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Uma surpresa no final de Paris

Jornal do Brasil IESA RODRIGUIES

A graça de uma semana de moda parisiense é justamente a criatividade, o inesperado. Entramos numa sala de desfiles crentes que vamos ver algo previsível, dentro do estilo do criador. E nos deparamos com roupas que parecem assinadas por outra pessoa (de vez em quando, é verdade, trocaram o autor sem nos avisar). 

Aconteceu exatamente isto, no desfile da Louis Vuitton. Primeiro, a volta à tenda no Museu do Louvre, como nos saudosos tempos de Marc Jacobs. Depois, o ar conservador da coleção, assinada por Nicolas Ghesquière. Sim, este cara que nos fins dos anos 1990 revolucionou Balenciaga, com seus tecidos em neoprene, as mangas bojudas, as estampas coloridas. Contratado pela Vuitton em 2013, aderiu ao movimento feminista atual, junto com a atriz Emma Stone (do filme “La-la-land”), que vestiu um terninho da grife na noite do Oscar. 

Ghesquière fez a sua parte, assinando roupas que parecem criadas para senhoras tradicionais, elegantes à moda antiga. Alguns detalhes salvam o resultado, como o top de couro franjado por baixo de um tailleur cinza, as correntes e detalhes metálicos que contornam golas e bolsos, e os cinturões popularizados por Kim Kardashian. Para completar, uma série de blusões derivados de trajes esportivos. Só não se pode dizer que são perfeitos para ir à feira, porque, afinal, são da Louis Vuitton. 

Pelo menos a Junko Shimada, que desfilou no Palais de Tokyo, nos recebeu com seu habitual show de cores e xadrezes. No meio da sala, girafas, leões e zebras reforçaram a intenção de lembrar das tribos africanas _ ainda não entendi se são empalhados ou de fibra de vidro, algo assim. 

Os looks reuniam tecidos xadrezes enrolados como saias, com suéteres listradas e meias de tricô grosso, como as usadas no cricket, esporte popular na África do Sul. Alguns casacos em tons de rosa, acompanhados por meias rosadas e toucas na mesma cor, forradas de pelo fake de onça. Muito bonitos, os colares de miçangas que arrematam golas. Nos pés, sandálias de plástico injetado, que não sei se eram as Melissas da Grendene. No final, ninguém saía da plateia: todos faziam selfies ao lado dos bichos. 

Esta plateia, mais ou menos a mesma, inscrita na Federação da Moda francesa, deve seguir para os três dias da Semana de Lisboa, os mais poderosos e resistentes pegam o vôo de 11 horas para ver a semana de Hong Kong e sobrando ânimo, aproveitam que o clima está esquentando e conferem o show que Copenhague dá nos jeans. Como a Fórmula-1, a moda também tem seu circuito. Cheio de lances inesperados e imprevisíveis.

* Ex-editora de Moda e Revista Domingo do Jornal do Brasil



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