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Jane Birkin recorda união com Serge Gainsbourg

Cantora conta detalhes dos suspiros de “Jet’aime... moi non plus"

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Há 50 anos, despontava uma cantora de voz ao mesmo tempo meiga e ofegante, obscena e delicada. Ao lado do falecido parceiro, Serge Gainsbourg, Jane Birkin registrou os suspiros mais famosos da história da música pop, em “Je t’aime… moi non plus”. No sábado passado, ela esteve no Festival de Verão de Quebec, no Canadá, onde apresentou o espetáculo “Gainsbourg Symphonique”. Lá, falou de algumas das memórias por trás do clássico e da convivência com o polêmico e célebre cantor francês. 

Quando Birkin conheceu Gainsbourg pela primeira vez em 1968, o compositor estava de coração partido por um romance fracassado com ninguém menos do que Brigitte Bardot. Birkin, uma antiga atriz da Inglaterra, acabara de chegar à França, depois de se divorciar do compositor John Barry. Gainsbourg escreveu a música para Bardot, a quem o cantor se referia como “a mais bela canção de amor que se pode imaginar”. Ele e a atriz de “O desprezo”, de Godard (1963), chegaram a gravar a música em 1967, mas ela não quis lançá-la, por temer que a polêmica iria prejudicá-la. Em 1969, então, veio a versão que se tornou famosa, gravada com Birkin.

“Je t’aime... moi non plus” -- que significa a esquisita expressão “Eu te amo… eu também não” -- tornou-se famosa por sua lascívia, incluindo gemidos de prazer. Na época, a imprensa chegou a especular que os dois gravaram a música enquanto se afagavam no estúdio. A música foi banida do rádio em vários países e chegou a ser condenada pelo Vaticano.

Birkin, que tinha um forte sotaque inglês quando falava francês, disse que não ficou escandalizada quando Gainsbourg a convidou para cantar. Ela diz que temia que o convite fosse para uma das muitas atrizes ansiosas para colaborar com o cantor, como Mireille Darc. “Então, quando ele me pediu para cantar, depois de Bardot, eu entendi bem”, disse ela. “Fui lá e cantei, mas uma oitava acima do proposto, embora não intencionalmente. Simplesmente aconteceu dessa maneira”.

“Isso deu à música uma dimensão inocente que ele gostava muito. Esse lado também foi transposto para o nosso relacionamento, é claro. Ele tinha 40 anos e eu, 20. Mas nós dois agíamos como se fôssemos jovens”. “Ele também gostava que eu fosse inglesa. Mesmo o fato de eu ter sido casada com John Barry, o compositor de James Bond, o lisonjeava um pouco, depois de ter acabado de terminar com Bardot.”

Outro sucesso da dupla foi “Jane B.”, de 1969. Gainsbourg a compôs para Birkin mesmo antes de pedir que ela cantasse “Je t’aime ... moi non plus”, ela relembra. Comparada a Chopin, a música - lançada como um lado B de “Je t’aime ... moi non plus” - tornou-se uma introdução de Birkin aos ouvintes. “É engraçado cantá-la novamente 50 anos depois”, diz Birkin, de 71 anos, que lembra do verso “Idade: entre 20 e 21 anos”. “Isso me faz sorrir um pouco. As pessoas riem quando me ouvem dizer isso.”

Separação dolorosa

Da união, veio a atriz e cantora Charlotte Gainsbourg. Em 1983, o casal já estava separado, mas ele continuou a escrever canções para ela. Birkin disse que se lembra dele intensamente quando canta “Les dessous chic” (“A roupa íntima chique”). “É a música mais linda sobre a separação que você pode imaginar”, ela diz. “É provavelmente a minha favorita, porque tudo o que contém é realmente ele. Há uma grande modéstia em todas as suas canções que ele escreveu sobre separação. Serge nunca parou de escrever sobre mim até o fim”.

A partir de 1987, Jane esteve envolvida por sete anos com o diretor Jacques Doillon, com quem teve uma filha, Lou. “Começaram então a sempre me atormentar com perguntas sobre minha identidade, se eu era mais francesa ou inglesa, e sobre o envelhecimento”, ela diz. “Serge se recusou a me escrever uma música sobre esse tema”.

Depois que Birkin contou a Gainsbourg que tinha cantarolado uma melodia do compositor norueguês Edvard Grieg em um comercial, o compositor escreveu para uma música baseada no “Peer Gynt”, também de Grieg. Ele pediu para que ela cantasse, mas o tema era a dor que o cantor sentia pela distância de Birkin. “É estranho cantar sobre as dores de outra pessoa, que conscientemente pede a você e a mais ninguém para cantá-las. Durante a gravação, Serge chorava. Eu, por minha vez, cantei o melhor e o mais alto que pude”.



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