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Memorial em Copacabana

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A melhor maneira de temer pelo futuro de uma cidade sitiada pela violência, como esta em que ainda nos é dado sobreviver, está no perceber que as crianças vão se tornando, com frequência assustadora, as vítimas preferenciais. Triste constatar, porque sem elas vai se sepultando igualmente a expectativa de um futuro melhor; é nelas que os melhores sonhos se justificam. Crianças e esperança em túmulo comum, nesse jeito perigoso de viver, tornaram-se o alvo de temores que antes ignorávamos na cidade de muitas maravilhas: já não mais a tranquilidade dos parques, rebaixados a pontos de encontros suspeitos, onde cada árvore pode esconder o agente do mal, ou a morte súbita depois do futebol. Não mais a segurança das escolas, pois também ali não se escapa dos tiroteios, fecham-se as portas, não é mais possível ensinar. Se as crianças morrem, não é mais necessário aprender. Nem na janela ao colo do pai, porque o imprevisto, que a tudo pode, entra estilhaçando as vidraças.   

Bom seria encontrar a maneira de poupar, pelo menos, as crianças, para que seja razoável alimentar a esperança no futuro do Rio. 

Não foi outra a reflexão que propôs, em Copacabana, o silencioso memorial das pequenas vítimas do voo interminável das balas perdidas. Na praia, ao vento, as roupas que não poderão mais usar, transformadas em restos de muitas cores, como estranhas bandeiras de dor e ausência, mas também para advertir que não é mais possível tolerar. Estava ali o Rio condenado a ver sua mais bela paisagem transformada numa espécie de Pistoia infante, como se à morte na primeira idade nada mais fosse permitido, além de um breve tempo para contemplar o mar. 

Ficou na praia, sem dúvida, a mais grave imagem da Semana Santa no Rio de Janeiro, quando se transformaram em mortalha aquelas roupas de pequenos assassinados, tão cedo chamados à paixão e morte, condenados ao inverso da Páscoa: não a passagem para uma vida nova, mas a corrida precipitada para a morte. Pobres crianças. Deus teria de olhar isso, e abrir mão de novos cordeiros inocentes para sacrifícios inúteis.  

Pois bem. Quando a calamidade na segurança pública chega a esse ponto, e realmente chegou, nada mais justo que declarar esgotada a paciência. A violência completou sua obra sinistra. Não há o que esperar, porque o crime organizado vai confiscando ao carioca até o direito de ter amanhã, se a infância e a juventude batem em retirada, numa involuntária procissão de enterros. É preciso, como se tem dito, usar de todas as armas para que a cidade não saia da desesperança para cair no desespero. 

Chegamos, então, ao ponto em que não é mais possível adiar reações até agora mantidas em reserva, por serem consideradas extremas. Mas, seja como for que as definam as autoridades, que sejam firmes, severas, removidos temores quanto ao custo real do enfrentamento. E, tão rápido quanto possível, resultados. 

Outro dado que vem em socorro ao apelo surdo que brota da garganta da população, quando as vítimas se alternam entre crianças e adultos, como também policiais, é que o crime já evoluiu para nos tratar, não mais como pessoas; agora somos peças de estatística. Ser baleado na Rocinha, na Kennedy ou em qualquer rua do centro, é ser medido apenas com números. Dois ou três que morreram ontem serviram apenas para comparações com os seis ou sete que tombaram na semana anterior. Certamente os desta terça-feira, meros serviçais das estatísticas, amanhã haverão de revelar, com novos números, a quantos passos caminha a morte violenta do Rio. 

A menos que se apressem caminhos capazes de interromper essa escalada de sangue, chegará o dia, não tão distante, em que o cidadão estará condenado ao deserto de ruas sem pedestres, jardins sem crianças, escolas sem alunos, vida sem paz. E os carros, se se aventurarem, só em alta velocidade, para escapar das balas de surpresa, que ninguém sabe se vão surgir de lugares inesperados, pois muitas vezes, sem nenhum pudor, são vizinhas dos quartéis e das delegacias  de polícia. 

No Rio, a violência subiu ao pódio. Como se fosse vencedora de uma triste e dolorosa olimpíada de sangue. Não dá mais



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