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A crise política em construção

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O sociólogo Michel Dobry, em obra de 1986, intitulada “A sociologia das crises políticas”, elabora tese sobre o tema, na qual explora as características singulares de cada processo de tensão entre instituições que fornecem o pano de fundo para a deflagração de crises políticas e estágio de ruptura.

Longe de ser um processo, aspectos singulares despontam como pano de fundo. Assim, ainda que reconheça a singularidade histórica de cada crise, Dobry considera possível apreendê-la por meio de um esquema teórico, que, em geral, ultrapassa amplamente essa singularidade. 

Em suma, a crise política sempre é detonada pela ausência de legitimidade do governante, mas apresenta contornos diferenciados na medida em que são expostos. 

Geralmente, a deflagração é fruto de um processo, e é seguida por táticas de barganha entre o poder com a legitimidade esvaída e os agentes políticos que ainda lhe oferecem apoio, em uma regra negocial em que o grupo que ancora o poder tenta, de toda forma, esgotar o capital negocial do fragilizado, em uma espécie de resgate ao botim, à medida em que a pressão popular - uma nova eleição geral -, ou as tensões institucionais avançam. 

Quando uma solução de descontinuidade se anuncia, o fato faz com que os apoiadores troquem de lado e abandonem a coligação espúria. Em outras palavras, os partidos que dão base de sustentação ao atual governo serão tentados a usufruir de todas as vantagens do uso e fruto do poder, e somente irão abandonar o barco no final de abril, quando o quadro sucessório estiver melhor desenhado e os principais protagonistas estiverem definidos de forma mais clara. 

No Brasil, o terceiro trimestre deste ano deverá ser palco de fortes oscilações nos mercados por conta da enorme dificuldade que os agentes econômicos mais representativos terão para a construção e formulação de estratégias de alocação de investimentos de curto e médio prazos. 

O que o mercado ainda não está precificando é um cenário que incorpora um ambiente sucessório que projeta um segundo turno com a presença de um aventureiro de extrema direita, embalado por um contingente não desprezível de eleitores desiludidos com a política e a democracia que migram sem cerimônia entre polos ideológicos opostos.  

O discurso do ódio e o apelo a manifestações autoritárias estão longe da interpretação rasteira de que são meros exercícios retóricos de segmentos que encarnam vozes isoladas. 

Ao contrário, as redes sociais estão ajudando a ampliar a presença de tais atores de forma exponencial, o que pode significar um fenômeno semelhante ao observado em outros países, em que eleições presidenciais foram palco de um forte crescimento de segmentos raivosos, cuja expressão política invoca doses crescentes de nacionalismos, aversão aos direitos humanos e negação dos valores democráticos. 

Por outro lado, a destruição dos partidos tradicionais, enquanto força política, é inquestionável, e tal fenômeno decorre de vários motivos, que vão da observação de práticas de corrupção a relações promíscuas entre empresas e partidos políticos, com o uso de  financiamento ilegais de campanha, envolvendo a compra de parlamentares ou o enriquecimento de forma ilícita de representantes e líderes políticos, e, por fim, fim pela própria falência de um projeto político que se revelou desastroso em sua dimensão econômica, como o episódio recente dos anos 2010/2016.

O que pode acontecer ao longo do ano? 

A evolução do quadro ora exposto projeta um vácuo, um vazio, que será ocupado por personagens, atores cujo papel ainda não está definido de forma clara, sendo justamente essa a incerteza quanto à definição dos cenários possíveis, que torna imprevisível a sustentabilidade do atual momento da economia.  

As fragilidades de todas as naturezas do atual governo, nesse momento, estão colaborando para potencializar um desdobramento adverso do cenário econômico inicialmente projetado pelos agentes mais representativos do mercado. Os dados do IBC - o índice de atividade do Banco Central - para o mês de janeiro deste ano apontaram para uma contração de 0,56% no nível de atividade no primeiro mês de 2018. 

O que vai exigir a manutenção da política monetária expansionista pelo Banco Central, conforme anuncia as decisões recentes de corte na taxa Selic. A retomada do crescimento econômico e eventuais compromissos de novos investimentos poderão ser adiados, e o quadro poderá ser agravado pela total ausência de prestígio internacional do atual governo diante de pressões protecionistas vindas dos Estados Unidos e da necessidade do realinhamento de acordos comerciais. 

Em um cenário mais pessimista, há o risco de que o Brasil chegue em outubro com um cenário político, que anuncia uma forte deterioração nas expectativas, com consequências imprevisíveis sobre o resultado eleitoral.

Um cenário para o Estado do Rio de Janeiro

O cenário para o segundo semestre do ano, como descrevemos acima, pode revelar uma forte frustração de expectativas, com efeitos sobre  a reversão do quadro de recuperação da economia, em curso, ainda que frágil, dado o agravamento das tensões provocadas pela ausência de perspectivas de emprego e continuidade da precarização das relações trabalhistas.

O cenário de violência que cerca o Estado do Rio de Janeiro, se não houver alguma solução de descompressão até lá, poderá transformar o Estado em um caldeirão de protestos e local de reverberação dos sentimentos de revolta e descontentamento. 

Finalmente, cabe a lembrança da triste estatística que o Brasil teve em 2017: cerca de sessenta mil assassinatos, sendo que a polícia do Estado do Rio de Janeiro matou mais que o somatório das casualidades somadas das policias dos cinquenta estados norte-americanos, e foi também a que sofreu, em um único ano, um número de fatalidades maior que as observadas em países inteiros em décadas (p.e., Inglaterra, França e Estados Unidos da América).



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