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Amor à moda espanhola: 'A livraria' é uma 'sessão da tarde' sobre livros e o encanto feminino

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA* ESPECIAL PARA O JB

Ode à força analgésica da literatura e ao fetiche da bibliofilia, a produção anglo-teuto-espanhola “A livraria” (The bookshop), que estreia no Brasil dia 22 (quinta-feira) - referendada pela conquista de três Goyas, o Oscar hispânico (de Melhor filme, roteiro e direção) -, cabe na prateleira do chamado “filminho”, a mesma onde estão delícias como “Um lugar chamado Notting Hill” (1999) ou “Simplesmente amor” (2003). Por estes dois parceiros seus, já dá para notar que o uso do diminutivo para o novo longa-metragem da catalã Isabel Coixet (de “Ninguém deseja a noite”) não é questão de desdém, mas sim de fofura. Seu longa é uma “sessão da tarde” nata, daquelas que a gente vê... vê... vê...e vê de novo sempre que passa, imantados pelo charme da idealização de sentimentos.

Narrativa clássica - Estamos diante de um enredo sobre afetos, baseado em romance homônimo da britânica Penelope Fitzgerald (1916-2000), lançado aqui pela Bertrand Brasil, em fina tradução de Sônia Coutinho. Sua versão para as telas é construída a partir de uma narrativa clássica (tem começo, meio e fim no lugar; a ação se escora sobre jornada heroica de superação; há a utilização do maniqueísmo para distinguir bem mocinha e vilã). Porém, esta narrativa é feita com uma precisão quase cirúrgica no uso das cartilhas de causa, efeito e discussão moral. E há um par de atores ingleses em estado de graça, Emily Mortimer (de “Ilha do medo”) e Bill Nighy (o monstro Davy Jones da franquia “Piratas do Caribe”), construindo o que periga ser o (quase) par romântico mais tocante dos últimos anos. Tudo isso se põe em cena a partir da autoralidade de uma cineasta preocupada com impasses do querer e com formas possíveis de conciliação.

Filmado em locações irlandesas (a cidade de Portaferry) e espanholas (uma série de prédios em Barcelona) em agosto e setembro de 2016, com um orçamento estimado em € 3,4 milhões, “A livraria” vai ser debatido na segunda-feira (dia 19 de março), no Reserva Cultural, em Niterói, logo após sua sessão das 19h20. A conversa com o público será conduzida pela Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ) e por representantes do grupo Mulheres das Letras Rio (Tais Victa e Marta Barcellos). Será um bate-papo sobre livros, empoderamento feminino, formas de amar e a dinâmica Coixet de compreensão de mundo. 

Conservadorismo - A liga entre esses tópicos é uma trama ambientada em Hardborough, um cantinho do céu na costa da Inglaterra, onde, em 1959, a viúva Florence Green (papel de Emily) resolve abrir uma loja dedicada a romances, poemas e contos. Sua oferta de produtos seria perfeita não fosse o local uma terra governada pelo conservadorismo de uma alta sociedade avessa ao risco da iluminação que o ato de ler gera. Não por acaso, um dos romancistas mais citados é Ray Bradbury (1920-2012), que em “Fahrenheit 451” (1953) fala de um futuro no qual livros devem ser queimados em prol do bem estar social. Aliás, “Fahrenheit 451” volta ao audiovisual este ano, em versão para a HBO com Michael B. Jordan (o vilão de “Pantera Negra”). Mas, voltemos à Livraria... 

Iguarias sci-fi como “As crônicas marcianas” (1950), de Bradbury, fazem parte do menu montado por Florence no banquete de sedução que ela oferece a um dos mais distintos e temidos moradores de Hardborough: o Sr. Brundish, espécie de Visconde de Sabugosa vivido por Nighy no diapasão entre o heroísmo romântico e a fragilidade existencial. Brundish será o freguês mais prolífico de Florence, estabelecendo com ela um jogo encantatório de cumplicidade enquanto aquela cidadela se deixar inebriar pela presença de uma livraria em seu território árido de cultura. Mas, como há sempre uma pedra no caminho da poesia, vai aparecer uma dondoca local interessada em pôr um ponto final na poética daquele empório de Letras: a socialite Violet, encarnação do moralismo vivida por Patricia Clarkson (atriz preferida de La Coixet).

Paixão transcedental - Temos um conflito padrão de “Bem vs. Mal” no embate entre Florence e Violet, numa metáfora da luz contra a ignorância. Contudo, o que mais interessa ao filme é o “não dito” que se engasga na relação entre a livreira e seu leitor mais voraz. Nasce uma paixão entre a vendedora de livros e Brundish que não se traduz por toques, mas sim pela transcendência: é no ardor de ambos pelo ato de ler que se desenha um namoro à antiga, doce, mas doído. Um namoro que desafia barreira geracionais, como sempre se dá na estética de Isabel Coixet, desde “Fatal” (sua obra-prima, de 2008) ou “A vida secreta das palavras” (2005). Há um interesse da cineasta em investigar interditos e tabus. Por isso aqui ela flana pelo preconceito ao saber, desenhado em cena numa fotografia de tons pasteis, de cores esmaecidas, assinada por Jean-Claude Larrieu (o mesmo que clicou Julieta para Almodóvar). Sua década de 1950 é de um idílio que está em vias de desaparição no tempo, ao contrário do patrimônio literário que a diretora evoca, sempre reverente, ressaltando a imortalidade da Literatura... mas, também, da intolerância.      

*Rodrigo Fonseca é roteirista e presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ)

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Isabel Coixet: ‘A simplicidade é algo muito complexo’

Durante o Festival de Berlim, em fevereiro, “A livraria” incandesceu um debate sobre o amor aos livros na capital alemã, onde foi exibido fora da competição pelo Urso de Ouro, de carona na consagração nos prêmios Goya. Isabel Coixet conversou conosco durante o evento, apontando aspectos políticos de seu olhar sobre o romance de Penelope Fitzgerald. 

JB: Temos em “A livraria” uma narrativa que dispensa experimentações, mas seduz pelo modo como você usa a cartilha clássica das histórias de amor do cinema inglês. Como foi o desenho dessa dramaturgia a partir do romance de Penelope? 

Isabel Coixet: A simplicidade é algo muito complexo de se retratar e mais ainda de se alcançar. Estamos numa cidadezinha litorânea sem avanços científicos que só olha para si. Estamos num lugar alheio ao tempo. Tudo ali é questão da descoberta do que existe de encantador na rotina, no dia a dia. 

Chega alguém e quebra essa rotina ao oferecer Lolita para uma juventude que não lê. Parece algo revolucionário, mas é um gesto muito simples, pequeno, íntimo. Construí o filme buscando essa intimidade. E, ao mesmo tempo, quis discutir o quão difícil é representar o Bem: Florence veio para somar, não para subtrair, mas sua bondade ofende. 

E o que existe de político nisso? 

Talvez o olhar sobre como o conservadorismo e a intolerância podem ser elegantes, como Violet é. O Mal não precisa ser bruto. Ele fala baixo, veste-se bem. 

E o amor... ele fala baixinho também? 

Aqui, sim, pois a história de Florence e Brundish é um encontro de almas e não de corpos. Tenho um interesse recorrente nessa questão do amor entre pessoas de gerações diferentes: ele, velho; ela, jovem. Era assim também em “Fatal”. Há algo de encantador na forma sobre como corpos separados pelo tempo se engatam e conversam entre si, pela calmaria. Gosto de ver relações assim se desenharem. 

Como é fotografar essas relações? 

Tenho facilidade em fotografar essa e outras formas de relação pois ganhei da vida a dádiva de ter encontrado um fotógrafo de quem virei amiga: meu querido Jean-Claude Larrieu. Você já trabalhou com alguém que te dá chocolates quando chega pra trabalhar? Ele me mima. E mima todo mundo. E sabe bem que o intimismo se faz com pouco: pouca luz, pouco diálogo, pouco gesto.



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