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Bebeto Abrantes narra experiência de contar a história do Rio Paraíba do Sul

Filme “Caminho do mar” entra em cartaz no Rio de Janeiro nesta quinta-feira

Jornal do Brasil BEBETO ABRANTES*, ESPECIAL PARA O JB

Começo com uma informação pouco difundida: 90% do abastecimento da cidade do Rio de Janeiro, ou melhor, do Grande Rio, dependem das águas do Rio Paraíba do Sul. Uns dizem que é um pouco mais, outros, que é um pouco menos, mas a faixa é essa. São quase 9 milhões de pessoas que dependem diretamente da saúde das águas do Paraíba do Sul. 

Isso porque, há 66 anos, em 1952, foi criada a Elevatória de Santa Cecília, em Barra do Piraí, que desvia dois terços do fluxo de água do rio, para um outro rio, o Guandu, que, com alguma licença poética, pode-se dizer que apenas era um “filete d’água”.

Sempre ouvi falar que a água que nos abastece, vinha do Guandu. Mas, que o fato dependia e era resultante dessa obra de transposição, só aprendi  quando fui convidado pela Juliana de Carvalho, da Bang filmes, a desenvolver um argumento e dirigir o filme sobre o Rio Paraíba do Sul, “Caminho do mar” (que entra em cartaz nos cinemas do Rio na próxima quinta-feira). 

Fazer documentários é, antes de tudo, aprender: aprender a observar, dialogar, pesquisar, conceituar, recortar e criar dispositivos, para não me alongar numa lista interminável de verbos (ações) fundamentais à produção de “filmes do real”. 

A dependência radical da cidade do Rio de Janeiro, e em larga medida de todo o estado, das águas do Paraíba do Sul, foi uma das coisas que aprendi no filme “Caminho do Mar”, entre outras que passo a descrever. 

O rio é sua bacia e não apenas seu curso. O Paraíba do Sul é formado por dois rios: o Paraitinga e o Paraibuna. A partir do momento em que eles se encontram e ultrapassam o dique da represa de Paraibuna (SP), forma-se o Paraíba do Sul. Sua bacia estende-se por três estados: São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Esse sistema é todo interligado, e o que afeta qualquer um de seus afluentes impacta também o curso do Paraíba. Todos os ecossistemas que compõem sua bacia merecem a mesma atenção.

Nesse sentido, hoje em dia a principal causa de poluição e degradação do Paraíba do Sul é a falta de saneamento básico nas áreas urbanas e rurais atravessadas pelo rio, ou que estejam dentro de sua bacia. Em quase todos os trechos que filmamos, assistimos, pasmos, serem lançados nas suas águas, esgotos sem tratamento algum. Esse não é um acidente midiático como o do Rio Doce, por exemplo, mas é um mega fator corrosivo da saúde do rio e das populações que vivem às suas margens. E, o pior: é um fato encarado com naturalidade e sem alarde algum, tanto pela mídia, quanto pelas autoridades governamentais responsáveis e por nós, cidadãos diariamente abastecidos pelas águas do Paraíba do Sul. 

Sem mata, não há água. Essa a lição aprendida quando filmamos no Parque Estadual da Serra do Mar, no município de Cunha (SP). Aprendizagem adquirida pela beleza e positividade de passar algumas horas dentro de uma floresta protegida e repleta de nascentes e córregos borbulhantes. 

A mata tem a missão de conservar e fazer com que a água da chuva penetre no subsolo. As nascentes e os rios sem a cobertura florestal tendem a secar. Então, se tirarmos as florestas e as matas ciliares — aquelas coladas ao curso dos rios —, não teremos água boa para o consumo humano. Por escassez e/ ou pela perda de sua qualidade. É aí que está o grande papel da floresta. 

A natureza resiste e informa. Os cientistas alertam: a natureza vai nos dar respostas mais agressivas, porque o desequilíbrio no planeta está grande. 

O fato de o mar na Praia de Atafona, no município de São João da Barra, já ter “engolido” mais de 12 quadras da cidade talvez seja o exemplo mais chocante. O fenômeno tem a ver com o aquecimento global, mas, se agrava localmente, com o fato do rio chegar na sua foz muito fraquejado, como dizem os pescadores. Esse fato desequilibra o embate das marés entre o mar e o rio, salinizando seu curso por quilômetros. 

Por outro lado, o que pude observar em alguns poucos trechos do rio é que os ecossistemas têm grande capacidade de regeneração. Por exemplo: parte das florestas do Parque Estadual da Serra do Mar regenerou-se naturalmente. Simplesmente com o esgotamento de algumas práticas, como o corte de madeiras, o fim da atividade carvoeira e a redução das pastagens. Isso nos dá força e esperança para revertermos a degradação ambiental.

Mudar o olhar. Quando me encontrei com um dos personagens do filme, o aposentado da CSN José Maria da Silva, numa praça de Volta Redonda, após alguns segundos de silêncio, a primeira coisa que ele me disse foi: “Sem mudança de olhar, nada será feito”. Referia-se ao fato de que, embora as civilizações ocidentais, muitas vezes, nasçam próximas e de frente para os rios, não muito tempo depois, elas lhes viram as costas. Ou seja, fazem dos rios depósitos de tudo aquilo que não desejam e/ou querem descartar. 

Portanto, a grande lição é que devemos olhar os rios de frente, com o respeito por algo que é vivo e que muito nos dá. E, cuidá-los e contemplá-los, criando uma relação de troca baseada na moeda da sustentabilidade. Tê-los como parceiros, em vez de querer apenas conquistá-los, represá-los e explorá-los. 

Para isso, há que se ter também um outro olhar sobre o papel que os ribeirinhos que vivem às suas margens devem ter na criação de políticas, soluções e iniciativas para se resgatar a saúde dos rios. 

O conhecimento acumulado por alguns dos personagens que conheci e participam do filme — Domingos Afonso e Sirley Orneles, de São Fidélis, e Silvio de Alcântara, de Barra do Piraí, por exemplo — é indispensável para a formulação de políticas socioambientais. Eles têm não apenas uma exata compreensão dos impactos sofridos pelo rio, como sabem e acreditam, piamente, em sua capacidade de regeneração — claro, desde que tomadas algumas medidas apropriadas. 

Mas isso — e todas as palavras desse texto, escritas a partir de minha vivência de ter ido da nascente mais distante do rio, até sua foz — só faz sentido com políticas públicas sérias, adequadas e contínuas. Em uma palavra, com vontade política. O que começa no desejo e nas atitudes diárias de cada um de nós. 

* Documentarista, roteirista e diretor do ?lme “Caminho do mar”



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