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A nova narrativa da utopia mundial

Jornal do Brasil CARLOS FERNANDO GALVÃO

Desde o início do século XX, a partir das ideias de pensadores como Walter Benjamin (1892-1940), lemos ou ouvimos o decretar da morte das grandes narrativas: não haveria mais as mobilizações sociais arrebatadoras que arrastariam multidões para a busca de um novo mundo. Então, como justificar não apenas a descoberta de renovados saberes, bem como a resistência pela busca de velhas utopias renovadas ou mesmo de novas utopias?  Mas o que é uma narrativa onde ocorrem as disputas políticas na sociedade? Segundo o Dicionário Houaiss (2001), narrativa é “uma história, um conto, um modo de narrar”. A palavra “narrativa” é derivada do verbo narrar e significa “contar, relatar, expor um fato, uma história”. Nas Humanidades, o conceito de narrativa não é apenas uma representação do ato de contar uma história: é, também, a exposição de um modo de perceber o mundo, um modo de ver os acontecimentos históricos e geográficos e de interpretá-los, à luz das pessoas e das sociedades, levando-se em conta a cultura e a ideologia do observador. 

Afirmar que o mundo deve ser governado a partir das “leis do livre mercado” é uma narrativa; afirmar o contrário, também é uma narrativa. E como toda história contada, a ênfase neste ou naquele tema, neste ou naquele trecho do fato narrado, o modo como a história é contada, com suas exposições e omissões e as conclusões, levam a esta ou àquela ação política. As grandes narrativas, ao contrário do que afirmou Benjamin, não morreram: elas foram enfraquecidas, mas a necessidade não apenas de busca por novas narrativas, como por ações políticas renovadas, permanecem. A renda e o poder, no mundo e no Brasil, indecentemente concentrados, são prova cabal desta última afirmativa. 

A democracia meramente representativa desviou-se do bom caminho pela corrupção desenfreada em que se transformou, esvaiu-se como instrumento eficaz de bem estar social pela incúria das classes dirigentes que legislam e administram a coisa pública como se delas fossem e exauriu-se como proposta de transformação social e de renovação de ideias e de ações políticas. 

O que fazer, então? Será uma temeridade se continuarmos a acreditar que as mesmas pessoas e que os mesmos grupos, que nos levaram ao quadro desastroso atual, dele nos retirarão por um lapso de inteligência e de sensibilidade e generosidade, como se consciência tivessem. Não, essas pessoas não fazem o que é certo (infelizmente, como muitos de seus eleitores ou de seus clientes, temos que admitir isso), fazem o que melhor lhes apraz – se for o certo, tanto melhor; se não for... bem... paciência, dão um jeitinho (para o bem deles, não para o nosso). 

Chega de inércia e de inépcia. O tempo de meias palavras e contemporizações já passou. É hora de instituirmos uma Democracia Participativa, e um grupo cariocas inconformados tem uma proposta para contribuir com essa utopia renovada. Ela se chama Plano de Gestão Cidadã. Um mundo justo (riqueza e o poder distribuídos), solidário (coletivamente) e generoso (individualmente) não é fácil de ser construído, mas é possível. A narrativa renovada dessa boa utopia não pode morrer, sob o risco de morrermos todos, abraçados em nossas ideias e ações deletérias. O narrador deste novo mundo não pode ser composto apenas pelos donos do poder, passado e atual, tem que ser o conjunto interagente de todos nós, cidadãos de bem, independente da ideologia em que acreditemos; estamos no mesmo barco – Brasil e mundo. Não temos outro lugar para ir.

*Professor de Geografia e PhD em Geografia Human



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