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Decano da PUC não vê contágio da greve à inflação, mas teme a incerteza eleitoral no dólar

Jornal do Brasil GILBERTO MENEZES CÔRTES (GILBERTO.CORTES@JB.COM.BR)

Uma semana de paralisação em atividades importantes da economia, como a produção de automóveis, por falta de componentes e insumos, o que se repete em outras cadeias de produção, reduz ainda mais o ritmo da economia. A inflação, que já vinha aquecida pela alta esperada dos alimentos no segundo semestre e pela escalada do dólar, vai ter impacto da especulação com alimentos e bens essenciais? Em conversa com Gilberto Menezes Côrtes, o economista Luís Roberto Cunha, decano da PUC-RJ, diz que o efeito da greve será passageiro. Ele teme mais o impacto do dólar num cenário de indefinições eleitorais.

O país está com vários setores parados por falta de suprimentos na cadeia de produção e a população e cidades sem abastecimento regular. Essa situação tem impacto capaz de alterar as previsões da economia em 2018?

Os impactos são psicológicos, de curto prazo, mas vão causar um pequeno desvio nas projeções de desempenho da economia para 2018. Espero que não demore muito a superação do problema. A economia já vinha em ritmo de baixo crescimento e isso vai afetar o segundo trimestre. Nos alimentos, depois de dois anos de bonança e queda de preços da alimentação que jogou a inflação abaixo de 3%, nós já estávamos com alguma pressão em grãos devido às quebras de safras dos Estados Unidos e da Argentina, devido a questões climáticas. Ainda assim, é uma pressão dentro da média. Os preços voltaram a patamares normais. E não vejo risco de qualquer estouro de metas, enquanto a economia estiver fraca, sobretudo no setor de serviços.

Para efeito dos cálculos de inflação, pelo IPCA do IBGE, o mês de maio está praticamente no fim, mas a disparada das hortaliças, legumes e alimentos em geral não pode gerar repique?

Sim, alguma coisa, mas são produtos que podem demorar uma semana para ter o abastecimento normalizado, com queda de preços. Isso se ajusta. Já vimos isso acontecer com a economia mais aquecida. Com o desempenho fraco e o desemprego muito alto, manobras especulativas não se sustentam. Podemos sair de uma taxa de 0,14%, que previa para maio, para 0,10% a 0,30% em junho. Nós temos a pressão dos alimentos de ciclo de produção anual (grãos, café, açúcar) e os de ciclo curtos como hortaliças e legumes. Os primeiros me preocupam mais, pela pressão externa. Teremos impactos mais pesados da energia elétrica com bandeiras amarela e vermelha, os recentes reajustes aprovados para os ônibus,  e a grande incógnita do câmbio. 

Que nível de inflação o senhor está esperando para este ano, depois deste episódio? 

Estava prevendo algo na faixa de 3,50% a 3,60%. O que está mudando as projeções dos economistas e do mercado é a escalada do dólar em todo o mundo e que no Brasil se torna um caso particular com as indefinições que cercam o cenário eleitoral. Se o dólar ficar em R$ 3,70 é um cenário; se passa de R$ 3,80 é outra situação. Mas não creio em inflação acima de 4,20% este ano.

A economia está rodando quase 30% abaixo das previsões do início do ano e até 50% menos que o Itaú previa há um ano. Com toda essa debilidade e o alto desemprego, o senhor teme impactos do dólar na inflação?

O Banco Central demorou mas está agora atuando para aliviar pressões no câmbio. Mas o que me preocupa no câmbio não é a conjuntura internacional, com a valorização da moeda dos Estados Unidos, com o esperado aumento dos juros. Mesmo com o hiato de produto no PIB, com setores operando com elevada capacidade ociosa, sempre há o impacto do dólar sobre preços. No caso dos combustíveis, com a disparada do barril e do câmbio, não há como não repassar para o preço final.

O que o senhor achou da proposta do governo para esvaziar a greve dos caminhoneiros, que trocou os reajustes quase diários por mensais para os combustíveis? 

Os caminhoneiros aproveitaram que o governo está desacreditado para paralisar o país. Chegamos a uma situação de emergência, mas faltou visão estratégica. O Brasil está com problemas fiscais e o governo abre mão de receitas. As atividades de óleo e gás vão ajudar a salvar o país, com novos investimentos. Mas, para atrair investimentos internos e externos, temos de ter liberdade de preços e de mercado. No passado, nos anos 70, tentamos impedir isso e deu no que deu. Recentemente voltamos a fazer isso e a Petrobras quase quebrou. Ou se conserta o país para termos investimentos de volta nesta atividade ou vamos ficar sem dinamismo.

O senhor então não vê risco de repique da inflação, mas é pessimista em relação à retomada do crescimento? 

Piorar não pode. Mas sempre dá... Corre-se o risco de uma situação ainda mais complicada no futuro. Este é o Brasil. 



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