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Arriscar a vida para 'nada' nas corridas de São Firmino

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Pamplona, 08H00: Íñigo Plaza prende a respiração. Em poucos segundos reviverá a experiência que aguarda o ano todo: correr junto com os touros durante os 'encierros' (ato de levar os animais até o curral) de São Firmino.

Dentro do pelotão de corajosos, se lança a correr sobre os paralelepípedos ainda molhados pela chuva que caiu uma hora antes.

O objetivo é conseguir correr durante alguns segundos o mais perto possível dos touros, sem ser pisoteado ou chifrado por estes animais de 600 quilos.

Íñigo consegue correr cerca de 20 metros na frente de um touro e uma vaca antes de se separar. O resto da manada, composta por seis touros de lide e seis vacas, ainda está longe, mas ele não poderá se colocar outra vez na sua frente, por ter perdido velocidade.

"O importante é terminar inteiro e amanhã poder estar aqui", diz este operário de uma fábrica de automóveis, de 29 anos, minutos depois de sua corrida.

Especialista nos 'encierros' de São Firmino, com mais de 80 corridas, conhece perfeitamente os truques para viver o momento com intensidade e limitar os riscos.

Para evitar ser surpreendido por algum touro que emerge da multidão, ele observa, por exemplo, os fotógrafos empoleirados nas varandas ao longo do percurso.

Se os fotógrafos ativam seus flashes, significa que a manada está perto.

- Paixão fraternal -

O ritual é imutável. Todas as manhãs de 7 a 14 de julho, às 08h00 em ponto, os touros dos locais de criação de gado mais prestigiosos da Espanha são soltos nas ruas estreitas de Pamplona para o 'encierro', uma corrida louca de dois a três minutos com centenas de participantes.

Íñigo corre quase todas.

"Quem me contagiou foi meu irmão, que corre há muitos anos", explica este jovem de 1,80 metro.

"Sempre tive em mente que um dia eu estaria aqui. E felizmente entrei nisso e não parei mais. Você vai um dia, depois dois, depois três...".

Seu irmão Raúl, de 37 anos, já correu em mais de 130 'encierros' em São Firmino.

Sempre se colocam no mesmo lugar, no último trecho do percurso de 850 metros que termina na praça de touros de Pamplona, onde os animais encontrarão a morte todas as tardes em corridas com os grandes nomes da tauromaquia.

O percurso em descida permite que eles corram alguns segundos a mais na frente dos touros, mas também implica certo perigo: o estreito portão da arena pode causar uma aglutinação humana, deixando os corredores à mercê das chifradas dos animais.

- Arriscar a vida -

Apesar das regras estritas - proibido aos menores de idade, proibido correr mal equipado ou alcoolizado, proibido tocar os touros... -, cada 'encierro' termina com vários dos 2.000 corredores no hospital.

Em 2017, 64 de um total de mais de 17.000 participantes ficaram feridos, sete deles chifrados. E no sábado de manhã, no primeiro 'encierro' de 2018, cinco foram levados ao hospital, um deles ferido por chifre de touro.

Desde 1910, 16 corredores perderam a vida, o último em 2009.

"É correr muito risco para não ganhar nada", reconhece Raúl Plaza.

Em 19 anos, ele teve duas fraturas: uma no punho e outra, mais grave, no cotovelo, que lhe impediu de trabalhar na fábrica durante oito meses.

Apesar de tudo, depois de cada lesão voltava a correr ao lado dos touros nas ruas de Pamplona.

"São Firmino sempre é o máximo, pelo tipo de touros, pelo ambiente, pela televisão...", afirma.

"Ter um animal de 600 quilos atrás e todas as pessoas nas ruas, é uma coisa que.... Não sei, é uma sensação indescritível, de adrenalina, de emoção", acrescenta seu irmão Íñigo.

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