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Leitura enganosa

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O deputado Jair Bolsonaro não usa máscara. No discurso de quarta-feira, em sua filiação ao PSL, depois de pregar o combate à violência com mais violência e a eleição de uma “bancada da metralhadora”, insuflou a plateia: “extrema direita é o que nós somos”! Não há dúvida de que ele representa isso e algo mais, como se viu pela teatralidade neofascista do evento.  Já o bloco do centro se engana com a previsão de que, com Lula fora do páreo, os votos de Bolsonaro refluirão para candidatos como Geraldo Alckmin e competidores do mesmo segmento.  Falta solidez à tese de que, retirado o espantalho de esquerda, o antípoda de extrema direita se desidrataria. E depois, Lula nunca foi de extrema-esquerda.  

As pesquisas e as redes sociais sugerem fortemente que, mesmo sem Lula no páreo, os eleitores de Bolsonaro não retornarão para o PSDB, de onde migraram especialmente a partir de maio de 2017, quando o escândalo da JBS atingiu fortemente Aécio Neves.  Na série do Instituto Datafolha,  Bolsonaro tinha apenas 8% de preferência até àquele mês, quando Marina Silva é que aparecia no segundo lugar, disputando o segundo turno com Lula.  Na pesquisa de junho,  Lula alcança 30% e Bolsonaro passa a disputar com Marina o segundo lugar. Ele aparece com 16% e ela com 15%.  Alckmin pontua apenas com 8%, refletindo a perda de votos do PSDB, que começou depois do impeachment. 

A hemorragia agravou-se a  partir do caso JBS e da citação de Alckmin e de outros tucanos na delação da Odebrecht. Por último, veio o caso Paulo Preto, o delatado mais citado da Lava Jato, embora até agora não haja tucanos indiciados nem denunciados.   Foi para Bolsonaro que os votos tucanos migraram, pois os outros não cresceram, ao passo que ele fincou pé no segundo lugar, tendo hoje de 18% a 20%, dependendo do instituto. 

Na redes sociais, até então, havia três grandes forças: Lula/PT, PDSB e Bolsonaro/grupos de extrema direita que apoiaram o impeachment.  Gradualmente os tucanos perderam presença nas redes, com redução do número de curtidas e compartilhamentos de seus conteúdos, enquanto os seguidores do capitão avançaram na guerrilha digital, onde são eficientes e organizados, rivalizando com os petistas. 

Ali, o discurso é o mesmo do ato de filiação, porém mais provocador.  Ele ataca Lula e a esquerda mas não poupa o PSDB nem os demais partidos. Diz-se vítima de um “sistema” onde todos são corruptos, incompetentes e frouxos e não querem que ele seja presidente para colocar ordem no caos.    

Arrisca-se a centro-direita acreditando que Bolsonaro se desmanchará a partir da exclusão de Lula. E mais ainda quando multiplica suas candidaturas, em busca do mais viável para enfrentar a esquerda no segundo turno.  Ontem mesmo o DEM lançou Rodrigo Maia, numa convenção prestigiada por outros partidos. Ele  apresentou-se como liberal-progressista, desvinculou-se do governo Temer e renegou a polarização direita-esquerda. “Pode escrever, eu estarei no segundo turno”. 

Mas dividida no primeiro,  e enganando-se sobre a solidez do voto de Bolsonaro, a centro-direita corre o risco de não emplacar nenhum de seus candidatos.

AGENDA SOCIAL NO RIO 

Antes da paulada que Michel Temer sofreu com a inclusão deu nome em inquéritos e o pedido de abertura de seu sigilo bancário, o governo estava concentrado na definição de um conjunto de ações sociais para serem implementadas no Rio, nas comunidades que são alvo da intervenção federal. O Ministério do Desenvolvimento Social elaborou algumas propostas para o  Gabinete Civil, onde o assunto parou,  por ora.  O ministro Eliseu Padilha está refazendo  as costuras para a remontagem do ministério.  A prioridade agora é a coesão da base para a eventualidade de uma terceira denúncia, e não mais o compromisso com uma candidatura governista.



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