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O ciclo da reeleição

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Durante meses, as intenções do presidente Michel Temer oscilaram em meio à conveniência de disputar a reeleição, com sinais de insegurança, certamente influenciado por fatores que se alternavam entre os favoráveis e, num outro polo, as dificuldades, tanto políticas como aquelas geradas pelos embaraços da economia. Ser ou não ser, eis a questão shakespeariana que povoou o cenário do Planalto, onde, na busca da opção por um dos dois caminhos, ambos acidentados, pesaram diferentes aconselhamentos. Por fim, afirma-se agora, o projeto da reeleição sai de cena, para que o papel protagonista fique, num primeiro ato, com o ex-ministro Henrique Meirelles. Não haveria de faltar quem veja nessa substituição um estratagema; um jogo com o tempo para que as alternativas amadureçam. 

Interessante observar que a reeleição de presidentes e governadores nunca foi sistema perfeitamente adequado aos interesses nacionais, embora sempre se apregoasse, a seu favor, o mérito de permitir ao governante, sem os naturais prejuízos da descontinuidade, levar programas administrativos a uma duração mais longa. De fato, atividades diversas, interrompidas depois da primeira eleição, geram problemas. Seria a virtude da recondução de um agente executivo; mérito que provavelmente se faça sentir com resultados mais objetivos quando se trata dos prefeitos, porque com esses o mandato mais longo se opera com real vigor, considerando-se a efetiva dimensão de seus poderes e responsabilidades. 

Quando se trata de um presidente ou governador, a reeleição para novo mandato se expõe a dificuldades maiores, a começar pelo fato de o segundo se projetar, quase invariavelmente, com base em acordos políticos pouco ortodoxos, muito menos republicanos. Como se disse, resta-lhe, a seu favor, não cabe olvidar, a maturação de projetos morosos e de maior envergadura. 

Trata-se de um recurso que, no caso brasileiro, veio manchado com tintas ditatoriais, depois de ter servido a Vargas nos Anos 30 do século passado. Talvez exatamente pela justificada suspeição dessa origem, a legislação eleitoral brasileira sempre procurou negar-lhe acolhida. Em 1987, graças a emenda constitucional, a reeleição ressuscitou, com Fernando Henrique, que logo depois seria contemplado com o galardão de recordista de votos. Mas ficaria, mesmo assim, a marca do expediente condenável que se adotou no balcão de convencimentos para que o Congresso admitisse a novidade. 

O pecado original haveria de impor um preço aos reeleitos que se seguiram, Lula e Dilma, sempre piores no segundo mandato. Sem que padecessem de destinos trágicos e mais cruéis de outros reeleitos no curso da História, vítimas como Lincoln, assassinado; Nixon, derrubado por impeachment; George Pompidou, derrotado pelo câncer; Goulart, apeado por um golpe; Vargas, suicidando-se. Dilma, dramaticamente afastada, também na segunda jornada que empreendia. 

Supersticioso ou não, fato é que o presidente Temer tem revelado vocação para intuir, e agora saber quando as nuvens se mostram ameaçadoras no horizonte para o seguido mandato. Por razões nem sempre produzidas pelo que fez ou deixou de fazer, mas sacrificado por assumir o leme de uma nau em tempo de imensas tempestades, sem nenhum direito a ter garantia da bonança para aliviar sua acidentada navegação. 

Ao assistir à passagem de seu jubileu, a reeleição presidencial pode encerrar o ciclo histórico que produziu, com direito à indulgência plenária, a mesma que desde os tempos bíblicos se concede a quem vivesse o suficiente para celebrá-lo.



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