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O Rio não é um laboratório

Jornal do Brasil EMIR SADER

Um general disse que a intervenção militar no Rio seria “um laboratório”. E logo suscitou a pergunta: Laboratório de que? Laboratório para que? Se essa intervenção no Rio é um laboratório, então os cariocas são cobaias? Por que disso se trata. Já se havia dito que as tropas brasileiras no Haiti estavam tomando esse país como laboratório para depois atuarem nas favelas do Rio. Agora se diz que as tropas do Exército brasileiro nas favelas do Rio seriam um laboratório. 

Laboratório de que? De ocupação militar? Já vivemos isso, o Rio e o Brasil, por 21 anos e conhecemos, até hoje, os resultados  desastrosos para o Brasil. A favela da Maré soube muito bem, por quase um ano, o que é uma ocupação militar. Perguntem à população da Maré, em que resultou essa ocupação, além mais violência, repressão, muito sofrimento, com mais mortos, feridos, prisões, arbitrariedades? 

Com que direito um oficial do Exército trata o Rio como laboratório e sua população como cobaias de mais um experimento de militarização das favelas?

Bem faria esse general se lesse a longa entrevista do Nem  ao jornal El Pais. Lá ele aprenderia como se dá o envolvimento de uma pessoa com o tráfico de drogas, como, quando ele quer sair disso, as próprias forças repressivas o obrigam a se manter ali. Aprenderia como mesmo um ex-traficante como o Nem, diz que para terminar coma violência é preciso, antes de tudo, legalizar as drogas. Aprenderiam como as próprias forças da repressão – polícia ou exército – se envolvem no tráfico, passam a precisar do tráfico e da violência repressiva. 

O Rio não é um laboratório de intervenção militar, nunca aceitará ser isso, renega essa possibilidade. O Rio é uma sociedade que quer viver em paz, em segurança, que precisa de outro tipo de intervenção: da intervenção de políticas socais, que dêem emprego, escola, saúde, transporte, cultura, informação. 

O Rio precisa de democracia, precisa superar essas elites corruptas, que levaram à degradação dos governos e que agora sofre os efeitos de um golpe que levou ao governo do Brasil um presidente sem legitimidade e sem apoio popular. O Rio quer votar e eleger governos  dignos e comprometidos com o seu povo, aqui e no Brasil. O Rio não quer mais execuções sumárias como a de Marielle. O Rio não quer mais ver suas crianças revistadas a ponta de baioneta quando vão para as escolas. O Rio não precisa de mais militares.

O Rio precisa de mais professores, de mais médicos e enfermeiros. Se intervenção militar resolvesse algum problema, do Rio ou do Brasil, o país teria saído muito melhor de 21 anos de intervenção militar. Mas saiu muito pior, muito mais desigual, com mais violência, com mais corrupção, com educação e saúde muito piores, com menos e piores empregos. Saiu como um país sedento de democracia, de desmilitarização, de justiça, de direitos sociais, de soberania nacional.

 Não voltemos a esses tempo! Nem o Rio, nem o Brasil delegaram a ninguém que intervenham militarmente para querer resolver problemas que não se resolvem com mais violência e mais repressão. Nossas favelas não podem ser ocupadas militarmente, como seu quem vive aí fossem traficantes, fossem inimigos a serem combatidos com fuzis nas mãos. Não, o Rio não é um laboratório, nem nunca será. Os cariocas não são cobaias, nem nunca serão. 

*Sociólogo



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