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Lugar da política

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No Jornal do Brasil que hoje ressurge impresso, este será, como em outros tempos, um espaço reservado à decifração dos signos da política, à análise e à interpretação dos fatos reportados como notícia. Ocupá-lo, neste momento delicadíssimo para o Brasil e para o Rio, é desafi o  que assumo com reverência a seu signifi cado na história do jornal e à memória de quem nele escreveu por 30 anos, o mestre maior do colunismo político, Carlos Castello Branco.

Traduzir o jogo político nunca foi fácil num país como o Brasil, em que a própria República nasceu de uma quartelada, abrindo a sequência de crises, golpes e sobressaltos, alternando ciclos autoritários com experimentos democráticos. Agora, este período mais longo de democracia que sucedeu à ditadura está sendo testado ao máximo, estressando as instituições no limite da anomia.  A crise política conjugada com o revés econômico, a ruína do sistema herdado de 1988 e a inegável falência das elites pintam um quadro sombrio e dramático. 

Não menos delicada é a situação do Rio de Janeiro. A corrupção foi elemento importante, mas não único, no processo de falência do estado. A queda nos preços do petróleo e o desarranjo em sua cadeia produtiva, a partir da Lava Jato, também facilitaram o açoite da recessão. Com ela vieram a ruína fi scal, os atrasos no pagamento de servidores e fornecedores e o aumento do desemprego, criando a pastagem ideal para o avanço do tráfi co e da violência. A incapacidade do governo estadual para enfrentar a situação fi cou patente há algum tempo, exigindo uma atitude do governo federal. A intervenção, apesar do improviso, do temerário emprego das Forças Armadas e dos riscos de fracasso, neste momento conforta boa parte da população. O que o Rio não pode aceitar é que ela seja mesmo o plano eleitoreiro e populista de que se tornou suspeita, depois que o marqueteiro do presidente da República confi rmou sua candidatura à reeleição. Um povo já tão castigado não merece um estelionato eleitoral em que, passado o pleito, tudo volte a ser como antes.  Ou pior. 

Mas é alvissareiro que, em hora tão crucial ressurja, na concretude do papel, um jornal que carrega, como o JB, a marca do pluralismo, da liberdade de expressão e da inovação. O Brasil da polarização raivosa precisa reaprender o convívio na divergência e libertar-se das bolhas de pensamento único. São compreensíveis o pessimismo e o desalento dos brasileiros, que nas pesquisas chegam a manifestar descrença na democracia. Foram muitos os descaminhos recentes mas a hora é de olhar para a frente,  Estamos a sete meses de uma eleição geral que pode devolver ao povo a oportunidade de escolher governantes e renovar o Congresso, ditando um caminho legítimo a ser trilhado. 

Numa conjuntura tão complexa, mais exigidos devem ser os que se arriscam como analistas. Espero corresponder, na medida da minha experiência e das minhas limitações. Os leitores do Rio me conhecem de longa data. Escrevi por mais de 20 anos uma coluna política em O Globo. Foi a partir da TVE do Rio que liderei a implantação da TV Brasil. Mineira, radicada em Brasilia, atei-me para sempre ao Rio desde quando aqui vivi na clandestinidade, durante a ditadura. Aqui tenho uma segunda morada. Acredito em dias melhores para o Brasil e o Rio.

Ao mestre, com carinho

Castellinho foi único e insubstituível e por isso não usaremos o título “Coluna do Castello” mas o “Coisas da Política”, da coluna de segunda-feira, quando ele folgava. Dele fui e continuo sendo aprendiz, como nos anos 80, quando ele era um monstro sagrado e eu uma jovem repórter treinando como colunista. 

Generoso, ele me incentivava, elogiando uma nota ou enviando um bilhetinho. “A coluna está indo bem mas aumente a nota de abertura”. Os mais jovens e os saudosos podem visitar seu legado no site construído por sua fi lha Luciana, reunindo todas as suas colunas e textos. O endereço é www.carlos castellobranco@com.b



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