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Coluna da segunda - Homens honrados

Jornal do Brasil OCTÁVIO COSTA, octavio.costa@jb.com.br

Amanhã, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal vai decidir se recebe denúncia contra o senador Aécio Neves por corrupção passiva ao pedir R$ 2 milhões ao empresário Joesley Batista, dono do grupo JBS, para cobrir gastos pessoais não identificados. Seu destino caiu nas mãos da Turma mais inflexível do STF. Lá estarão reunidos os ministros Luiz Fux, Rosa Weber, Luís Roberto Barroso, Alexandre de Moraes e Marco Aurélio Mello. Este último é o relator da ação movida pela Procuradoria Geral da República, que baseia sua denúncia na gravação de diálogo entre o senador mineiro e o polêmico empresário.  Estão envolvidos também Andrea Neves, irmã de Aécio, Frederico Pacheco de Medeiros, seu primo, e Mendherson Souza Lima, assessor e cunhado do senador Zezé Perrela.

Se não houver surpresas, Aécio pode se preparar para o pior.  Com seu linguajar agressivo e debochado, o ministro Gilmar Mendes, que pertence à Segunda Turma, tem dito que a Primeira Turma do STF é uma verdadeira “câmara de gás”. Ou seja, ali ninguém escapa ao rigor dos julgamentos e concessão de habeas corpus só por milagre. Por mais que Aécio tente se justificar e diga que apenas pediu um empréstimo pessoal a Joesley Batista, além de tentar desqualificar o empresário antes seu amigo, deverá tornar-se réu em inquérito no STF.  Correrá no Supremo porque ele ainda é protegido pelo foro privilegiado. 

Dos cinco votos, Aécio terá no máximo dois a seu favor. Um deles, provavelmente, do relator Marco Aurélio Mello que, no plenário do STF, tem se mostrado complacente com condenados da Lava  Jato. Na semana passada, na sessão que julgou pedido de habeas corpus do ex-ministro Antonio Palocci, Marco Aurélio votou a favor e justificou sua decisão com base no currículo de Palocci. Lembrou que ele foi prefeito, deputado federal, ministro da Fazenda no governo Lula e ministro da Casa Civil na gestão de Dilma Rousseff. Com essa biografia, não haveria porque o manter preso, disse o ministro. Não será motivo de surpresa, portanto, se Marco Aurélio fizer o mesmo arrazoado a respeito de Aécio Neves. E, também com base no seu histórico, manifestar-se contra a denúncia da PGR.  

Essa linha de defesa, baseada no perfil dos envolvidos, faz lembrar um discurso célebre. No dia 15 de março de 44 A.C., Júlio Cesar foi assassinado nas escadarias do Capitólio Romano, ao ser cercado por um grupo de senadores e levar 23 punhaladas. A mais mortal foi desferida por Marcus Junius Brutus, seu filho adotivo. “Até tu, Brutus!”, exclamou Cesar, surpreso com a traição. Na cerimônia fúnebre, Marco Antônio, que dividia o poder com a vítima e Otávio, faz o discurso de despedida e refere-se várias vezes aos traidores, de forma irônica. “Com a permissão de Brutus e dos demais (pois Brutus é um homem honrado, como todos os demais são homens honrados), venho falar nos funerais de César”. Por várias vezes ele faz a mesma referência ao caráter de Brutus. “Brutus diz que César era ambicioso e Brutus é um homem honrado”, por exemplo. Terminada a fala de Marco Antônio, cidadãos, furiosos, concluíram que os tais homens honrados eram assassinos e traidores e decidiram vingar a morte de César. A cena está descrita no terceiro ato da peça “Júlio César”, de Shakespeare. 

O caso de Aécio Neves nos remete à fala de Marco Antônio. Pode-se dizer que o neto de Tancredo é “um homem honrado”.  Deputado federal, presidente da Câmara e senador, ele quase se elegeu presidente da República em 2014, quando recebeu 51 milhões de votos. Perdeu a disputa para Dilma Rousseff por pouco mais de 3 milhões de votos. Aécio seria o candidato natural do PSDB à Presidência no pleito de outubro. Mas a revelação de suas relações promíscuas com Joesley Batista jogou no lixo seu patrimônio político e o de sua tradicional família. Também arrastou para o buraco seu partido, o PSDB, que, até então, se comportava como uma vestal diante dos infortúnios do PT. Mas caixa 2 e envolvimento com empreiteiras, sabe-se hoje, é mal epidêmico na política brasileira. E muita gente de boa fé, que votou em Aécio Neves, já tomou a decisão: em tucano, nunca mais.  

O que não falta ao país são “homens honrados” como Brutus. 



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