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Índio Costa, o arquiteto que projetou a cidade

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O entrevistado desta segunda-feira pelo nosso repórter JOÃO FRANCISCO WERNECK é o arquiteto consagrado Luiz Eduardo Índio Costa, 80 anos de idade, 55 de carreira e um tempo infinito para realizar os seus incontáveis projetos para o futuro, os que sonha um dia fazer e aqueles, já em andamento, que ocupam toda a sua mesa de trabalho. 

Anunciando-se como “de pouco falar”, Luiz Eduardo se contradisse e, no entusiasmo do assunto, brindou-nos com uma hora de um rico depoimento impregnado com a sua experiência, o talento e a capacidade para compreender o espaço urbano e sua arquitetura, em uma cidade de difícil topografia como é o Rio de Janeiro. 

Reconhecido como o “arquiteto que projetou a nossa cidade”, não há tema que lhe fuja à compreensão. Índio falou das últimas gestões no governo do estado e das dificuldades criadas pela burocracia para arregimentar projetos urbanos. Sua contribuição para a arquitetura do Rio de Janeiro abrange mais de 500 projetos, dezenas de títulos e prêmios, além da assinatura das belas residências que integram a paisagem da cidade. 

Entre seus projetos de maior relevância, destacam-se alguns dos cartões postais mais belos, como o Orla Rio, no calçadão de Copacabana, Ipanema e Leblon, e a restauração de Búzios. O Veículo Leve sobre Trilhos, o VLT, foi sua última grande obra na cidade. Outra grande contribuição de Índio é sua própria tribo familiar. 

O filho, Guto, designer premiado internacionalmente, tem contribuído para a criação do mobiliário urbano da cidade com equipamentos bonitos e de grande praticidade. A começar pelos quiosques da Avenida Atlântica. O filho Antônio Pedro Índio da Costa, ex-prefeitinho do Parque do Flamengo, da Barra da Tijuca, ex-deputado Federal, ex-secretário de Urbanismo e Habitação do Rio. A mulher, Ana Maria Índio da Costa, uma das decoradoras mais festejadas da cidade.  

Como é ser reconhecido como o “arquiteto que projetou a cidade do Rio de Janeiro”? 

Quem projeta a cidade é a população como um todo. Uma cidade vai acontecendo, simplesmente. Só que eu tenho, realmente, vários projetos que se relacionam com a cidade. Alguns residenciais, mais particulares, e outros públicos, ganhos em concursos. O Sesc de Madureira, por exemplo, a escola do Sesc da Barra da Tijuca, os quiosques da Orla. Tem o projeto no Leblon (Rio Cidade Leblon), que foi executado na íntegra, exposto no Moma, em Nova Iorque, e que me deu muita alegria. Esse do Leblon foi muito importante porque a população gostou muito. 

Como arquiteto urbano, quais projetos que mais te marcaram? 

É uma pergunta difícil escolher um entre tantos. Mas acho que o do Leblon, o Rio Cidade Leblon, realmente, foi o que mais me marcou. Foi construído na íntegra, com início, meio e fim, sendo respeitado praticamente todo o cronograma. Embora no projeto houvesse um pedaço da Dias Ferreira, até a praça do Cazuza, cuja ideia era transforma-la em uma rua para pedestres. Isso não aconteceu, uma pena. A Orla Rio também é um projeto bom, que está no meio do processo. Ainda faltam outras áreas, Ipanema, Leblon, São Conrado... 

E o Vlt? 

Nesse projeto eu trabalhei junto com o meu filho (N.R.: Guto Indio da Costa). Ele desenhou as paradas e os veículos, e eu fiz a inserção urbanística do VLT no centro da cidade. Mas essa eu não diria que foi uma obra executada com esmero. Foi uma obra corrida por conta das Olimpíadas, então muito do que foi projetado não foi executado. Tem um trecho do projeto original que eu acho bom, que é aquele que pega a Avenida Beira-Mar. Acho que ficou com uma escala boa. Mas, com alguns pontos lá por dentro, eu não fiquei muito satisfeito. O acabamento, o meio fio, as caixas de passagem, a vegetação, tudo foi feito de forma acelerada, sem capricho.

Há algo que você gostaria de ter feito, projetado, mas nunca teve a oportunidade? 

Enquanto discutíamos a Copa do Mundo, naquele tempo, o assunto era a reforma do Maracanã, se seria feita ou não, e em quanto ficaria. Eu propus um local que eu achava muito bom para a construção de um estádio, perto do Fundão, na Baía de Guanabara. E a ideia era fazer um estádio que desse a sensação de flutuante. E ali têm a Avenida Brasil, a Ponte Rio Niterói, a proximidade do aeroporto do Galeão, uma série de benefícios para se construir ali, ao contrário do que foi no Maracanã, que cada vez que funciona perturba aquela área todo. Os teleféricos, outro projeto, também nunca foram levados à diante. Minha ideia era fazer uma linha de teleféricos a partir do Pão de Açúcar, uma extensão, da Urca para o Leme, Babilônia, e depois de Copacabana para Botafogo. Eu acho que esse projeto um dia ainda pode ser feito. O Rio de Janeiro tem uma condição especial, sua topografia. Se não ocuparmos os morros, a população os ocupa, e aí acontece a favelização, as construções ilegais...

A arquitetura pode ser uma solução para mobilidade urbana na cidade? 

A arquitetura urbana pode. Essa parte de mobilidade urbana, aqui no escritório, é trabalhada com o Guto, o meu filho. De qualquer modo, nós trabalhamos sempre em conjunto. E eu acho que um dos problemas mais sérios do Rio de Janeiro é a mobilidade urbana. Só que cidade tem essa característica especial, de topografia, áreas inundadas, baixo nível em relação ao mar. Mas é justamente por isso que ela é tão atraente. Ela é diferenciada. Mas nós temos, como sociedade, exemplos de soluções arquitetônicas para os problemas na cidade. O próprio VLT, o Aterro do Flamengo... O problema é que hoje existe uma burocracia muito grande para se realizar esses tipos de obras. Até mesmo uma linha de teleféricos encontra problemas com a legislação ambiental da cidade. 

Fale um pouco sobre essa situação… 

Sinceramente, não é o momento de falar muito sobre isso. Existem projetos de lei na Câmara que visam mudar essa situação, mas é melhor não falar sobre isso antes da hora, porque tudo pode mudar. O que eu sei que é que a filosofia da legislação que está sendo discutida é flexibilizar uma série de coisas. Uma das coisas de que o Rio de Janeiro mais sofre é da setorização. Veja, durante muito tempo foi proibido construir moradia no centro da cidade. Era a única cidade do mundo onde o centro ficava vazio e morto durante a noite toda. Um absurdo, em toda cidade do mundo as pessoas moram na Quinta Avenida, no Champs Elysées… A cidade muito agradável é aquela que não tem guetos. E o Rio de Janeiro está cheio de guetos. Então, essa proposta de uma nova legislação tenta, de alguma maneira, mudar isso tudo, e ao mesmo tempo permitir o misto. Quer dizer, por que você não pode trabalhar no mesmo prédio onde seu vizinho mora?

O Rio de Janeiro passou por profundas alterações nos últimos anos em função dos Jogos Olímpicos. Como você avalia essas mudanças? 

Há muitas coisas que são extremamente positivas, como a retirada da Perimetral, que indiscutivelmente foi um ganho enorme para cidade. O VLT, mesmo, é outro ganho. De forma geral, eu avalio positivamente. Faria alguma crítica à qualidade das obras. Aquela obra da ciclovia na Niemeyer, por exemplo. E eu acho um exagero absurdo aquela ponte pênsil na Barra da Tijuca, totalmente fora de escala, agressiva, quase que exibicionista. No fundo, acho que era Santo Agostinho que dizia isso, a beleza é a expressão da verdade. Ele tem razão. O que é bonito é algo verdadeiro, que tem função. Forma e função caminham juntos no modernismo. Eu acho que faltou integração social nos projetos desenvolvidos ao longo das Olimpíadas.

A sustentabilidade é, hoje, um conceito de? nido na cabeça dos arquitetos que estão saindo das universidades? 

O conceito de sustentabilidade é antigo, existe desde a Segunda Guerra. Na minha infância, na década de 40, a gente tinha uma série de detalhes e cuidados que implicam essa sustentabilidade. Não havia plásticos, por exemplo. A água era racionada, poupada. Enfim, pequenas atitudes que denotavam uma preocupação com a sustentabilidade. Depois da Guerra é que surgiu essa sociedade do desperdício. Tudo se joga fora, nada se conserta. Há uma espécie de ilusão de que os bens são infinitos. Temos que tomar cuidado. Hoje, temos recursos muito maiores para sustentabilidade. Precisamos usa-los. A Escola do Sesc na Barra tem reaproveitamento de água. Mas o conceito, e isso é importante, é antigo. Na Europa, hoje, há centros de geração de energia solar para uma cidade inteira. Estamos atrasados com relação a isso.

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NO APAGAR das luzes antes de vigorar a legislação eleitoral, saiu a MP da venda e concessão de distribuidoras de saneamento básico. Com ela, o governo abre mercado somente onde interessar ao investidor. Risco zero. Exemplo: pra vender saneamento na Zona Sul, abre-se a licitação; pra Pavuna, onde as obras são mais precárias e os riscos maiores, a conta é nossa. o ?lé pra eles, o osso roemos nós.



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