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Impactos da transformação digital

Jornal do Brasil ANDRÉ L. MICELI*

As últimas décadas foram testemunhas de importantes mudanças sociais e tecnológicas. Atualmente, quase três bilhões e meio de pessoas estão conectadas à internet através de aproximadamente 15 bilhões de celulares, computadores, tablets e muitos outros aparelhos. A velocidade de conexão, associada à diminuição dos custos de processamento e armazenamento de dados é responsável por importantes mudanças. É difícil chegar numa definição universal do que significa dizer que vivemos um processo de transformação digital. De todo modo é possível dizer que trata-se de uma mudança cultural que demanda da sociedade um desafio contínuo do status quo. Isso, às vezes, significa afastar-se de hábitos de longa data em favor de práticas relativamente novas, que ainda estão sendo definidas.

 Os principais cuidados dos líderes desse processo devem ser a preservação das culturas locais e a integração da tecnologia com a vida humana. Todo esse processo tem implicações sociais, em organizações e em indivíduos. Os poderes transformadores da inteligência artificial, big data, internet das coisas, tecnologias móveis e blockchain acabarão por gerar uma quarta revolução industrial. A evolução deve aumentar o padrão, a expectativa e qualidade de vida. No entanto, também pode ter efeitos disruptivos, sobretudo nos mercados de trabalho. É fundamental para a sustentabilidade de nossos modelos sociais que a rápida mudança tecnológica seja gerenciada de modo a maximizar os benefícios e minimizar os efeitos negativos de tais transformações. Isso inclui equipar nossos cidadãos de todas as idades com ferramentas e capacidades para participar plenamente e com sucesso de todo o processo. Das muitas áreas impactadas, certamente duas das mais relevantes são sustentabilidade ambiental e a adequação de empregos e habilidades. Dados do World Economic Forum mostram que, por cada aumento de 1% no PIB global, as emissões de CO2 aumentaram aproximadamente 0,5%, e a intensidade de recursos, 0,4%. 

As práticas comerciais atuais contribuirão para uma diferença global de 8 bilhões de toneladas entre a oferta e a demanda de recursos naturais até 2030, traduzindo para US$ 4,5 trilhões de crescimento econômico perdido até 2030. Segundo o portal inglês “The Guardian”, o uso estimado de energia da rede bitcoin, que é responsável pela verificação das transações feitas com a criptomoeda, é de 30,14TW/h por ano, o número é maior do que o de 19 outros países europeus. A rede consome cinco vezes mais eletricidade do que é produzido pelo maior parque eólico da Europa, o London Array. Nos níveis atuais de consumo de eletricidade, cada transação individual de bitcoin usa quase 300KW/h de eletricidade – o suficiente para ferver cerca de 36 mil chaleiras cheias de água. No que diz respeito a emprego e habilidades, o cenário também é bastante complexo. 

As estimativas atuais das perdas globais de empregos devido à digitalização variam de 2 milhões a 2 bilhões de postos até 2030. Existe uma grande incerteza, com preocupação também com seu impacto nos salários e nas condições de trabalho. Os millennials (geração nascida nos anos 90 e também conhecida como “Geração Y”) possuem uma relação diferente com o “ter”, ao contrário das anteriores. Tal fato explica, em parte, o surgimento de cada vez mais empresas de compartilhamento. A falta desses desejos permitirá uma vida mais barata. Segundo o escritor Yuval Noah Harari – autor do artigo “O significado da vida em um mundo sem trabalho” –, muitos deles serão “inúteis”, pois não produzem e não querem nada. Por fim, a popularização dos mecanismos de realidade virtual e aumentada acabará também por intervir no modo de vida dessa classe. Então é muito provável que inúmeros vivam num ambiente paralelo. Ficarão imersos online e nas redes sociais. Tempos de desafios complexos que devem ser resolvidos por nós, humanos.

* Professor e coordenador de MBA em Marketing Digital da Fundação Getulio Vargas



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