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Crise traz oportunidades para o circuito da moda

Jornal do Brasil IESA RODRIGUES, ESPECIAL PARA O JB

Atualmente, visitar um shopping surpreende pelo número de portas fechadas, graças à falta de clientes e ao custo dos aluguéis. Ao mesmo tempo, surgem novas vitrines em pontos normalmente considerados caríssimos. São os novos criadores cariocas, corajosos e atentos às oportunidades do momento, já que as pesquisas de campo revelam aluguéis abaixo dos R$ 10 mil e ausência de cobrança de luvas.

Tudo à venda, na Garcia

Um point do luxo, equivalente à paulistana Oscar Freire ou à parisiense Montaigne, a Garcia d’Ávila perdeu joalherias, lojas de decoração e restaurantes. Mas a dupla Thomaz Azulay e Patrick Doering não tem do que reclamar da boutique The Paradise, inaugurada entre Nascimento Silva e Redentor, depois de seis meses de obras até finalizar o projeto de Ilana Laylac que deu o jeito de warehouse (armazém), de tijolos aparentes contrastando com o lustre e as colunas em relevo em uma das paredes.

“Sempre surfamos contra a maré, abrimos a marca há três anos, no auge da crise. Começamos virtuais, desde as estampas exclusivas até as vendas, entramos no atacado e conseguimos 25 pontos de venda no Brasil. Abrir loja era inevitável, aproveitamos as oportunidades da crise, que acaba com as luvas e os aluguéis absurdos. Além das coleções de peças praticamente exclusivas, de tiragem mínima, temos máscaras do Panamá, móveis, antiguidades, as fragrâncias Sirin e Alkonosta, desenvolvidas por Eloi Nascimento, da Casa Bon Ton, as bijus de madeira da Prisma. Para nós, este espaço de 35m2 é um verdadeiro gabinete de curiosidades”, definem Thomaz e Patrick, em meio aos belos modelos de saias, vestidos e calças desprendidas do marketing comum do varejo e sem restrições de feminino e masculino. 

Masculino, sem ser balneário

Depois de dez anos no Projac, Rodrigo Capiberibe cedeu à vontade de fazer roupa masculina. Um objetivo difícil, convencer os homens a consumir moda. Há oito anos reunido com amigos no botequim Pavão Azul, em Copacabana, deu a partida no projeto da Capi - pronúncia Capí, como seu sobrenome abreviado. Há cinco anos abriu a loja em Ipanema e há três, no Rio Sul, com direito à mudança recente do quarto para o segundo piso _ mais um case de aproveitar a oportunidade, já que os shoppings estão flexibilizando o acesso aos espaços.

“Do pipoqueiro à Apple, todos sofrem com a crise. Tem que acreditar no trabalho, vencer o desafio de trazer o homem para a loja e apresentar a marca. Uma vez próximo, ele curte o nosso básico moderno. Somos muito exigentes, cuidadosos nos detalhes, definimos o estilo como metrópole, em lugar de balneário. Estamos mais para geométricos do que para estampados nem padrões caretas. E só temos um probleminha: somos pequenos, com demanda de marca grande! 

Sem sobras em Ipanema

Representante da nova linha sustentável da moda, a psicóloga Natalia Paes não admite sobras de tecidos nas coleções da Augustana. Depois de participar da Feira Hype, do coletivo Carandaí e de dois anos funcionando em uma sala em coworking no Jardim Botânico ela finalmente deu vitrines para a sua grife. Onde? Na Rua Henrique Dumont, antigamente um dos pontos quentes e caros de Ipanema. Continua quente, mas os custos ficaram convidativos até para os novos criadores, que aproveitam os aluguéis abaixo dos R$ 10 mil. Desde novembro Natalia Paes, proprietária e designer da Augustana, conquista a clientela com o conceito da sustentabilidade: sem sobras de tecidos nas roupas, a loja toda trabalhada em materiais reciclados, com um ar fabril dado pelos gradeados e as prateleiras em metais reaproveitados onde ficam os tênis da Vert, calçados franco-brasileiros famosos pelos materiais e produção ecológicos. “As pessoas estão mais conscientes, mais questionadoras. Arrumei a casa de forma a ter uma produção enxuta, gerir bem o estoque, sem desperdício. Não quero formar uma megarrede, tenho um formato mais de ateliê.” Nos cabides, há parkas, malhas, saias de seda, os preços vão de R$ 138, por blusas de malha a R$ 1.198, por um longo de seda. Tudo para facilitar construir o look em camadas, a visão mais sustentável da moda atual, pela versatilidade.

Varanda na Dias Ferreira

A rua que foi o centro do agito chique carioca, com aluguéis beirando os R$ 30 mil e luvas em torno dos R$ 200 mil, quase virou um deserto de comércio. Os prédios comerciais lutam para manter as salas ocupadas. E há quem aproveite a fase e consiga uma bela varanda anexa ao seu showroom, como a Ana Victoria Lemann, psicanalista de formação, dona da Ana Vic., recém-instalada no prédio do Esch Café. 

“Minha coleção tem tudo o que gostaria de vestir. É confortável, desestruturada, nada fica apertado. É um feminino com uma pegada japonesa. Estamos aqui em meio a ONGs, depois de oito meses de preparo e produção”, conta Ana Victoria, que classifica seu trabalho como atemporal, com estampas exclusivas baseadas nos desenhos da mãe, Maria Quental. Na varanda, acontecem shows de jazz, exposições de arte e eventos animados. Um clima de casa, em plena Dias Ferreira.

“As coisas não vão melhorar tão rapidamente. Mas não pretendo desertar, gosto do Rio, quero ajudar a cidade. Temos de ir adiante, bola pra frente”, arremata mais uma integrante do grupo de corajosos da moda carioca.



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