Jornal do Brasil

Acervo

Não se afobe não

Jornal do Brasil CLAUDIA CHAVES *

A vida gira em torno de oposições. Passado e futuro. Marasmo e agitação. Juventude e velhice. Espera e impaciência. Abandono e aconchego. Pressa e lentidão. Vida e morte. Relacionamento e solidão. Fonte de conflitos, de criação das narrativas, de desenvolvimento de personagens, os pares são a matéria-prima que move a arte.  No teatro, esses paradoxos podem ser apresentados e construídos em forma de tragédia , em forma de comédia. Seja do jeito que for, quando bem encenados  ganham um status maior.  É o caso de “O enxoval”, em cartaz no Espaço Furnas. 

Fruto do trabalho  da Cia de Atores de Laura, “O enxoval” é baseado em fatos reais, com texto de Ana Paula Secco, Verônica Reis e Luiz André Alvim, com direção do último e atuação das duas. O fio narrativo é simples, conta um dia na vida de duas mulheres idosas Célia (Ana), 82 anos, e Amélia (Verônica), 86, em uma cidade do interior de Minas, até que recebem a visita de um jovem publicitário carioca que necessita com urgência telefonar, pois, na casa delas, funciona uma telefônica, completamente sem função na atualidade. Essa primeira metáfora, traduzida na pequena placa cenográfica aberto e fechado já indica a principal questão: o tempo de se abrir e fechar é apenas uma convenção. 

Ana Paula e Verônica estão caracterizadas de forma caricatural, o que, no caso, funciona  positivamente. A expressão corporal das duas – o corpo dobrado, o passo lento; a peruca grisalha em coque; o figurino com   vestidos que mais parecem roupa de dormir,  a  leve surdez confusa e sobretudo a voz hesitante, na garganta, titubeante, a boca tremida,  são os elementos que nos fazem rir e muito e entendermos a  profundidade do que acontece de forma mais leve, uma reflexão positiva e envolvente. 

A oposição, eixo central do texto, está também na posição das duas personagens da casa: Célia, a mais nova, é a dona da casa, a “operadora” de tudo. Exerce o poder,  pois só ela pode telefonar,  ela cozinha, contra a saúde e os hábitos de Amélia. Amélia é a cunhada solteirona, seca no corpo e no sangue, mas açucarada pela diabetes, pelo afeto entregue à família do irmão e pela eterna esperança de  se casar, ainda não desfeita. O enxoval, motivo do título, está guardado em um baú da sala de onde saem as lembranças do passado que  é revisitado, mas marca sobretudo que o futuro jamais chegou. 

 E a direção leva a uma atuação e a movimentos que fazem da criação coletiva uma unidade. A abertura é com Célia se movendo de forma lentíssima, atrapalhada assim Não se afobe nãocomo Amélia também aparece simulando a colocação de uma dentadura. São os símbolos mais banais e corriqueiros do que se imagina de uma velhice abandonada. As duas personagens ficam sentadas lado a lado em duas cadeiras, não se olham, não se tocam e ficam repetindo as mesmas frases de forma errática. Cada uma em seu lugar, cada uma encastelada no seu muro.

A  lógica binária dos pares é quebrada com a chegada do jovem carioca, cujo carro  quebrou na chuvarada. É desesperador ver a urgência, a pressa, a urbanidade do rapaz em confronto com a ordem, a calma das duas mulheres. E em torno da esperança de o  rapaz resolver o seu problema e da esperança de Amélia em encontrar um par se vê, em uma dança dos dois  com a canção “Se eu morresse amanhã de manhã”,  que na vida nada faz falta. Nem um enxoval  porque fica velho  e poeirento, uma telefônica sem necessidade e nem nós mesmos, porque “minha falta ninguém sentiria”. 

Serviço 

“O ENXOVAL” - Cia de Atores de Laura, direção de Luiz André Alvim. Espaço Furnas Cultural (R. Real Grandeza, 219 - Botafogo; Tel.: 2528-5166). Sáb. e dom., às 19h. Entrada franca (retirada de ingressos uma hora antes do espetáculo, um por pessoa). Duração: 75 min. Classi? cação: 12 anos

*Professora de Depto. de Comunicação da PUC-Rio e doutora em Letras



Tags:

Recomendadas para você