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A institucionalização dos instrumentos 

Jornal do Brasil LUIZ ALBERTO PY

Fiquei curioso sobre qual assunto surgiria para começar esta coluna de diálogo com o leitor do velho/novo JB. Acabei por escolher um tema aparentemente complexo, mas na verdade de fácil entendimento -  a institucionalização dos instrumentos. O historiador americano Carroll Quigley, descreveu um processo histórico presente nos fenômenos sociais. Segundo ele, os instrumentos criados por nós para desenvolver progresso tendem a se institucionalizar, ou seja, se transformarem em instituições com uma importante mudança na sua finalidade, a qual passa a ser de autopreservação. 

Criamos instrumentos sociais com o objetivo de promover progresso, evolução etc. Aos poucos estes instrumentos passam a servir a si mesmos, assumindo uma finalidade de autopreservação egoística. Os historiadores costumam fazer, por exemplo, uma distinção entre a espiritualidade – um instrumento de aprimoramento pessoal – e as instituições religiosas que visam sua própria preservação. A institucionalização dos instrumentos sociais é talvez o mais frequente dos fenômenos históricos. A organização que se vai institucionalizando passa, aos poucos, a realizar sua função ou finalidade com uma eficácia decrescente. Em consequência, começam a surgir, principalmente entre os estranhos à organização, manifestações de descontentamento e uma demanda por mudanças. Por vezes organização está tão institucionalizada e, portanto, tão ineficiente que o grau de ineficácia dela promove o seu próprio desaparecimento. 

Quando isto não ocorre, o descontentamento e a controvérsia levam a uma crescente tensão entre os grupos empenhados nesta luta – os conservadores da instituição, aqueles que usufruem dos direitos adquiridos por ela, e os reformadores, os que pretendem tornar esta organização um instrumento mais eficaz. Desta tensão surgem três resultados possíveis: a reforma, o contornamento e a reação. A reforma seria uma reorganização da instituição, de modo que ela volte a ser mais instrumento e menos instituição, passando a realizar sua finalidade de forma aceitável. No contornamento, fenômeno mais raro, a instituição é deixada com a maioria de seus privilégios e direitos adquiridos intactos, mas os deveres lhe são tirados e atribuídos a um novo instrumento dentro da mesma sociedade. Exemplo clássico é a monarquia inglesa, coberta de honras, mas cuja tarefa de gover-nar foi assumida pelo Parlamento e pelo Ministério. 

No terceiro resultado possível – a reação – os direitos adquiridos triunfam na luta e a instituição se mantém indefinidamente, tornando o progresso praticamente inviável. A luz destas ideias podemos avaliar o quanto nossos instrumentos sociais – o legislativo, o judiciário e o executivo – se institucionalizaram e pararam de funcionar. Tudo indica que a atual tensão política se origina deste processo de insatisfação generalizada com nossas instituições. Parece necessário um amplo movimento no sentido de recolocar essas instituições de volta à sua finalidade de instrumentar progresso.

*Luiz Alberto Py  é psicanalista. 



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