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A volta das velhas doenças

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Os últimos relatos de entidades sanitárias, levantados em zonas populacionais de grandes e médias cidades, estão a recomendar a abertura de espaço para outra prioridade, entre tantas que já convocam a atenção do país. Trata-se da necessidade de uma política urgente capaz de conter, para depois superar, o ressurgimento de doenças, algumas das quais já tidas como definitivamente erradicadas. Considere-se o exemplo do sarampo, que havia sido sepultado há dois anos, mas reaparece em setores pontuais. Nem a inadmissível caxumba, segundo os relatórios; doença que havia ficado esquecida na infância de velhos brasileiros, isolados e febris, com os rostos condenados a mau-cheirosos emplastros. 

As atuais referências, como preocupações maiores, referem-se à rubéola, varíola, tuberculose e poliomielite. Uma razão a mais para preocupar é que elas atormentam não apenas regiões pobres, pois nas classes altas as pessoas, equivocadamente, costumam se julgar suficientemente imunizadas, graças aos recursos que têm à mão. Entre os carentes, além da falta de recursos, incidem escassas informações. Tudo se somando para explicar as preocupações que estão sendo abertas ao conhecimento público. 

As reações do governo e da sociedade, de modo geral, terão de se concentrar em dois objetivos. O primeiro, inevitável, é ampliar a assistência às áreas em que os focos desses males mostram-se mais frequentes, com capacidade de se alastrarem. O atendimento tem de levar o cuidado de impedir a expansão, sempre desastrosa. São os especialistas que alertam. 

Num ângulo seguinte há que se levar a sério, mais que a seriedade que já se tem dado, o ponto nevrálgico da imunização, coisa em que nosso povo só gosta de acreditar nas emergências epidêmicas. Importante é que uma campanha eficiente possa despertar o hábito da vacinação, remédio preventivo do qual não convém duvidar, se estiver em causa o mapa de eficácias. 

Em 1992, quando foi a Minas inaugurar um hospital que tem seu nome, o grande cientista Albert Sabin, criador da vacina oral contra a poliomielite, lembrou, no discurso em que agradeceu a distinção, que compete ao brasileiro assumir uma ”cultura imunológica”; quer dizer, acreditar mais nos remédios que imunizam; e, acreditando, poder vencer moléstias que, não combatidas, podem se converter em tragédia. Sabin morreu, no ano seguinte, sem que seu conselho fosse levado a sério, a não ser em ocasiões esporádicas, quando os problemas recomendam agir rápido. 

As estatísticas são claras ao revelar doenças que infestam várias regiões e que não podiam ter vez neste século, principalmente quando desabam sobre localidades desassistidas em tudo, e onde a assistência médico-ambulatorial é escassa. Entre aquelas, cada dia mais incidente, com justo espanto, a tuberculose, veterana assassina das Guerras Mundiais. 

Pergunta-se, então: o que fazer, diante desse desafio que acaba de ser exposto por credenciadas organizações?  Primeiro passo, parece lógico, é a convocação de especialistas e estrategistas em sanitarismo que possam começar pontuando áreas prioritárias para atendimento imediato. Confiando-lhes algo semelhante a uma grande cruzada por este Brasil imenso, levantando de novo a bandeira da erradicação de males cujo ressurgimento é algo constrangedor, não apenas pelas dores que causam, mas também por mostrar um grande atraso social. É como se cedêssemos à barbárie, regressando aos dias em que as moléstias matavam pessoas como se fossem moscas. Não podemos reeditar esse risco.



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