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Passinho em pé de guerra

Festival iguala premiação das batalhas a de outros estilos, mas movimento continua na bronca

Jornal do Brasil CLÓVIS SAINT-CLAIR (CLOVIS@JB.COM.BR)

A batalha de passinho que vai acontecer dentro do RIO H2K, a partir das 16h da próxima sexta-feira, na Sala Eletroacústica montada na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, promete ser sinistra. O pessoal do movimento está bolado com os organizadores do festival internacional de dança, que começou anteontem e vai até domingo que vem, e vai entrar com tudo para mostrar que o estilo tem valor e merece respeito. A treta começou há pouco menos de duas semanas, na segunda-feira 14 de maio, quando uma mensagem postada na página oficial do evento no Facebook convocou assim os dançarinos para as já tradicionais batalhas, que acontecem há quatro edições do festival: “Quer ganhar um prêmio no #RioH2KBattles? Corre e se inscreva logo! Cada estilo terá seu próprio ranking e o prêmio é: R$1.500,00 para #breaking, #popping, #locking, #house e #hiphop; R$ 500,00, para a categoria #passinho. Corre lá e se inscreve logo! As inscrições online vão até o dia 30/05!”. 

O que era pra ser motivo de festa se transformou em estopim para uma revolta que rapidamente se espalhou pelas redes sociais. O dançarino, publicitário, poeta e líder do coletivo cultural Biricutico, Mateus Santana,  comentou em cima: “Um evento que é realizado no Rio. E que dá a premiação menor pra manifestação cultural unicamente Brasileira e por ironia, carioca. De todas as edições que eu assisti, é a batalha que mais levanta o público. E que tem a menor premiação. Fazer uso da manifestação é legal, mas valorizar não né?”. 

Em resposta aos comentários do post contendo protestos, os organizadores lembraram o papel do festival no fortalecimento do movimento e justificaram os valores diferenciados como forma de tornar as inscrições mais acessíveis, ressaltando que o objetivo do evento é também promover o intercâmbio entre profissionais de outros estilos de dança: “Em 2015, o Passinho entrou de vez na programação do Festival. Colocamos o espetáculo de Passinho “Na Batalha” para se apresentar no Theatro Municipal, fato histórico tanto para o movimento quanto para o Festival. No mesmo ano, também oferecemos workshops e batalha de Passinho. Durante a elaboração do regulamento da batalha, consultamos pessoas ligadas ao movimento e decidimos fazer um valor de inscrição diferenciado dos outros estilos, que fosse mais acessível. E essa sempre foi a intenção do Festival. A inscrição ser o mais acessível possível para oferecer mais um local de troca para dançarinos do movimento. Para ser justo para todos os lados, por conta desta inscrição diferenciada, também tivemos que alterar o valor da premiação em comparação aos outros estilos. Não seria justo para os dançarinos dos outros estilos que pagam um valor superior de inscrição, receberem a mesma premiação que os dançarinos que pagam menos por isso. A diferença é apenas e somente essa!”. A nota lembrava ainda que o regulamento era o mesmo desde 2015, mas que os organizadores poderiam repensá-lo para as próximas edições.

Primeiro manifesto 

O tom diplomático não surtiu o efeito esperado. Dois dias depois, 42 integrantes do movimento assinaram um manifesto endereçado à organização do RIO H2K, que rapidamente viralizou pelas redes, apontando o que consideraram falhas no regulamento: “1. Que o valor da inscrição fosse menor como incentivo a participação e uma consciência das dificuldades sociais que jovens de favelas vivem, seria nobre, mas o resultado é o constrangimento ante aos demais ganhadores, acreditamos que um evento com inúmeros patrocínios  pode solucionar isso de uma forma mais interessante, propomos que no mínimo o valor de inscrição seja o mesmo para assim então a premiação ser a mesma;  2. Sobre o DJ Jessé Ramiro, conduzir as pick-ups na Batalha do Passinho, acreditamos que apesar dele ser um excelente profissional, ele não faz parte do movimento Funk/Passinho (...)Acreditamos que o Seduty seja o DJ que melhor contempla a batalha, para o melhor ambiência, desenvolvimento da performance e respeito a nossa cultura; 3. E sobre o apresentador, Felipe Ursão, vemos como desrespeitosa a forma como ele conduziu a explicação da dança em um vídeo institucional “ensinando” algumas bases e informando, de forma errada”. A mensagem se encerrava com uma cobrança para que as regras fossem alteradas, sob o argumento de que “não cabe mais esse tipo de erro e que 10 dias é tempo suficiente para que as mudanças ocorram para o Passinho”.

Resposta da organização 

Os organizadores levaram outros dois dias para responder, na noite de sexta-feira 18 de maio, publicando um post em que traziam a público seu posicionamento em relação à polêmica, lembrando a apresentação histórica no Municipal e as negociações do regulamento com representantes do movimento em 2015: “Acordamos em cobrar R$ 10 de inscrição e como o limite máximo de participantes por estilo é de 50 pessoas (vide regulamento), a premiação ficou fechada em R$ 500. O regulamento com essas condições sempre esteve disponível antes, durante e após as batalhas, para a ciência de todos. E desde então, mantivemos estas condições pois não recebemos, de maneira direta, um feedback negativo sobre essa ou qualquer outra questão referente às batalhas de Passinho, até o post no facebook ocorrido nesta semana há menos de 10 dias do evento”. Acrescentava que a organização se manteria aberta ao diálogo e que os valores seriam, enfim, atualizados, mas lamentava que o movimento tivesse levado a polêmica às redes sociais, em lugar de discuti-la internamente com os contatos oficiais do RIO H2K.

 Segundo manifesto 

No dia seguinte, o movimento do passinho publicava um novo manifesto, dessa vez endossado pelo triplo de pessoas em relação à primeira publicação, com 121 assinaturas. No comunicado, acusou a organização de publicar o post na véspera sem que todas as reivindicações estivessem acordadas, “de maneira arbitrária, numa atitude de cima pra baixo, sem nos consultar, MAIS UMA VEZ DEMONSTRANDO DESRESPEITO COM O MOVIMENTO”, e de estarem “mais preocupados em dar uma resposta ao público do que de fato em nos ouvir (...) Não vamos tolerar quaisquer atitudes desse nível, se estamos em diálogo e é porque ainda não atenderam todas as exigências solicitadas. Não concordamos em pedir desculpas, por publicarmos nosso manifesto, e não aceitamos a tentativa de culpabilizar indivíduos que fazem parte ou apoiam nosso manifesto, somos um coletivo”. E terminava o informe repetindo as propostas, solicitando a presença de apenas um DJ nas batalhas; reclamando da solução da organização para igualar o valor das premiações — “Para ‘resolver’ o evento aumentou o valor de inscrição, ou seja, quem está pagando a premiação são os próprios competidores, então o evento em si não terá gastos com isso” —; e exigindo a retirada “do ar do vídeo do RioH2K que ensina de maneira ERRADA sobre as bases do Passinho”. 

Os organizadores não se manifestaram mais pelas redes, mas retiraram o vídeo do ar. Agora, ao que parece, a batalha se restringirá ao campo da dança.



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