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Passeata dos 100 mil: Jean Marc von der Weid analisa significado das manifestações de 1968

Jornal do Brasil JEAN MARC VON DER WEID* ESPECIAL PARA O JB

"Abaixo a ditadura” diziam cartazes e palavras de ordem cantadas em coro por multidões em manifestações onde os estudantes eram uma pequena minoria, embora fossem os seus promotores e organizadores. Sim, é bom lembrar que a totalidade dos estudantes universitários do Brasil em 1968 superava em pouco os 200 mil. Só no Rio de janeiro foram 100 mil pessoas a desfilar entre a Cinelândia e a Candelária. Em todas as capitais e em muitas outras cidades, passeatas de porte similar e até (em proporção ao tamanho das cidades) superiores levaram talvez um milhão de manifestantes às ruas. 

A Passeata dos Cem Mil foi considerada o auge de uma sequência de episódios que começaram em maio, com uma greve da Faculdade de Química da UFRJ, onde eu presidia o Diretório Acadêmico. Minha faculdade mobilizou cerca de 500 estudantes de forma permanente, por cerca de 30 dias, e culminou com uma greve geral para todas as salas de aula da UFRJ, Uerj, PUC e UFF, além de outras menores e privadas. Ganhamos no voto a proposta da greve geral contra a política educacional da ditadura, que previa a transformação das universidades públicas em fundações privadas e seu direcionamento para cursos de engenharia operacional, de três anos, pagos pelos estudantes. A proposta pela greve da Química era por “mais verbas federais; abaixo as fundações”. As dezenas de grupos de propaganda da greve levaram a proposta também para as ruas, colando cartazes de denúncia em postes e tapumes do Centro da cidade e na Zona Sul, além de distribuir centenas de milhares de panfletos para estudantes e para o público em geral. 

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A greve geral foi um sucesso total, combinada com manifestações no Centro que levaram perto de 5 mil estudantes às ruas — a maior manifestação estritamente estudantil até então. Esta primeira manifestação foi seguida por outra, convocada para o pátio do MEC, às 12 horas, do dia 19 de junho. Desafiei o ministro da Educação, Tarso Dutra, pelos jornais, a receber os estudantes e, também pela imprensa, ele se disse disposto a dialogar. No entanto, ao chegarmos ao MEC, com cerca de 2 mil estudantes (sim, a participação já estava em queda), fomos recebidos pela Polícia Militar, com bombas de gás lacrimogêneo e cassetetes. Pela primeira vez , decidimos reagir e atacamos a PM, expulsando-a do pátio do MEC, mas o ministro, é claro, não apareceu, e nós partimos em passeata pela Cinelândia, seguindo para a Uruguaiana. A adesão dos populares aos nossos discursos foi espetacular, e milhares se juntaram para nos ouvir denunciar a repressão e a política da ditadura. 

Quando a manifestação já estava em processo de dispersão, um carro do exército foi virado e incendiado perto da Rua Buenos Aires por um pequeno grupo de estudantes. Embora eu não tivesse participado do episódio,  fui preso com três outros estudantes, entregue pela PM ao Exército e fui acusado da autoria. No dia seguinte, a direção do movimento estudantil convocou uma assembleia no Teatro de Arena da reitoria da UFRJ, na Praia Vermelha, com a presença de perto de mil estudantes, mais da metade deles da Química, que fi cou em polvorosa com a minha prisão. Esta assembleia acabou com a PM massacrando e prendendo 300 dos manifestantes no campo do Botafogo, onde eles tentaram se refugiar. As manchetes dos jornais do dia seguinte chocaram os leitores com a brutalidade da PM. O movimento estudantil tentou reagir com mais uma manifestação, praticamente convocada por telefone, mais uma vez no Centro. Cerca de 300 estudantes protestaram na frente da embaixada americana contra os acordos entre os Estados Unidos e o regime militar para promover a reforma universitária por nós denunciada. A polícia civil atirou nos manifestantes, ferindo e matando uma dezena deles e provocando a sua dispersão. Entretanto, enquanto os dirigentes do movimento se refugiaram nas faculdades da Praia Vermelha, um pequeno grupo, levando camisas manchadas com o sangue dos feridos como bandeiras de luta, dirigiu-se para a Avenida Rio Branco e fez a primeira barricada, interrompendo o trânsito. Do meio dia à noite, uma verdadeira insurreição popular aconteceu no Centro. A PM foi expulsa das ruas por milhares de pessoas comuns, agindo de forma espontânea e sem direção política. Só à noite uma tardia intervenção do Exército conseguiu esvaziar o Centro e encerrar a mais importante manifestação contra o regime militar até o final dos anos 70, associada às greves e manifestações do ABC paulista.

A Passeata dos Cem Mil só foi possível, cinco dias depois da “Sexta-Feira Sangrenta”, pelo imenso impacto nacional dos acontecimentos do Centro do Rio de Janeiro. A esta altura do campeonato, a natureza e o conteúdo das manifestações já não eram os mesmos do início. As passeatas passaram a ser populares e, de especificamente universitárias, a generalizadamente políticas. A organização e a direção dos eventos continuavam a ser do movimento estudantil, devido ao seu papel catalizador da participação popular e pela desorganização dos outros setores participantes, mas alguns destes já apareceram nos cem mil agrupados de forma embrionária em artistas, professores, religiosos etc. As lideranças estudantis entenderam esta mudança de qualidade das manifestações até o momento em que propuseram e criaram a “Comissão dos Cem Mil” para dialogar com o ditador presidente. A comissão tinha dois estudantes, um professor e um padre, e pretendia “representar” as amplas massas desorganizadas, mas combativas, que participaram das manifestações. 

A grande falha da direção do movimento estudantil foi ter recuado do papel de vanguarda política que as circunstâncias lhe atiraram ao colo. Ao encontrar com o general Costa e Silva, os dois estudantes da comissão assumiram o diálogo e propuseram uma agenda estudantil e reivindicativa. As massas que a comissão “representava” gritavam por democracia e liberdade, mas os estudantes pediram reforma universitária, reabertura do restaurante estudantil do Calabouço, no Centro, mais verbas para as universidades e a libertação dos estudantes presos (no caso, eu e meus três companheiros, àquela altura encarcerados no quartel da Polícia do Exército, futuro centro de torturas, na Rua Barão de Mesquita, em Vila Isabel, na Zona Norte).

A conjuntura implorava por um programa democrático do tipo assembleia constituinte, liberdade de organização partidária e sindical, liberdade de imprensa, eleições livres e anistia política. Pode-se discutir a inutilidade de um programa desta natureza do ponto de vista de sua receptividade por parte do general, mas as reivindicações estudantis específicas também foram ignoradas pelo ditador. A questão não era se esta negociação era viável (ela só ocorreria 11 anos depois), mas o recado não era para o general, e sim para o público em geral, que estava ligado aos acontecimentos. 

A “Comissão dos Cem Mil” (e a liderança do movimento estudantil) perdeu uma ótima ocasião de lançar uma plataforma democrática capaz de mobilizar a sociedade brasileira. Por que não o fez? Acho que pela crença generalizada na esquerda que dirigia o movimento que pregava a inevitabilidade da luta armada para derrubar o regime e, portanto, sua descrença na agenda democrática. 

O movimento estudantil se dividia, na época, entre várias tendências. As tendências castristas viam os estudantes como uma fonte de quadros políticos — para seus partidos clandestinos — e de combatentes — para a guerrilha que derrubaria a ditadura —, sempre subordinados aos operários e camponeses, que, segundo as teorias, deveriam ser a direção e a base principal da luta armada.  Para estas tendências, o movimento estudantil devia se ater a um caráter sindical e específico. Outras tendências viam os estudantes como uma força de oposição política ao regime, mesmo se suas teorias também indicassem uma “hegemonia de camponeses e operários na luta de classes contra a ditadura”. A diferença, pelo menos até o fim de 1968, estava na ênfase destas tendências no papel político do movimento estudantil. No entanto, para este grupo, até a ideia de se encontrar com o general era um erro, independentemente da agenda a ser apresentada. No fundo, as esquerdas de 1968 não acreditavam na luta democrática e rejeitavam qualquer aliança com os setores que a propunham, como a Frente Ampla de Jango, Lacerda e Juscelino, ou a oposição legal do MDB. A exceção era o desgastado PCB, que estava tão isolado no movimento estudantil, que não chegou a obter 30 votos entre os cerca de 800 eleitores no 30º Congresso da UNE, que acabou me elegendo presidente, no começo de 1969. 

Foi preciso o quase total desmantelamento das organizações da esquerda brasileira, entre o AI-5 e o fim do governo Geisel, para os remanescentes se juntarem a mais amplos movimentos populares, a fim de defender uma agenda democrática e acelerar o fim do regime militar.

*Economista agrícola, especializado em planejamento participativo e desenvolvimento sustentável, 72 anos 



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