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A guerra e o ‘inimigo necessário’

Jornal do Brasil JOSÉ LUÍS FIORI *

A divisão interna e a luta fratricida entre as elites americanas, deste início do século 21, deve prosseguir e aumentar de intensidade, mas não deve alterar a direção nem a velocidade de crescimento do poder militar dos Estados Unidos. Esse tipo de disputa não é um fenômeno novo nem excepcional na história americana e já se repetiu, em vários momentos do século 20, toda as vezes em que os EUA tiveram que tomar decisões cruciais com relação ao exercício do seu poder mundial.  Foi o que aconteceu, por exemplo, com a divisão dos EUA frente à decisão de participar ou não da Primeira Guerra Mundial; o mesmo voltou a acontecer com relação à sua entrada na Segunda Grande Guerra e ao reconhecimento da derrota americana na Guerra do Vietnã. 

Uma divisão e um conflito internos que adquiriram forma ainda mais violenta no assassinato do presidente Kennedy, na década de 60, na deposição do presidente Nixon, na década 70, e na tentativa de impeachement do presidente Clinton, na década de 90. Nada disso, entretanto, afetou a marcha forçada dos EUA na direção do poder global que começaram a construir na Guerra Hispano-Americana de 1898 e que alcançou dimensão, sem precedentes, depois do fim da Guerra Fria, em 1991. Mais do que isso, os EUA sempre venceram suas crises internas “fugindo para frente” e aumentando seu poder internacional, nos planos militar e econômico, como estão procurando fazer agora, de novo, como forma de superar o terremoto provocado pela ascensão de Donald Trump. 

Essa permanente “fuga para frente” só foi possível porque existe um consenso fundamental entre todos os partidos e facções civis, militares e burocráticas da elite americana, assentado sobre quatro pilares fundamentais: todos estão de acordo que os EUA devem ter e manter a liderança militar e econômica do sistema mundial; todos consideram legítima a utilização de qualquer meio que seja necessário para a conquista dos recursos indispensáveis ao exercício desse poder global; todos consideram, finalmente, que a “segurança energética” é uma prioridade absoluta de suas forças militares e de sua economia nacional, por cima de qualquer ideia ou princípio de soberanias nacional; e todos consideram, finalmente, que os EUA devem enfrentar e derrotar qualquer força que ameace o seu poder global, em qualquer momento e lugar do sistema internacional. 

Desse ponto de vista, é quase impossível que prospere a proposta eleitoral de Trump de distender as relações dos EUA com a Rússia, através de acordos que estabeleçam responsabilidades específicas de cada um em “áreas estratégicas” definidas de comum acordo. Barack Obama já havia feito um movimento nessa direção, no início do seu primeiro mandato, mas foi demovido pelos membros do seu próprio partido. E agora, de novo, Trump parece já ter sido convencido, por sua equipe de “segurança nacional”, que um acordo desse tipo implicaria na aceitação de áreas estratégicas que ficariam fora do controle americano e sob a tutela militar dos russos, o que seria inaceitável do ponto de vista do grande consenso bélico de que falamos e que que unifica as elites norte-americanas. 

Além disso, a desmobilização do conflito entre os dois países deixaria os EUA sem o “inimigo necessário” para a justificação do seu “estado de guerra” permanente, e para a obtenção, pelo governo, dos recursos indispensáveis à expansão contínua da sua infraestrutura militar global. Um papel que a Rússia já vem cumprindo há dois séculos, pelo menos, com relação às duas grandes potências anglo-saxônicas. Primeiro, com relação à Grã-Bretanha, desde o fim das Guerras Napoleônicas e durante todo o século 19; e depois, com relação aos EUA, durante todo o período da Guerra Fria.  

Nos dois casos, primeiro a Rússia, e depois a União Soviética, cumpriram esse mesmo papel do inimigo que foi transformado numa espécie de “bússola estratégica” do Império Britânico, e do “poder global” dos  EUA. E hoje, uma vez mais, apesar do fim do “comunismo soviético” e da URSS, em pleno século 21, tudo indica que a Rússia já foi recolocada pelos “países de fala inglesa”, na condição do inimigo indispensável à preservação da supremacia mundial anglo-saxônica. 

* Cientista político, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)



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