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A sina do transporte público

Jornal do Brasil MARCUS QUINTELLA

A péssima qualidade do transporte público nas cidades brasileiras é um problema que parece não ter fim e que pouco sensibiliza os governantes e políticos de nosso país. Os cidadãos brasileiros sofrem com sistemas de transportes públicos que não atendem suas necessidades de deslocamentos e são pouco abrangentes, pois não alcançam todas as origens e destinos das regiões metropolitanas onde vivem e trabalham, não são totalmente integrados de forma física e tarifária, visto que não permitem viagens em todos os modos de transporte possíveis, com um só bilhete, são desconfortáveis, impontuais, pouco frequentes, inseguros e absurdamente caros, dado que oneram excessivamente os orçamentos das famílias, especialmente, as mais carentes. 

Nas grandes metrópoles brasileiras, milhões de pessoas perdem entre 3 a 4 horas, ou mais, dentro de um modo de transporte, todos os dias, no trajeto casa-trabalho-casa, em condições desconfortáveis, inseguras, inviáveis economicamente e insatisfatórias operacionalmente. Esse sofrimento humano com o transporte público é um extraordinário problema ambiental antrópico, visto que impede a mobilidade urbana da população e prejudica as condições de saúde, lazer, trabalho e relações sociais das pessoas. 

Existe uma tendência geral de menosprezo por esse tipo de sofrimento humano, especialmente pelos governantes e políticos, pois se trata de um sofrimento solitário, subjetivo, silencioso e de difícil mensuração. Na realidade, diante da falta de investimentos maciços e eficazes no setor, as pessoas reclamam e suplicam por melhores condições de transporte, mas acabam se acostumando e se conformando com o sofrimento diário, pois precisam trabalhar e viver. 

O Ministério das Cidades (MCid) garantiu ano passado, em seminário, em Brasília, que existem recursos financeiros disponíveis ao financiamento de sistemas de mobilidade urbana no país, suficientes para realizar muito mais do que vem sendo feito nas cidades brasileiras. Mas, todo esse dinheiro não é convertido em melhorias na mobilidade urbana porque faltam projetos de qualidade, que não promovem a integração entre os municípios das regiões metropolitanas, entre outras imperfeições. O transporte público brasileiro está baseado no modo rodoviário, sendo, portanto, movido a gasolina e óleo diesel, com grandes emissões na atmosfera de gases tóxicos que contêm monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio, hidrocarbonetos, óxidos de enxofre e material particulado. Tais emissões causam danos ambientais, como o aumento do efeito estufa, e contribuem fortemente para o adoecimento e morte de milhares de brasileiros, todo ano, por causa da poluição atmosférica. O monóxido de carbono causa tonturas, vertigens, alterações no sistema nervoso central e pode levar ao óbito, em grande quantidade, em ambientes fechados. 

O dióxido de enxofre, presente na combustão do óleo diesel, provoca coriza e danos irreversíveis aos pulmões e também pode ser fatal, em alta dosagem. A fuligem pode atingir o pulmão das pessoas e agravar quadros alérgicos como asma e bronquite, irritação de nariz e garganta e facilitar a propagação de infecções gripais. Tudo isso é sofrimento humano. 

Sistemas de transportes multimodais e intermodais, planejados e integrados de forma física e tarifária, compostos por trens e metrôs, subterrâneos, elevados e em superfície, nos corredores de altas demandas, VLTs e BRTs, em corredores de médias e baixas demandas, e ônibus comuns, micro-ônibus, teleféricos, funiculares e barcas como modos alimentadores e complementares. 

Além disso, os sistemas de transportes devem ser suportados por terminais de integração, estacionamentos públicos, táxis organizados, ciclovias seguras e sinalizadas, infraestrutura viária competente, com semaforização inteligente e calçadas humanizadas.

Nossas cidades precisam de autoridades metropolitanas, com independência orçamentária, e amplos e irrestritos poderes para planejar, projetar, regular, fiscalizar e gerenciar o transporte público, sem interferências políticas e partidárias e com visão de longo prazo.  

É preciso direcionar os orçamentos públicos para custear os benefícios tarifários que tanto sobrecarregam os usuários comuns. Instituir um fundo com recursos dos combustíveis para subvencionar o transporte público coletivo, para distinguir a tarifa pública cobrada dos usuários da tarifa de remuneração do operador, implantação de política de preços reduzidos para o óleo diesel e energia elétrica consumidos no transporte público urbano. 

Será que os governantes e políticos não possuem inteligência suficiente para entender que o binômio transporte público-segurança pública é o alicerce para a construção de cidades humanas e socialmente justas? Sem transporte público e segurança pública, as ações e projetos para as áreas da educação, saúde, trabalho, alimentação e lazer estarão fadadas ao insucesso e o desperdício de dinheiro público será inevitável? Vamos refletir e agir. 

*Doutor em Engenharia de Produção pela COPPE/UFRJ, mestre em Transportes pelo IME, e colunista da Plurale



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