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Diretor de cults, Gus Van Sant, lança drama sobre cartunista alcoólatra

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA*, ESPECIAL PARA O JB

Encarado como um super-herói LGBT pela comunidade gay, por um histórico de militância contra a homofobia nas telas que vem desde “Garotos de programa” (1991), Gus Green Van Sant Jr. ganhou uma data bastante inusitada para lançar seu novo filme, o drama “Don’t worry, he won’t get far on foot”, em seu país. Estreia lá no dia 13 de julho, um período talhado para blockbusters de vigilantes mascarados, atípico para produções intimistas como a dele – aqui, nem sinal de lançamento dele ainda. 

Porém, Van Sant, aos 65 anos, não considera (nem teme) a hipótese de vender poucos ingressos. E não é pelo fato de que filma por necessidade artística e não por cifras: seu nome virou uma grife autoral de sucesso (de bilheteria inclusive) há duas décadas. Há 21 anos, com “Gênio indomável”, ele devastou concorrentes ao faturar US$ 225 milhões e, dali adiante, os trabalhos dele sempre deram lucro e ganharam prêmios. Fora isso, o circuito americano, lotado de aventuras de viés infanto-juvenil, carece de uma história para adultos, como a saga de John Callahan (1951-2010), alcoólatra que, após ficar paraplégico num acidente de trânsito, virou um cartunista classe AA no quadrinho mundial. 

“Eu devo este filme a Robin Williams, pessoa querida a quem eu dirigi em ‘Gênio indomável’. Ele comprou os direitos dos cartuns de Callahan ainda nos anos 1990, sonhando em fazer uma cinebiografia do desenhista. Robin era amigo do ator Christopher Reeve, o Super-Homem dos anos 1970, e sonhava dar a ele o papel de Callahan. Era uma época em que Reeve (morto em 2004) estava numa cadeira de rodas e Robin queria que eu ajudasse ele a produzir esse projeto que nunca chegamos a tirar do papel”, lembrou Gus Van Sant, em entrevista ao JB durante o Festival e Berlim, onde o longa disputou o Urso de Ouro, saindo de lá ovacionado. 

“O tempo foi passando, compromissos distintos foram nos separando, e, uma hora, soube da notícia e que Williams havia morrido.  Anos antes de Robin partir, Reeve também se foi. Não fazia mais sentido tocar aquela ideia. Mas, há pouco tempo, saindo do filme ‘The sea of trees’, sobre purgação, essa história voltou à minha mão. E eu queria muito um bom enredo para filmar com Joaquin Phoenix de novo. Era o momento de voltar a Callahan”. 

Bem diferente das narrativas experimentais mais radicais do diretor, como “Paranoid Park” (2007) ou “Elefante” (2003), pelo qual ele ganhou a Palma de Ouro em Cannes, “Don’t worry, he won’t get far on foot” é um dramalhão sobre perseverança, com pinta de autoajuda, de empapar lenços a choro, talhado a disputar indicações ao Oscar. Vai da tragédia à fofura sem perder o rebolado do encanto, sobretudo pelo empenho de Joaquin Phoenix ao reviver os dias de luta de John Callahan, após um acidente que tira os movimentos de suas pernas. “Todos os fantasmas ali passam pelo alcoolismo”, disse o ator, que trabalhou a partir do livro homônimo de Callahan, com cartuns e memórias pessoais. 

Mais do que o desejo de secar garrafas baladas adentro, Callahan tinha múltiplos traumas em sua alma a driblar, começando pela relação com o pai. Mas, ao virar cadeirante, após uma farra com outro beberrão, Dexter (Jack Black), ele precisa aceitar sua nova realidade, usando a arte do desenho como ferramenta de exorcismo de seus demônios. 

Além de extrair o melhor de Phoenix e de Black, Van Sant faz a atriz Rooney Mara brilhar, fazendo dela a namorada de Callahan, e arranca de Jonah Hill a melhor interpretação de sua vida. Magrinho, longa do visual obeso e debochado pelo qual ficou conhecido em “Superbad – É hoje” (2007), Hill dera provas de seu talento dramático antes, tendo concorrido ao Oscar por sua atuação em “O homem que mudou o jogo”, de 2011, e em “O Lobo de Wall Street”, de 2013. 

Mas nada se equipara ao que ele faz em “Don’t worry...”: um ex-alcoólatra soropositivo, gay, sempre de piteira nos lábios que comanda um grupo de recuperação para dependentes químicos. “É impressionante como Hill busca uma nova imagem pra si. Tive a honra, na minha carreira, de trabalhar com muitos jovens talentos que almejavam uma reinvenção, como Keanu Reeves e Matt Damon. É bonito ver um astro se lançar ao risco, mesmo que momentaneamente, antes de voltar aos projetos milionários da indústria”, elogiou Van Sant. 

“Hill e Joaquin foram delineando seus personagens no set, sem amarras às figuras reais que os inspiravam. Callahan virou uma figura pop na web, quando seus desenhos caíram no gosto da internet. Havia em mim um desejo de ser o mais fiel possível aos fatos da vida desse artista provocador, abalado pelo álcool. Mas eu precisava dar liberdade aos atores. Criar com eles”.

Homenageado ao Brasil em 2017, na mostra Mix Brasil, Van Sant sofreu um baque em sua carreira em 2015, ao ser vaiado em Cannes ao fim da projeção de “The sea of trees”. Aquele filme era uma investigação metafísica sobre a morte, que chegou ao Brasil apenas em DVD e na TV. Houve quem dissesse que sua carreira jamais seria levada a sério de novo. Mas a boa acolhida a “Don’t worry, He won’t get far on foot – apesar de sua linha moral (açucarada) soar incomum frente ao ethos questionador do diretor de cults como “Drugstore Cowboy” - parece ter devolvido créditos à reputação do diretor.

“Gus Van Sant é um diretor irregular, que ao se reinventar, perde-se algumas vezes. Mas este talvez seja o melhor trabalho dele. Redondo na forma e muito afetivo em sua representação de mundo”, avaliou o jornalista francês Michel Ciment, editor da revista “Positif” (e, para muitos, o maior crítico de cinema da Europa), ao fim da projeção da saga de Callahan na Berlinale. “A atuação de Joaquin está impecável”.

Agora é ver o que o mercado vai dizer. “Quando eu fiz meu primeiro longa, ‘Mala noche’, em 1986, gastei tudo o que ganhei dirigindo publicidade e tirando fotografias para bancar o meu sonho de filmar com liberdade. Era uma história de amor gay, em P&B, feita por um anônimo. Deu certo: virei cineasta, fiz carreira, mas nunca criei ilusões em relação ao afeto popular. Há filmes que agradam, outros, não. Mas o que importa é poder dar o seu recado a partir deles, com o máximo de empenho e verdade”, disse Van Sant. “Fiquei muito tempo olhando para a juventude. ‘Elefante’ nasceu do meu interesse pela adolescência. Agora é hora de falar das angústias dos adultos”.

*Roteirista e presidente a Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ)



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