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Liquidações mineiras

Jornal do Brasil JOSÉ ELOY DOS SANTOS CARDOSO *

O Brasil é rico de estatísticas e diagnósticos mas pobre de soluções. Em mais um desacerto mineiro, a Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais, contrariando a maioria das opiniões de renomados economistas mineiros, aprovou a divisão da Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais, Codemig, em duas outras. Não há dinheiro até para pagar a folha do funcionalismo público. A modificação nos estatutos dessa empresa pública a dividirá em duas outras, ficando separadas a exploração do rico nióbio de Araxá dos outros trabalhos atuais da Codemig que seriam transferidos para a outra empresa criada, a Codemge. 

Por esse artifício, a nova empresa que ficaria com o filé mignon da exploração e venda do nióbio venderia 49% de suas ações para terceiros. A nova empresa Codemge ficaria com tudo que a atual Codemig faz, exceção do nióbio. Esse foi o artifício criado para tentar dar mais dinheiro para o Estado. 

O advogado José Maria Moreira, em artigo publicado em jornal de Belo Horizonte, sob o título “A Codemig e a Tragédia - Minas cansada de funerais” exprimiu com exatidão o que está acontecendo no Estado, e pergunta: “Por que haverá deputados que concorrerão para essa tragédia?” Ele está com razão. Sendo a Codemig a detentora dos direitos de exploração do nióbio de Araxá que financiou obras como a Cidade Administrativa e a Sala Minas Gerais e deveria receber altos aluguéis do Estado que não paga, ainda joga pela janela 49% das ações de uma empresa que detém os direitos de exploração de um dos mais importantes minerais do mundo atual que é o nióbio. Não é sem razão que a pobreza mineira é digna de paixão.

Em artigo que publiquei no Diário do Comércio, sugeri que a Codemig deveria ser dividida em três outras empresas: uma nova Metamig que cuidaria da exploração e venda do nióbio e outros minerais, uma nova Companhia de Distritos Industriais de Minas Gerais (Cdimg) que recomeçaria seu importante papel que desempenhou no passado ao lado do Indi, do BDMG, Cemig, Copasa e outras; e, ainda uma terceira empresa que poderia até adotar o nome de Codemge que ficaria com a exploração das águas minerais como fazia a antiga Hidrominas e a chamada economia criativa, aeroportos, entre outros. 

Minha sugestão era importante porque a antiga Cdimg, sob o comando de Silviano Cançado Azevedo, sem dinheiro e vivendo apenas das vendas de áreas industriais, ajudou a economia mineira crescer nos anos 70 numa média anual de 11%.Trabalhando ao lado do Indi, Cemig, Copasa e BDMG, produziu uma taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) mineiro duas vezes maior do que as taxas de crescimento do PIB nacional. Os trabalhos em conjunto eram só com um objetivo: desenvolver Minas Gerais e tirar o Estado do subdesenvolvimento como foi exposto no Diagnóstico da Economia Mineira publicado pelo BDMG em 1968. Antes de ficar gastando dinheiro público naquilo que é dispensável e desnecessário, é preciso se fazer um novo diagnóstico da economia mineira que, com detalhes, indicará onde, por que fazer e onde fazer os investimentos indispensáveis ao desenvolvimento econômico e social mineiro. 

Milagres não existem em economia. O que conta são os trabalhos eficientes e eficazes a serem feitos. É preciso que o futuro governo mineiro a ser empossado em 1º de janeiro de 2019 faça uma completa revisão em tudo que está sendo feito errado atualmente. Do contrário, coitados dos mineiros desempregados e sem maiores ilusões para ver uma luz no fim do túnel. A manobra do atual governo objetiva com urgência obter dinheiro para poder gastar em época de eleições. O perigo é se gastar em obras não prioritárias e desnecessárias.

* Professor titular de macroeconomia da PUC-Minas e jornalista



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