Jornal do Brasil

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Da Tunísia para o coração de Cannes

Mohamed Ben Attia comove a Croisette com o drama ‘Dear son’

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA*, ESPECIAL PARA O JB

Minúscula em quantidade, mesmo tendo um título em competição pela Palma de Ouro (o drama egípcio “Yomeddine”), a presença africana nas telas de Cannes agigantou-se em termos de qualidade e visibilidade graças a uma pequena produção vinda da Tunísia, hoje elogiada nas mais variadas línguas.

Um retrato da juventude tunisiana em sua luta contra os valores da tradição moral, “Dear son” (ou “Weldi” no original), dirigido por Mohamed Ben Attia, foi revelado na mostra Quinzena dos Realizadores e virou um acontecimento. É uma porta aberta para uma nação que o cinema pouco conhece e funciona, ao mesmo tempo, como um divã para as relações entre pais e filhos.

Custou €1,2 milhão, quase nada frente ao custo médio dos projetos de maior impacto na Croisette (€9 milhões para os europeus; US$ 20 milhões para os americanos), e só teve sinal verde para sair do papel graças ao sucesso do longa anterior de Ben Attia: “A amante” (“Heidi”), que estreia no Brasil no dia 31. Com ele, o cineasta conquistou o prêmio de Melhor Filme de Estreia no Festival de Berlim de 2016, tendo as neuras familiares como foco, a partir de um dilema romântico. “Família é um mal comum a todas as culturas que, um dia, pode acabar, tornando a gente mais livre, porém menos humano”, disse Ben Attia ao JB, em Cannes. “Não sei se a recorrência do meu interesse em dilemas familiares faz de mim um autor. E talvez a questão mais recorrente nas histórias que eu tenho esteja no papel dos jovens no seio familiar. O tempo passa, mas a inquietação e a inadequação dos jovens não muda de cultura pra cultura”.

Classificado com elogios como “magistral” e “perturbador” em sua passagem pela Quinzena de Cannes, “Dear son” parte da relação entre o jovem Sami (Ben Ayed), tímido e alvo de recorrentes doenças, e seus pais. Preocupado com a situação do filho, Riadh (Mohamed Dhrif), um pai zeloso, decide se aposentar para aproveitar mais a companhia do garoto. Mas, em meio à peleja para se aposentar, Riadh é avisado de que Sami desapareceu. Uma tragédia se instaura em seu lar a partir desse ponto.

“Existe uma eterna nódoa de incomunicabilidade entre as gerações que parte, no caso familiar, de uma certa imposição da felicidade como norma. O fato de um pai alimentar, vestir e dar teto a um filho não dá a ele o direito de cobrar do garoto ou da garota uma alegria que pode não fazer parte de seu cotidiano. ‘Dear son’ é uma forma de expor essa dificuldade de conexão entre pais e filhos sem passar por questões religiosas tão inerentes à representação da África nas telas”, disse Ben Attia, que em “A amante” já abordara o tema da opressão familiar. 

Neste último, o jovem Hedi (Majd Mastoura, Urso de Prata de melhor ator em Berlim) aceita que todos o digam o que deve fazer. Apático e indiferente, ele acaba tendo que aceitar um casamento arranjado pela mãe. Durante os preparativos, é mandado numa viagem de negócios à Mahdia pelo chefe. Lá conhece a destemida Rym (Rym Ben Messaoud), uma jovem que trabalha no hotel da região. Apaixonado, e às vésperas do casamento, Hedi é forçado a tomar uma decisão. 

“Nos dois filmes, há um limite tênue entre a subserviência e a libertação. Mas o que mais importa é o fato de que certos conflitos juvenis sempre passam invisíveis aos olhos de quem deveria orientar os mais novos”, diz Ben Attia, comemorando o aumento da produção audiovisual da Tunísia. “Durante 70 anos, meu país fez apenas dois longas por ano. Há menos de uma década, chegamos à marca de 20 longas ao ano, com o apoio de coproduções e a vitrine de festivais como Cannes”.

Na briga pela Palma de Ouro, o coração da Croisette bate a mil por hora pelo thriller americano “BlackKklansman”, de Spike Lee, exibido na segunda. O polêmico diretor resgata fatos reais sobre um policial negro do Colorado que, no fim dos anos 1970, arrumou meios de se infiltrar na Ku-Klux-Klan, grupo supremacista branco. “Depois da passeata extremista da direita racista na região de Charlottesville, em agosto passado, vi que era necessário contar esta história”, disse Spike à Croisette. “Tem muita sujeira rolando no mundo, mas eu mantenho a esperança”.

Ron Howard contra-ataca

Numa galáxia muito, muito distante, na história do cinema, os anos 1970, quando George Lucas era um diretor iniciante, ele escalou para a comédia “American Grafiti - Loucuras de verão” (1973) um novato chamado Harrison Ford e pôs ao lado dele um guri sardento, de fala esganiçada, mas de muito talento, chamado Ron Howard. Mal sabia ele que o menino das sardas tornar-se-ia um dos cineastas mais bem-sucedidos de Hollywood, até laureado com um Oscar (conquistado em 2002, por “Uma mente brilhante”). 

Não por acaso é Howard quem dirige uma das mais esperadas superproduções deste ano, cujo herói foi celebrizado por Ford nas telas: o mercenário estelar Han Solo. É sobre a juventude dele, agora vivido por Alden Ehrenreich, que fala a divertida (porém morna) aventura “Han Solo - Uma história Star Wars”, exibida ontem na Croisette. “Não é sempre que um astro como Ford se dispõe a dar a bênção a alguém, como fez com Alden”, disse Howard à TV oficial do festival antes da gala do filme, agendado para estrear dia 24 no Brasil.

Centrada nos passos que levaram o jovem Solo a virar piloto, esbarrando com um ET peludo chamado Chewbacca, a trama começa na fervura máxima, alternando cenas de fuga e de tiroteio ao longo de seus 20 minutos iniciais. Depois, criam-se barrigas, típicas do estilo (e do ethos) bem comportado de Howard. A inglesa Emilia Clarke (de “Game of Thrones”) é um viço só como o objeto de amor de Solo: a aguerrida e empoderada Qi’ra. Já o ator Donald Glover desaponta como o ladino Lando Calrissian, papel antes feito por Billy De Williams.

Hoje, um desenho japonês vem animar Cannes: “Mirai”, uma fantasia sobre viagens no tempo dirigida por Mamoru Hosoda, um dos cineastas de maior popularidade na Ásia hoje, graças a “O rapaz e o monstro”, de 2015. Em paralelo à sessão desta japanimation - sobre um garotinho capaz de atravessar eras, acompanhado da versão adolescente de sua mãe -, que passa na Quinzena dos Realizadores, a Croisette entra nos embalos de John Travolta. Aliás, ele estava na plateia de “Solo”.

Com um filme de Máfia pronto para estrear, o esperado “Gotti”, o eterno Tony Manero vai dar uma palestra sobre seu método de atuar antes de apresentar a sessão celabrativa dos 40 anos do musical “Grease - Nos tempos da brilhantina” (1978). Cannes termina no dia 19, com a entrega da Palma de Ouro e a projeção do longa “The man who killed Don Quixote, de Terry Gilliam. Spike Lee é o favorito ao prêmio, com o thriller policial “BlackKklansman”. Há um filme francês, visto ontem pelo balneário, que pode dar algum trabalho a Spike na corrida pelas láures: “En guerre”, do novo bamba autoral local, Stéphane Brizé, uma mistura de Ken Loach com Costa-Gavras.

O longa põe Vincent Lindon, o Antonio Fagundes da França, na pele de um líder sindical em conflito pelos direitos trabalhistas dos empregados de uma fábrica. Seu ritmo narrativo dá até taquicardia. (R.F.) 

*Rodrigo Fonseca é roteirista e presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ)



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