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A irracionalidade de ações racionais

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O verbete do site Wikipédia [https://pt. wikipedia.org/wiki/Catch-22] traz uma boa síntese da obra Catch-22 (Ardil-22), um romance satírico-histórico do autor norte-americano Joseph Heller, publicado originalmente em 1961. 

O livro, situado durante os estágios finais da Segunda Guerra Mundial de 1944 em diante, é frequentemente citado como uma das maiores obras literárias do século XX. 

O romance gira em torno de Yossarian, um tripulante da fortaleza voadora B-25 da Força Aérea Americana, enquanto ele e os demais membros do “256º Esquadrão” encontravam-se baseados na ilha de Pianosa, na Itália. 

Ambientado na Segunda Guerra Mundial, “Ardil-22” foi inspirado nas próprias experiências de Heller, que entrou para a United States Army Air Corps e, aos 20 anos, foi enviado para a Itália, onde voou em 60 missões de combate. 

A história se passa na Itália durante a Segunda Guerra Mundial, e acompanha o capitão John Yossarian, um membro do bombardeiro da Força Aérea dos Estados Unidos que se revolta com a regra conhecida como Catch-22. 

O dispositivo específica que as pessoas que estão loucas não são obrigadas a voar em missões, mas qualquer pessoa que peça para não voar estará mostrando uma preocupação racional com a sua segurança e, portanto, está sã e tem que voar. 

Devido a seu uso específico no livro, o termo Catch-22 passou a ter um significado idiomático para uma situação sem saída, uma armadilha. No livro, Catch-22 é uma lei militar; a lógica auto-contraditória circular que, por exemplo, previne que alguém tente fugir das missões de combate. 

Nas próprias palavras de Heller “Só havia um ardil e este era o Ardil 22, estabelecendo que a preocupação com a própria segurança, em face de perigos reais e imediatos, era o processo de uma mente racional. Orr estava doido e podia ter baixa. Tudo o que ele tinha a fazer era pedir. Mas assim que pedisse, não estaria mais doido e teria que voar em novas missões. Orr seria doido se voasse em novas missões e são se não o fizesse. Mas se estivesse são, teria que voar novamente em missões de combate. Se voasse, então estaria doido e não teria que fazê-lo. Mas, se ele não quisesse fazê-lo, então estaria são e teria que fazê-lo.” 

A realidade e o ódio no discurso

A contradição contida na formulação da diretiva descrita deve ser vista como um processo de busca de racionalidade em formulações visivelmente inconsistentes. A partir de preceitos categóricos e burocráticos, um enorme aparato de ações irracionais pode ter a face de uma lógica cartesiana.

Transportando para os dias de hoje, poderíamos fazer uma analogia com a situação vivenciada pela sociedade brasileira nos últimos dias. 

A sensação de medo e o pavor a tudo que possa expressar algum risco, mesmo que hipotético, contra a maneira e a forma de ver o mundo por parte de setores enfurecidos da sociedade, como os presentes nas manifestações do dia 3 de março passado, pode ser entendida como um grande ato de covardia escondido em um apelo a princípios de moralidade e patriotismo.

Agentes políticos instrumentalizam grupos de pessoas que, no afã da pregação de um ambiente político desinfetado de atores, tidos como corruptos, escondem uma enorme raiva e inconformidade com os valores democráticos. 

A principal característica desse grupo de manifestantes é a presença de uma enorme disfuncionalidade cognitiva, na medida em que a seletividade do que consideram imoral é personalizada e focada em um discurso que explicita escolhas de lado, em que o grupo entendido como o inimigo é demonizado e o grupo que toca os valores contidos no seu catecismo é formado por puros e agentes da boa prática política, quando comparados por um observador externo. A seletividade contida no discurso raivoso só existe ou é fruto de uma visão em paralaxe do grupo raivoso, mesmo quando manifesta em uma lógica recheada de sinais de racionalidade e envelopada em preceitos categóricos. 

O que de fato esconde a práxis deste grupo? Uma profunda aversão ao processo democrático e a inconformidade com manifestação da vontade de uma parcela da população que expressa valores e preocupações diferentes. 

Nessa adversidade de visões, o espaço para o confronto de ideias e propostas políticas sucumbe diante da constatação que o verdadeiro objeto da intenção dos preceitos do grupo raivoso é a visão da necessidade do extermínio do grupo por ele entendido como os portadores das chagas do mundo em que vivem. 

Não é à toa que os defensores dos direitos humanos e representantes parlamentares envolvidos com o discurso social e a defesa dos direitos das minorias são vistos como objeto a ser abatido.

É preciso saber ler o signi?cado das estrelas

Uma possível explicação para realidade em decomposição pode ser entendida como uma reação aos excessos do governo passado, e encontrada na prática de atos e ações de agentes de controle, assim como de alguns segmentos do judiciário, que, em uma versão de um chamado neo-punitismo, ampliou o espaço do entendimento do Código Penal e da jurisprudência, criando uma visão de uma justiça pessoal e baseada em princípios de pessoalidade em nome de uma causa maior, que é o combate às práticas de corrupção, sem que haja na frase acima alguma crítica à ação necessária e legítima do poder judicante exercido pelas autoridades envolvidas. 

É possível que excessos e eventuais atalhos tenham sido adotados, o que pode inspirar as críticas de um posicionamento movido por interesses alheios aos autos, de toda sorte que o cenário de divisão dentro da sociedade pode projetar um ambiente de confronto e divisão irreparável, colocando o próprio regime democrático em alvo. 

Nesse diapasão, fica muito difícil uma retomada da economia de forma sustentável ao longo do processo eleitoral, tornando imprevisível o resultado das eleições de 2018.    



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