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Um estupro do Estado contra os mais pobres?

Jornal do Brasil ANDRÉ FERNANDES

Não consigo entender muito bem essa jogada da intervenção. Quem apoia, claro poderá dizer que os que são contra estão criando um “tumulto mental”, mas de fato, quem conhece um pouco de segurança pública e acompanha nossa vida política, sabe que é difícil engolir essa medida do governo federal. Se de fato quisessem melhorar a situação no Rio de Janeiro, deveriam investir em uma polícia investigativa e inteligente e colocar as forças armadas para cumprirem seu dever constitucional nas fronteiras, impedindo a chegada de armas e drogas. Poderiam cuidar ainda mais de nossos portos, estradas e aeroportos, principais rotas de entrada daquilo que não é plantado ou fabricado nas favelas. 

Não consigo ver, até como um ex Fuzileiro Naval, com bons olhos as forças armadas dentro do nosso território atuando como se cidadão brasileiros inimigos fossem. Uma coisa sabemos sobre a atuação do exército nas favelas na já conhecida GLO (Garantia da Lei e da Ordem) aplicada por aqui: Milhões foram gastos e de nada adiantou. Porque não adiantou? Porque dias depois os traficantes estavam de volta muito mais armados. Lembrando da experiência das UPPs, que também ocuparam as favelas, que as facções expandiram seus territórios, uma vez que com suas áreas ocupadas tiveram que ir para outras cidades e estados. Alguém discorda?

Tudo bem, o governador do Rio não governa? Ele não quis jogar a toalha? A segurança do Rio está um caos com as polícias que temos? Temer quer ajudar o governador que é do mesmo partido e ainda tentar aumentar sua popularidade? São pensamentos que rondam as cabeças de muitos cidadãos de nosso estado e do nosso país e talvez só a história contará com o tempo o que de fato está acontecendo. Uma coisa que também é preocupante e que até agora não sabemos os números do que será investido, assim como não sabemos como se dará essa ação. 

Tendo sido dito isso, agora que a intervenção é um fato, a maior preocupação recai em como ficam os que são mais vulneráveis: os moradores das favelas. Desde os primeiros dias da intervenção, quando ainda estava sendo votada no Congresso Nacional tal medida, que a sociedade civil está se mobilizando. Aconteceram vários fóruns em diversos lugares, tanto na favela quanto no asfalto. Dois me chamaram atenção pela força que representam. 

O primeiro na Faferj, com lideranças de dezenas de favelas e que está acontecendo semanalmente na sede da instituição. Lideranças e moradores estão se preparando para que não aconteça nenhuma violação aos direitos da população das favelas. Outro aconteceu na Fundição Progresso e reuniu moradores do asfalto e das favelas pensando e debatendo uma intervenção diferente, a que mais precisamos: Educação, arte e Cultura. Esse último fórum também me chamou atenção pelo nome criativo do grupo que está se formando: IntervenSomos. O segundo grupo, assim como o primeiro, também se reunirá com frequência para propor alternativas que não as propostas pelo governo federal. É preciso que se entenda que quando o governo entra nas favelas somente com a força, com a segurança, sem entrar com cultura, educação, arte, lazer, saneamento, infraestrutura, isso configura um estupro do estado contra os mais pobres.

* Jornalista, fundador e diretor da Agência de Notícias das Favelas



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