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Subsídio valioso para a CPI da Alerj

Jornal do Brasil CELSO FRANCO

Tomei conhecimento pela mídia de que a Alerj, finalmente, resolveu instaurar uma CPI, com o propósito de desvendar os meandros do transporte por ônibus, hoje vítima de total desmoralização.

Recorrendo aos meus arquivos “implacáveis”, encontrei uma excelente e desassombrada crônica de meu saudoso amigo João Saldanha, em sua coluna do JB, em que abordava exatamente o problema, agora foco de uma CPI  no Poder Legislativo. A matéria é datada de 7/8/88 e o seu título, não poderia ser mais eloquente: “Os cadáveres”. Como nesta época eu, junto com outros comentaristas, entre os quais figurava o João, fazíamos comentários diários na rádio JB AM, era comum nos encontrarmos e trocarmos ideias, razão pela qual mereci a citação de minha opinião, na modelar crônica. Vamos a ela, na íntegra:

Um dos donos de ônibus declarou que “gostaria de ver como  o governo arrumaria dinheiro para indenizar cada ônibus a quarenta milhões”. Simples, bastaria fazer a lei. E para quem eles iriam vender seus calhambeques de carroceria de caminhão? E, tem mais. O porta-voz dos donos de ônibus é mentiroso. Ele disse que os ônibus  são particulares em todo o mundo. Pombas, não há um único país mais ou menos civilizado, onde os ônibus sejam particulares. Em uma outra destas replubiquetas que têm golpes militares todas as semanas, ainda há o sistema de exploração particular e o sistema é péssimo.Em mais de noventa por cento os serviços são explorados pelo monopólio estatal e, funcionam dez vezes melhor do que esta bandidagem brasileira.

Quando a Light  era monopolista aqui no Rio, nos jogos do campo do Vasco e do Fluminense, botavam bondes e ônibus que ficavam esperando o  joga acabar. No Maracanã, já foi assim. Mas a corrupção e o suborno fizeram acabar. Os ônibus são para prestar serviço e não para dar lucro fantásticos como estas indivíduos abocanham. Eles dizem, abertamente: “com mais de oito cadáveres já estou no lucro”. Os “cadáveres” somos nós. Corrompem o Poder Público e andam por onde querem, violentam o trânsito e seus prepostos, são os que fixam preços e itinerários. Ninguém mais sofredor do que um pobre coitado que se atreve a ir a um jogo noturno.Fica horas sentado num meio fio à mercê da intempérie e do assaltante. O guarda; ou não existe ou fica um pouco e se manda que ele não é bobo de ficar ali  protegendo passageiros que esperam  inutilmente um ônibus que não aparece.

Celso Franco me disse, outro dia, aí em cima, na “Rádio Jornal do Brasil”, quando reclamávamos da violência e dos péssimos serviços de ônibus: “ O que querem? Os donos de ônibus são antigos choferes daqueles lotações criminosos que havia no Rio A ideia que eles têm de transporte é a do lucro. Transporte não é para dar lucro. É para prestar serviço eficiente”. E está certo. Em muitas cidades de vários países ou o preço da passagem é nenhum ou é quase simbólico. Os ônibus brasileiros montados em carroceria de caminhão, fazem o que querem no trânsito. Fazem muito bem os que querem a desapropriação destes péssimos e e violentos serviços.No começo haverá tropeços, mas, em seguida tudo vai funcionar direitinho.Aliás, isto pode até demorar um pouco. Mas virá fatalmente. E, eu é que pergunto: O que vocês vão fazer com os ônibus? O monopólio poderá encomendá-los à prestação. Ônibus de verdade e não caminhões. Quem pode ir a um campo que fica distante?.

Ai  está, meus caros leitores, o testemunho desassombrado de um homem que, enquanto vivo, mereceu de seus amigos o apelido de “João sem medo”.

Que o seu depoimento sirva de subsídio da CPI da Alerj que espero, não termine em “pizza”



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