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Ziraldo - Maluquinho pelo JB

Jornal do Brasil CELINA CÔRTES, celina.cortes@jb.com.br

Alegria. Esse é o sentimento de Ziraldo ao voltar às páginas do Jornal do Brasil, com um time de craques que promete resgatar a mais forte característica das charges: o traço ferino. Ao lembrar uma história do passado, ele define sua função como ‘assessor de palpite’, com o humor que lhe é peculiar. Ziraldo vai se alternar em páginas diárias com um time de craques, formado por Jaguar, Claudius, Aroeira e Miguel Paiva. “Sou o maior entusiasta dessa volta do JB. Não vamos fazer uma continuidade, estamos inventando o que será o jornal standard do século XXI”, propõe, do alto de seus 85 anos. O cartunista e escritor Ziraldo Alves Pinto vai sacar da cartola a máxima do grande poeta espanhol Antonio Machado (1875-1939), cantado em prosa e verso pela chilena Violeta Parra: “O caminho se faz enquanto se caminha, então vamos fazer esse jornal enquanto caminhamos”. 

Experiência para isso não falta a este fundador do Pasquim, o tablóide que não deixava pedra sobre pedra em matéria de crítica política e social e reinventou o humor em plena ditadura militar. Sua relação com o JB, onde entrou em 1959, a convite do jornalista Wilson Figueiredo, foi tão visceral que este mineiro de Caratinga não acha exagero admitir: “Fui criado no Rio pelo JB”, o que significa que o jornal foi diretamente responsável por sua adaptação à Cidade Maravilhosa, de onde nunca mais saiu. Ziraldo era uma pedra no sapato dos militares durante a ditadura. Junto com Lan, por anos a fio produziu charges antológicas sem que houvesse algum tipo de orientação ou sofresse qualquer censura dos editores. Numa época em que os jornais eram incapazes de atacar os generais que estavam no poder, publicou um desenho que foi parar no Diário Oficial, cujos responsáveis acabaram penalizados pela ousadia. Logo em seguida à posse de Ernesto Geisel, em 1974, enquanto a imprensa chamava o novo presidente-general de estadista, o militar aparecia ao fundo da imagem de uma prostituta rodando bolsinha, com o nome Arena estampado na camiseta, exclamando, “ele sorriu pra mim!”. “O JB enfrentou a ditadura e eu, como chargista, deitei e rolei”, diverte-se, com sua voz rascante. 

Outra lembrança que marcou época foi o “Oh!”, de exclamação, na charge criada quando os militares divulgaram os resultados sobre o inquérito da bomba do Riocentro. “Foi a charge mais sintética da história”, pontifica. Para quem não se lembra, havia cerca de 20 mil pessoas no centro de convenções em 30 de abril de 1981, a maioria jovens, para comemorar o Primeiro de Maio, Dia do Trabalhador. A cantora Elba Ramalho se apresentava quando a bomba – que seria destinada ao público – explodiu dentro do carro Puma estacionado no local, onde estavam dois agentes do DOI-CODI do 1º Exército, o capitão Wilson Rosário e o sargento do Exército Guilherme Pereira Rosário, que morreu na hora. A intenção era criar pânico e responsabilizar a esquerda pelo atentado. A farsa do inquérito criou uma crise no governo de João Batista Figueiredo e acabou acelerando o processo de abertura política. “A charge virou adesivo e circulava nos carros por toda a parte”, orgulha-se, numa fase do jornal que define como “gloriosa”. Não por acaso, a cobertura do atentado rendeu um prêmio Esso ao JB.

Vanguarda do Humor

Se a ideia é fazer o caminho enquanto se caminha, Ziraldo não hesita em apontar onde está a vanguarda do humor no país: o grupo Porta dos Fundos, coletivo de humor criado em 2012 por cinco amigos, insatisfeitos com a falta de liberdade criativa da TV brasileira. “Eles criam situações profundamente engraçadas, são invenção pura. Não têm bordões, maneira fácil de fazer as pessoas rirem. Ousaria até compará-los a grandes autores, como Molière, por exemplo”, arrisca. E para quem já ganhou um prêmio Jabuti (1982) por Menino maluquinho e Nobel Internacional do Humor (1969), entre outros, seu maior orgulho foi o Prêmio Íbero Americano de Humor Gráfico, concedido em 2008 pela Universidade espanhola Alcalá, uma das mais antiga da Europa, fundada em 1293. “Fui o único autor de língua portuguesa premiado por eles, pela qualidade e importância da obra e pelo compromisso com o social. Me senti muito honrado ao receber essa distinção no púlpito do dramaturgo e poeta espanhol Lope de Veja”, recorda. Neste desafio de fazer humor e crítica no século XXI, o autor de Flicts prefere não chamar os jovens de alienados, tolerante com o perfil dos que passam o dia conectados aos videogames e redes sociais. “Cada sujeito vive seu tempo, não se pode culpá-los por suas escolhas”, contemporiza, embora admita que passamos por tempos de “vazio de ideias”. O que ele critica sem dó é o conceito do politicamente correto. “A intolerância não conduz a nada, há muita gente lutando por causas que só ajudam a destruir a humanidade. Qualquer coisa é taxada de atitude indecorosa. Outro dia quase fui crucificado por chamar um amigo, de forma carinhosa, de crioulo. Sempre o chamei assim e ele mesmo se surpreendeu com a reação”, lamenta. “Daqui a pouco não poderemos nem usar a palavra cabrocha porque vão dizer que é diminutivo de cabrita”, brinca.

Com afeto

No entender do mestre, essas e outras questões devem ser tratadas de forma afetuosa, sem preconceitos, maniqueísmos e sobretudo intolerância. “Fora do afeto não tem solução”, filosofa. E não perde a piada: “A proposta mais antiga é ‘amai-vos uns aos outros’, resolve tudo! Não é a toa que Jesus Cristo ficou tão famoso!’’’ O pai da cineasta Daniela Thomas, Antonio e Fabrícia, é casado com Márcia Martins da Silva e sua primeira mulher chamava-se Vilma Gontijo. Tem sete netos, a mais velha Ina, com 25 anos, e o caçula Sebastião, com 6. “São todos paulistanos e moram em São Paulo, para onde ele costuma ir muito. Com os mais velhos tem uma relação mais intelectual, sobre o que eles andam lendo, por exemplo. Com os menores gosta de trocar ideias”, conta Márcia. Do que ele mais gosta de fazer? “Desenhar e escrever, nessa ordem”, resume a sra Ziraldo.

Ziraldo, o mineiro do traço e do humor

O cartunista Ziraldo Alves Pinto, um dos setes filhos de dona Zizinha e seu Geraldo, nasceu em Caratinga (MG) em 1932. Aos 85 anos, esse mineiro engraçado, que fez do humor gráfico a sua vida, não deixa de brincar com a própria sorte. Dias atrás, refazendo-se das consequências de uma queda em casa, disse aos jornalistas que foram visitá-lo para anunciar a volta do JORNAL DO BRASIL em papel que todos estavam todos muito velhos, ele inclusive. “Aliás, eu envelheci na semana passada. Eu tava bem...”. E riu da ironia que ele mesmo fez. Ziraldo veio ao RIo pela primeira vez em 1949, para estudar na MABE, um colégio que funcionava na Lapa onde hoje é o hotel Vila Galé, na Rua do Riachuelo. Mas não ficou por aqui. Voltou a Caratinga e de lá foi para Belo Horizonte estudar. Antes de formar-se em Direito, começou a colaborar com jornais mineiros. Além de desenhar muito bem, instintivamente, era um leitor atento desde a infância. No encontro com os jornalistas no Rio, cidade que adotou em 1960, Ziraldo disse que o desenho que faz “é velho”, e que é preciso pensar nas novas gerações de cartunistas que estão surgindo por aí. Abrir espaço para eles, sugere. E ressalva, sério: “Meu desenho é velho, mas é bom”. Minas ficou pequena para esse criativo filho de Caratinga. No Rio, Ziraldo começou a colaborar com o JORNAL DO BRASIL e a revista O Cruzeiro. Não tardou o sucesso: sua criação do Saci Pererê estourou com o lançamento da primeira revista em quadrinhos brasileira feita por um só autor, A Turma do Pererê. Criou outros personagens que fizeram muito sucesso, como Jeremias, o Bom; a Supermãe; e posteriormente o Mineirinho. Com um grupo de humoristas amigos, criou o Pasquim, um jornal revolucionário em linguagem, grafismo e humor que se tornou celeiro de artistas. Em 1968, Ziraldo teve reconhecido o seu talento internacional com a publicação de seus trabalhos na revista Graphis, o suprassumo das publicações em artes gráficas. Teve ainda trabalhos publicados nas revistas internacionais Penthouse e Private Eye da Inglaterra, Plexus e Planète, da França, e Mad, nos Estados Unidos. Em 1969, publicou seu primeiro livro infantil, Flicts, que vazou as fronteiras do Brasil. Daí pra frente Ziraldo produziu grande número de livros para crianças, lançando em 1980 seu maior sucesso, O Menino Maluquinho, adaptado posteriormente para teatro, quadrinhos, internet e cinema. Sua obra começou a ser traduzida para outras línguas e hoje são mais que conhecidas em pelo menos cinco idiomas. Ziraldo também fez cartazes para inúmeros filmes do cinema brasileiro, entre eles Os Fuzis, Os Cafajestes, Selva Trágica. É um de nossos artistas gráficos mais premiados. Ganhou, entre outros prêmios importantes, o Oscar Internacional de Humor no 32º Salão Internacional de Caricaturas de Bruxelas e o prêmio Merghantealler, prêmio máximo da imprensa livre da América Latina, patrocinado pela Associação Internacional de Imprensa. Grande carnavalesco, Ziraldo foi um dos fundadores da Banda de Ipanema, ao lado de Albino Pinheiro, Leila Diniz e a turma do Pasquim. Também teve passagens pela Ao fazer 80 anos, foi homenageado com uma grande festa. Lá já havia um estátua do Menino Maluquinho e a Casa Ziraldo de Cultura. que guarda acervo valioso de sua vida e sua obra. Ziraldo tem três filhos do seu primeiro casamento, com dona Vilma Gontijo. Ziraldo, o mineiro do traço e do humor

ROMILDO GUERRANTE 



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