Jornal do Brasil

Acervo

Filão da reforma trabalhista

Mercado de administradoras de benefícios, de R$ 150 bilhões, pode triplicar com a nova CLT 

Jornal do Brasil GERALDO SAMOR

O braço forte do Estado criou no Brasil o maior e mais sofisticado mercado de administradoras de benefícios do mundo - um segmento que, nas contas do mercado, movimenta cerca de R$ 150 bilhões por ano. Com a reforma trabalhista, a Alelo, controlada por Banco do Brasil e Bradesco e líder no setor, acredita que este mercado pode triplicar.  

 Se antes a legislação dava segurança jurídica apenas para os vales-refeição e vales-alimentação, dois novos artigos na CLT garantem que outros benefícios, como assistência à saúde e premiação por bom desempenho, possam ser pagos sem ser tributados como salário.

 O CEO da Alelo, Raul Moreira, acha que só o benefício de assistência preventiva à saúde tem espaço para ser tão grande quanto o mercado de vales-refeição e alimentação, que hoje é de R$ 85 bilhões/ano. A expansão é especialmente relevante para uma atividade que diz ter margens líquidas extrema mente baixas, de cerca de 2%, e portanto depende de escala.

 A Alelo é líder de mercado: pelos seus cartões passam cerca de R$ 30 bilhões por ano, ou 20% do total movimentado pelo segmento. Em seguida vêm as francesas Sodexo, com cerca de 16%, seguida pela Ticket, do grupo Endered. Na Alelo, cerca de 80% do faturamento vêm das taxas cobradas dos estabelecimentos comerciais ligados à sua rede. 

Além do vale-refeição, seu carro-chefe e onde tem 31,5% de share, a Alelo trabalha com a gestão dos custos de frotas corporativas - controlando abastecimento e manutenção dos veículos - e com vale-transporte. A companhia também está entrando no segmento de pedágios com a Veloe, que vai concorrer com a Sem Parar e a ConectCar. 

O Brazil Journal conversou com Moreira. Funcionário de carreira do BB, chefiou a divisão de negócios de varejo até 2017, quando foi escalado para comandar a Alelo.

Como a reforma trabalhista aprovada pelo Congresso muda o jogo para o setor de benefícios? 

Ela traz uma segurança jurídica muito grande para a intenção das empresas de dar benefícios de premiação por bom desempenho, sem correr o risco de que sejam tributados como salário. Na alimentação já estava claro, mas agora há segurança para os demais benefícios: o vale assistência para medicamentos, combustível, para compra de óculos, por exemplo. Dois artigos da CLT, o 457 e o 458, dão essa segurança jurídica. Benefícios de premiação - por bom desempenho, por bater uma meta – também estão lá. 

Quanto vocês estimam que o mercado vai aumentar com a nova CLT? 

Deve triplicar de tamanho. Depende de alguns fatores. O mais importante é a segurança jurídica da nova CLT. Isso tem sido objeto de vários debates e eu entendo, pois estamos falando de uma lei aprovada no fim do ano passado. Havendo um consenso jurídico sobre a reforma trabalhista, o mercado deve aumentar muito.

Como funciona o benefício de assistência à saúde? 

Qual a diferença para o plano de saúde? O benefício não compete com os planos de saúde. Atuamos na parte preventiva, que está prevista no artigo 457 da CLT. O plano de saúde normalmente atua na consulta médica, quando você tem algum problema. A Alelo já possui oito mil farmácias credenciadas, nas quais você pode comprar com o cartão, inclusive ter desconto. Na consulta médica, por exemplo, a Alelo já é aceita no Dr. Consulta. Esse segmento de assistência de saúde e medicamentos tem potencial de ser tão grande quanto o PAT (Programa de Alimentação do Trabalhador, a base para a concessão dos vales-refeição e vales-alimentação).

De todas as suas linhas de negócio, o que vai crescer mais rápido? 

Hoje, 80% do volume vêm do PAT, um mercado maduro. O segmento de saúde tem potencial muito grande. Abastecimento (de combustível) também está crescendo. Outro que promete muito é premiação. Existia uma insegurança enorme em relação ao pagamento de premiação. Agora está na lei.

A Alelo tem dois grandes bancos como sócios: Bradesco e Banco do Brasil. Quanto da distribuição de benefícios depende do canal bancário e da venda direta? 

Tenho uma força de vendas direta que não passa pelos bancos, mas a Alelo se especializou em vender via bancos - não só os bancos sócios, mas outros também. Mas 30% da carteira são venda direta, de pessoas que visitam as companhias apresentando nosso portfólio. Estamos fazendo um arrastão no Brasil inteiro, treinando pessoas para falar mais da nova CLT e conquistar clientes.

Teve uma portaria do Ministério do Trabalho que proibiu o pagamento de rebate no mercado de benefícios. A proibição ajuda e atrapalha quem?

 Trabalhamos muito Via ABBT (Associação Brasileira de Benefícios ao Trabalhador), para que houvesse uma legislação proibindo as chamadas ‘taxas negativas’, o rebate. Todos faziam porque os empregadores exigiam. Chegava uma grande empresa e dizia: “Exijo que vocês dêem um desconto sobre o valor que eu vou creditar aos meus funcionários. Quem quiser trabalhar comigo, entra nesse jogo.”  Imagina que a empresa ia dar um voucher de R$ 100 para o trabalhador. Ela chega para a empresa de cartão e diz: “Só vou pagar R$ 95, se vira para pagar os R$ 5”. A empresa de benefícios era obrigada a cobrar esses outros R$ 5 do estabelecimento comercial. E isso virou um subsídio cruzado: o estabelecimento comercial pagando para o empregador, que já tem um benefício na lei, para conceder aquele benefício ao trabalhador.

Que taxa média o setor cobra do estabelecimento? É como nos cartões, em que as grandes empresas pagam menos e os menores mais? 

A escala é realmente necessária. Tem que ter uma precificação diferenciada. Fica um pouco acima do cartão de crédito - 2% a 4,5%, dependendo do prazo a pagar - porque tenho mais custos que uma empresa de cartão. Tenho que fiscalizar o estabelecimento comercial e garantir que o dinheiro de alimentação está sendo gasto em alimentação, o de abastecimento, em abastecimento, e assim por diante. Em algumas regiões em que o rebate era muito forte, essas taxas acabavam subindo uns dois pontos percentuais.

Vocês não ganham com o float [a aplicação do dinheiro que os empregadores pagam e só depois é repassada aos estabelecimentos comerciais]?  

Meu float hoje é negativo, em média, de um dia. Já apresentei isso ao Banco Central. Apesar de eu ter que pagar os estabelecimentos com prazo de 20 a 30 dias, dependendo da negociação e da taxa, muitos empregadores pagam após 60 dias. O float está ficando com os empregadores. A Alelo tem um pedido ao regulador para que essa prática seja proibida. Assim posso reduzir o prazo de pagamento para o estabelecimento comercial.

O Vale Cultura foi lançado em 2014, mas parece não ter decolado. Há potencial nesse mercado? 

A ideia é muito boa, mas a legislação muito engessada. Já explicamos ao ministro Sérgio Sá (da Cultura) e ele se sensibilizou em relançar a legislação e incentivar as empresas a investir em cultura, material escolar, livros didáticos.

* com Natalia Viri



Tags:

Recomendadas para você