explica à AFP que viajou de São Paulo, a 1.000 quilômetros de Brasília, para apoiar o ex-presidente, "o único candidato possível", que está "injustamente preso".

"Tenho fé em que possa voltar para melhorar tudo o que está mal. Sabemos que é a única pessoa a favor dos trabalhadores e dos pobres", afirmou, após mencionar os programas sociais promovidos pelo ex-presidente (2003-2010).

As marchas coincidem com uma greve de fome que sete ativistas fazem há 15 dias em Brasília para pedir a liberdade do ex-presidente.

Lula, de 72 anos, é o favorito nas pesquisas com quase um terço das intenções de voto (quase o dobro que qualquer outro candidato). Mas, segundo juristas, a sua candidatura provavelmente será impugnada, dado que a Lei da Ficha Limpa, promulgada durante o seu governo, exclui da disputa eleitoral os condenados em segunda instância, como é o caso.

O ex-presidente foi condenado como beneficiário de um tríplex no Guarujá, litoral paulista, oferecido pela construtora OAS em troca de contratos com a Petrobras. Enfrenta outros cinco processos, mas se declara inocente em todos e denuncia uma perseguição política e judicial para impedi-lo de voltar ao poder.

- 'Golpe em câmera lenta' -

Também impedido pela Justiça de participar dos debates televisivos, Lula busca fazer a sua mensagem chegar por outros meios.

Em uma coluna publicada nesta terça-feira no New York Times, Lula voltou a denunciar que a sua prisão em Curitiba é a "a última fase de um golpe em câmera lenta destinado a marginalizar permanentemente as forças progressistas no Brasil".

É "por isso que as pesquisas mostram que se as eleições fossem realizadas hoje, eu venceria. Milhões de brasileiros entendem que minha prisão não tem nada a ver com corrupção, e eles entendem que eu estou onde estou apenas por razões políticas", continuou.

Em outra coluna no jornal Folha de S.Paulo, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, afirmou que a candidatura de Lula encarna "a possibilidade real de superar a crise econômica, social e política" do governo de Michel Temer.

O prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel se somou na segunda-feira à campanha ao visitar os grevistas de fome. "Pedimos a liberdade de Lula, é um preso político. E toda essa manobra feita pelo governo e pelos juízes é para tirá-lo do cenário político", disse à AFP o ativista argentino de direitos humanos.

Uma dezena de juristas europeus, entre eles o ex-juiz anticorrupção espanhol Baltasar Garzón, expressou na semana passada a sua "preocupação" por "sérias irregularidades" na condenação de Lula em uma carta dirigida à presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia.

- 'Aposta arriscada' -

O TSE, que tem como limite 17 de setembro para julgar a candidatura de Lula, demorará alguns dias, ou até mesmo semanas, para decidir.

Se a candidatura de Lula for efetivamente impugnada, o PT teria pouco tempo para fazer campanha por Haddad, que provavelmente o substituirá.

"O PT sabe que não vai ser Lula, mas a estratégia é que a força de Lula chegue no limite máximo possível para que o candidato oficial, Haddad, tenha mais força com a transferência de votos", explica à AFP o analista político André César, da consultora Hold.

"É uma aposta arriscada, porque não existe uma transferência imediata" de votos, acrescentou.

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