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Não estamos sós

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Pelo menos, à falta de melhores razões, consola o fato de os desprestígios decorrentes da corrupção epidêmica não afetarem e infelicitarem apenas o Brasil; ao contrário, triste saber, esse impasse moral disseminou-se por todo o continente, como se sentiu agora nessa Oitava Cúpula das Américas, realizada em Lima. Tal o lastro desse crime, que, naquela capital, o que parecia acontecer era um simpósio de altas suspeições, onde o nosso mal nacional se revelou igual doença dos vizinhos, estejam eles próximos da fronteira ou distantes. Todos os países, feitas as ressalvas de praxe, parecem ser, quando se fala em corrupção, doentes a convalescer em uma única enfermaria. 

Não menos constrangedor, em Lima, foi chegar-se à conclusão de que, afora discursos contorcionistas e protocolares, os governos continentais nada podem fazer uns pelos outros, exatamente porque estão convivendo com os mesmos desafios. O infortúnio dos maus costumes é comum a todos. Peru, El Salvador, Panamá, Paraguai, entre os principais, são, como o Brasil, caminhantes nas veredas que levam ao uso impróprio desse dinheiro sujo, que premia políticos, para tanto saindo fortunas das licitações ou de procedência externa. Dinheiro que virou instrumento de pressão para pagamento de propinas, para comprar ou vender votos; ou para silenciar vozes que podem comprometer. Esse dinheiro voou pelos quatro cantos da América, e em muito contribuiu o Brasil, com seu grande exportador de propinas, a Odebrecht, uma entre as principais empreiteiras, pródigas no lidar com bandidos engravatados. 

Neste jovem continente, onde quer que desembarcassem os agentes da corrupção, a atuação brasileira se revelaria saliente na operacionalização do crime. Estabeleceu-se aqui uma relação promíscua e bilionária entre governantes e prestadores de serviços, o que acabou virando modelo de exportação. Exalava isso em Lima. Se alguém tivesse lembrado esse papel do Brasil, certamente o presidente Temer teria se sentido desconfortável. Mas, se admoestado pelos representantes de outros países, que também corrompem, os interlocutores estariam apenas elaborando num misto de hipocrisia e ironia. 

Pelo que se lê dos primeiros relatos, ficou, contudo, como resultado positivo, a possibilidade de a Organização dos Estados Americanos cobrar, dos entes que representa, ações mais corajosas no combate a esse mal. Se o fizer, não sofrerá o risco de ser acusada de ingerência indevida, mas agindo em consonância com um dos propósitos que a levaram a unir os povos. Além do mais, não estaria cuidando de uma ou algumas sedes da corrupção, porque a infestação é geral nesta parte da América. 

E, se nada fizer, por temer a sensibilidade dos governantes, que a OEA, pelo menos, levante sua voz em nome da moralidade nas ações da política pública, porque, sem isso, a democracia americana estará ofendida. E, considerando-se que o Brasil tornou-se o principal gestor desse crime, pela via das empreiteiras, considera-se adequado que o presidente Michel Temer se pronuncie sobre as impressões que colheu em Lima e se retorna convicto de que o Brasil precisa fazer alguma coisa a mais, além do juiz Moro, do Ministério Público, da Lava Jato e das incursões da Polícia Federal. Ele próprio explicar-se das acusações que vem carregando nos ombros.



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