Jornal do Brasil

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Conversa no Divã: somente opiniões

Gosto de repensar constantemente minhas opiniões. Aqui vão algumas das atuais.

Jornal do Brasil LUIZ ALBERTO PYLAPY@JB.COM.BR

1. Acho que há mais fé na duvida do que na certeza, e que certezas inabaláveis geram fanatismo e intolerância. Desconfio de quem tira proveito da fé. Acho ainda que devemos evitar nos enganar – mentir para nós mesmos – e precisamos saber que enganar a si mesmo é mais fácil do que enganar qualquer outra pessoa. E penso que o fato de todas as culturas humanas terem alguma espécie de religião – de um sentimento de transcendência – significa que a fé faz parte da natureza humana.

2. Vejo a mim mesmo e a todos nós como produtos da natureza. Nada melhor nem muito diferente do que uma lagartixa, um lobo, uma maçã, ou um abacate. Alguns animais são mais fortes e mais perigosos, outros são mais bonitos e graciosos, alguns até mais inteligentes (nós?). Deveriam se envaidecer por isso? Algumas frutas são melhores, maiores, mais saborosas do que outras. Podem se orgulhar disto? Receberam mais seiva, melhor insolação, a árvore a que pertencem e de onde brotaram estava em um terreno mais fértil ou foi originada de uma semente mais forte e este acaso as fez melhores. Que valor isto tem

É tolo ficar-se envaidecido com as próprias qualidades, tanto quanto ficar envergonhado dos defeitos que temos. O quanto disso dependeu de nossa vontade? Tanto quanto podemos saber, nós não nos escolhemos, apenas nascemos. Com um destino que pouco podemos modificar e características que nos foram legadas – qualidades e defeitos. A tarefa de cada um é simplesmente empenhar-se o mais que puder para aprimorar suas qualidades e neutralizar seus defeitos, assim se tornando o melhor possível. Este é o nosso grande dever e nossa responsabilidade. Nada mais, nem menos. A humildade contida nesta ideia me é confortável. Acho bom que a gente possa ficar contente com nossas boas sortes e também triste quando ela nos falta. Nada além. Pensando em nós como produtos da natureza, fica difícil aceitar a ideia do livre arbítrio. Como não nos escolhemos, seremos sempre apenas aquele que o destino construiu, sem a intervenção da própria vontade. Pois esta própria vontade também não é nossa, mas, para o mal ou para o bem, nos foi outorgada. Assim, a ideia da culpa pelos nossos defeitos me é tão longínqua como culpar uma fruta por não ser adequadamente saborosa.

3. Adoro viver e sei que sou feliz. Minha felicidade nasce da percepção de que ela é interna e imediata, portanto não depende de situações ou de acontecimentos, mas da minha forma de conviver com eles. Sei que – como disse Buda, nas suas quatro nobres verdades – a vida é sofrimento e saber disso me conforta quando estou sofrendo, porque me sinto igual a todo mundo em vez de me sentir perseguido pelo destino. E assim, continuo sendo feliz.

4. Aprendi que quanto mais pessoas amarmos, por mais pessoas sofreremos. Em compensação, por mais pessoas nos alegraremos. Quanto mais amigos, mais enterros, mais esperas angustiadas em corredores de hospitais, porém mais casamentos, mais festas, mais comemorações. 

5. Comemoremos. Tudo é motivo para se comemorar. Quando imagino um cego readquirindo subitamente a visão ou um paralítico milagrosamente voltando a se movimentar, penso na alegria e na comemoração por mudanças tão espantosas. Todo dia, pela manhã, ao acordar, somos um cego recobrando a visão e um paralítico recuperando seus movimentos. Cada amanhecer pode ser um momento de comemoração pelo milagre da vida.



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