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Bossa Nova e sociedade

Jornal do Brasil CARLOS ALBERTO AFONSO, ESPECIAL PARA O JB

A gente não consegue fugir desta dupla de sedução fatal: música e futebol, que, de mãos dadas dividem – não necessariamente meio a meio – a grande e natural vocação nacional. Acabo de rever o saudoso Dener (ex-Portuguesa, ex-Grêmio, ex-Vasco...), que antes de ser morto por, em última análise, um cinto de segurança, teria matado muita gente do coração, muita gente “entortada”, como rotula a excepcional matéria no youtube. Matéria que revejo sempre que lembro e posso, por muitas razões futebolófilas, vascainálatras ou, simplesmente, didáticas – estas últimas, mais que suficientes para quem gosta de informar. É que, ao final da matéria, em chave de ouro de empalidecer parnasianos, o craque driblador declara: "Eu acho o drible mais bonito que o gol". Extraordinário momento dos “meios”, que, na prática da sociedade de consumo, é culturalmente punido por jamais justificarem os “fins”. 

E, já que delírio é delírio, aquela linda camisa preta e branca com detalhe vermelho no peito me remete, interdisciplinarmente, às capas de disco Elenco, selo do grande produtor Aloísio de Oliveira e de Flávio Ramos, dono da boate Au Bon Gourmet, onde, em agosto de 1962, um inesquecível “Encontro” (assim se chamava o show), reuniu, no mesmo palco, músicos como Milton Banana, Otávio Bailly, o grupo Os Cariocas, o Poeta Vinicius de Moraes, Tom Jobim e o grande idealizador e formulador da Bossa Nova, João Gilberto.

E, por falar em João Gilberto, foi no 10 de julho de 1958 que ele, com seu violão e voz e acompanhado pela Orquestra de Tom Jobim, entrou no estúdio carioca da Odeon para fazer acontecer o verdadeiro “parto” da Bossa Nova, depois de quase uma década de gestação: a gravação das canções “Chega de saudade”, de Tom e Vinicius, e “Bim bom”, de João Gilberto em disco de 78 rpm. Este sim, por razões objetivas, o marco inicial da Bossa Nova, superado em significado, apenas, pelo próprio parto de João Gilberto, em junho de 1931, no dia 10, também. Antes disso, em ultrassonografia fonográfica, foi detectado um componente do quadro estético prestes a vir à luz: a estetização do silêncio ou pausa, ou síncope... em deliciosa e tamborinesca marcação do samba, ritmo para cuja execução, o sambófilo João Gilberto formulou a Bossa Nova. Era o LP “Canção do amor demais” em que o samba-choro da Divina de todos nós, Elisete (era assim que ela mesma escrevia seu nome) Cardoso, se materializava em canções preliminares da pareceria entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

Identificado num disco de 78rpm o primeiro documento pleno da história da Bossa Nova, achamos muito útil lembrar, para aficionados antigos e iniciantes, que seis meses após o “parto da Bossa Nova”, logo, logo, em janeiro de 1959, João Gilberto topou gravar, na própria Odeon, o seu primeiro LP: seu e da Bossa Nova. Neste LP, por grata lembrança do Mestre Jairo Severiano, a gravação da canção “Chega de saudade” é exatamente a mesma que trouxera à luz em julho de 1958, este comportamento musical ao qual – ainda que muito poucos – tantos de nós, além de apreciar, mantemos uma relação de muito amor.

Há dez anos, em 2008, quando de seu cinquentenário, a Bossa Nova foi celebrada com salvas de tiros consistentes em alvos fundamentais. Pra começar, o poder público municipal decretou 2008 Ano da Bossa Nova na Cidade do Rio de Janeiro, envolvendo, com isto a Cultura e a Educação municipais, a partir de equipamentos e, principalmente da escola pública. Esta ação nos permitiu fazer com a Bossa Nova a mesma coisa que, pelos mesmos meios, fizéramos com o Poeta Vinicius de Moraes, em 1993, há 25 anos passados, quando sua poesia e sua canção visitou regiões e segmentos que não experimentam deste manjar, senão muito raramente. Avançamos, também, na questão importantíssima da preservação da Bossa Nova, através do Decreto Municipal de 15 de outubro de 2007 – Dia do Mestre – reconhecendo a Bossa Nova como Bem Imaterial da Sociedade. E este avanço é fundamental para protegermos seu nome do uso indevido e, ainda, que inintencionalmente, predatório porquanto diluidor da referência. Bossa Nova é nome de nosso Patrimônio Cultural, pertence à sociedade e não deve e não pode se expor a polissemias com chocolates e shoppings centers.  

Hoje, quando apagamos 60 velinhas, inventariamos os avanços e logo percebemos que, apesar do esforço de cada passo, ainda se avançou muito pouco para que sejamos uma sociedade merecedora da Bossa Nova. Precisamos marchar firme, simultaneamente ao prazer estético do convívio, com este amplo projeto pelo qual temos dado boa parte da vida. Refiro-me às lutas por duas avenidas. Na primeira delas, imediatamente, precisamos estimular a renovação do sujeito do processo, ou seja, do músico. Se não tivermos o músico, não teremos a música. Em outra avenida, uma corrida simultânea, nos levará à fixação da identidade da Bossa Nova, pois ninguém pode preservar alguma coisa sem ter consciência do que vem a ser aquilo que está querendo preservar. Portanto, é urgente a consciência conceitual da Bossa Nova.

Creiam ou não, além se sermos poucos os aficionados pela Bossa Nova, ainda nos subdividimos em dois subgrupos : os que gostam e sabem do que se trata (uma minoria) e os que gostam porque (incrível) não sabem do que se trata. É que o mercado só quer vender. E força a sociedade a acreditar que Bossa Nova é aquela canção bonita que está tocando. E, com isso, o mercado estimula as pessoas a seguirem em relação exclusivamente participativa com a execução musical, cantando junto e dançando junto, o que é muito gostoso, mas resulta, não raro, em seduzidos pela canção, não percebermos a música. E Bossa Nova é exatamente A música: aquela harmonia, aquele arranjo, aquele acorde, aquela seleção instrumental... e, se houver uma letra.... aquela voz. Acrescente-se que, a despeito da beleza de letras como as de Vinicius, de Bôscoli, do próprio Tom e outros mais, a Bossa Nova só precisa de uma canção para nela se materializar. E uma canção só precisa de uma melodia para ser canção. E teremos uma execução instrumental. Sim, temos muita necessidade dessa consciência conceitual da Bossa Nova. 

Finalmente, dispensável lembrar que, de nada adiantam tais avanços se não tivermos o povo como interlocutor. Formar plateias é fundamental. E, de preferência, no espaço público. Nestes 60 anos da Bossa Nova, nada, nada, nada é tão importante quanto apresentarmos a Bossa Nova a sociedade como um todo, segmento por segmento. Se queremos, conseguimos. Sem dificuldade. Basta lembrar do Dener do futebol, pois, para a Bossa Nova, estética do processo que é, o drible é verdadeiramente mais bonito que o gol. 

* Fundador e dirigente da Casa da Bossa Nova



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