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África exporta talentos e con?rma força com descendentes na Bélgica e França

Jornal do Brasil AFFONSO NUNES, AFFONSO.NUNES@JB.COM.BR

Desde a surpreendente campanha de Camarões na Copa de 1982, quando caiu na primeira fase pelo saldo de gols, se fala no crescimento do futebol africano, e que seleções daquele continente num futuro breve conquistariam o mundo com um jogo empolgante, capaz de aliar habilidade e força física. Ou seja, um fórmula praticamente imbatível. Passados 36 anos e nove edições de Mundiais, há quem diga que a profecia jamais se cumpriu. Mas o que dizer da França e da Bélgica que chegam às semifinais da Copa da Rússia com uma penca de jogadores oriundos de famílias do Congo, Senegal, Tunísia ou Argélia, entre outros? Nenhuma seleção africana tornou-se potência futebolística, mas a diáspora negra está revolucionando o futebol. 

Roger Milla e Eto’o (Camarões); Rabah Madjer (Argélia); Abedi Pelé (Gana); George Weah (Libéria); Didier Drogba (Costa do Marfim); e Okocha e Kanu (Nigéria) são exemplos de grandes jogadores que brilharam em grandes clubes do  futebol mundial, mas jamais conseguiram levar suas seleções ao topo. Astro do Milan, Weah sequer disputou uma Copa. 

Em compensação, a seleção da Bélgica que eliminou o Brasil, jogando o melhor futebol do Mundial até aqui, é um somatório de atletas gauleses (os puro-sangue belgas) com descendentes de espanhóis, kosovares, marroquinos e congoleses. Dos 23 atletas convocados pelo espanhol Roberto Martínez, sete são negros, como o zagueiro Kompany, o meia Witsel e o atacante Lukaku, que briga pela artilharia. 

Centrovante de porte físico avantajado, com 1,91m e 94 quilos, Lukaku não é apenas um goleador grandalhão. Alia vigor físico com habilidade e boa técnica. Infernizou a defesa brasileira e ainda assistiu De Bruyne no segundo gol belga na última sexta-feira. Sua história de vida emociona. Filho de um congolês que foi tentar a sorte na Bélgica mas não vingou, passou fome na infância. Chegou às seleções de base da Bégica aos 15 anos e nunca mais deixou de vestir a camisa dos Diabos Vernelhos. 

Num texto que escreveu para o site Th e Players’ Tribune, o camisa 9 narra as dificuldades vividas pela família quando a carreira de seu pai havia chegado ao fim, assim como o dinheiro para sustentar os Lukaku. “Eu chegava em casa e as luzes estavam apagadas. Não tínhamos eletricidade. [...] Eu queria tomar banho e não tinha água quente. Minha mãe esquentava uma chaleira”, recorda. O atacante lembra que a família “estava lutando”, mas que viu “tudo acabado” quando percebeu que sua mãe misturava a água no leite para dar a ele e ao irmão, que hoje também joga futebol.

Mbappé rompe barreiras 

Na França – que já na década de 1980 teve o criativo meia Jean Tigana, de Mali – hoje brilha uma geração inteira de afro-franceses, como o zagueiro Umtiti e os meias Kanté, Matuidi e Pogba. E quem desponta no esquadrão afro-francês como um candidato a futuro astro do futebol mundial é  Kylian Mbappé. Revelado no Mônaco, transferiu-se para o Paris Saint-Germain por empréstimo até junho. O clube parisiense exerceu a opção de compra por valores não revelados. Estima-se que o atleta de 19 anos tenha custado 180 milhões de euros, a segunda maior transferência da história do futebol.

Filho de imigrantes camaroneses e nascido na pereiferia pobre de Paris, Mbappé chegou à Rússia como grande promessa, e está cumprindo expectativas e quebrando barreiras. Em 27 de maio, foi convocado por Didier Deschamps para disputar a Copa do Mundo, recebendo a camisa 10 já envergada por Platini e Zidane. Na estreia, tornou-se o jogador francês mais jovem a disputar uma partida em Copas do Mundo, com 19 anos, cinco meses e 28 dias. No dia 21 de junho, Mbappé marcou o gol da vitória sobre o Peru. Ele garantiu a classificação da França para as oitavas de final e se tornou o jogador francês mais novo a balançar as redes em Copas. 

E mais. Durante a vitória por 4 a 3 sobre a Argentina, nas oitavas, estraçalhou a defesa rival, marcou duas vezes e se tornou o terceiro jogador mais jovem a marcar duas vezes em uma Copa (atrás de Pelé, que tinha 17 anos em 1958, e Michael Owen, que tinha 18 em 1998). Na mesma partida, se tornou o mais jovem a marcar dois gols em um mata-mata desde Pelé (17 anos e oito meses nas semifinais da Copa do Mundo de 1958). O feito lhe rendeu mensagem pessoal do Rei do Futebol parabenizando-o por entrar num seleto clube. E tem tudo para quebrar novas marcas. Por ele, pela França e pelo povo africano.

HISTÓRICO EM COPAS 

A primeira seleção africana a participar de Mundiais foi o Egito em 1934, na Copa da Itália. Fez apenas uma partida, pois o formato era eliminatório. E só a partir de 1970, os Mundiais passaram a ter pelo menos um representante africano. Hoje, o continente tem cinco vagas regulares. A Copa de 1982  na Espanha, teve dois representantes, Argélia e Camarões, que não sobreviveram à fase de grupos mas deixaram vítimas pelo caminho. 

Pelos chamados Leões Indomáveis brilhou a estrela do atacante Roger Milla, que entrou para a história como o atacante mais velho a marcar em uma partida de Copa do Mundo dos EUA, em 1994, contra a Rússia.



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