Jornal do Brasil

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Roswell Rudd (1935-2017)

August Love Song, com a vocalista Heather Masse, foi um dos últimos álbuns do celebrado trombonista

Jornal do Brasil LUIZ ORLANDO CARNEIRO

O eminente trombonista Roswell Rudd morreu no último dia 22, aos 82 anos, de câncer na próstata. De herança, deixou uma valiosa discografia com mais de 20 títulos na condição de líder, e mais de 30 como sideman de estrelas do free jazz também de primeira grandeza como Cecil Taylor, Archie Shepp e Steve Lacy.

O jazz é um modo de fazer música em que a expressão individual do intérprete é um fim, e não apenas um meio. Um grande jazzman não é apenas um dos respeitados instrumentistas de um bom combo ou de uma big band, mas aquele que mostra ter “voz” própria – não só como solista, mas como parte significativa do conjunto.

No obituário de Rudd publicado no site da JazzTimes, Michael J. West lembrou que ele começou a tocar bem jovem, na década de 1950, quando se graduava na Universidade de Yale, no enquadrado estilo Dixieland, mas tornando-se, a partir da década seguinte, “indiscutivelmente o primeiro grande trombonista da vanguarda do jazz”. E citou entrevista na qual o agora saudoso jazzman afirmara: “Os recursos do trombone são uma revelação contínua para mim. Os recursos expressivos, os recursos tonais, são infinitos (…) Não importa a situação ou a pessoa que me inspire, o que interessa sempre é o som”.

Alguém já disse que “a música exige o alerta da inteligência e o descuido da emoção”. E foi essa música que Roswell Rudd sempre concebeu e exprimiu, nas mais diversas companhias e situações. Mesmo já enfrentando a luta contra o câncer ele não parou de tocar, e gravou dois álbuns seguidos muito originais e criativos na aparentemente improvável companhia de duas vocalistas: August Love Song (Red House Records), com Heather Masse, quase 50 anos mais moça do que ele; Embrace (Rare Noise Records), com Fay Victor, do Brooklyn, estrela em ascensão considerada legítima herdeira da incomparável Betty Carter (1929-1998).

Estes dois discos foram selecionados e comentados por esta coluna, assim que lançados: August Love Song em 9/4/2016; Embrace, o “canto do cisne” do trombonista, em 18 de novembro último. No número de fevereiro próximo da revista Downbeat - já disponível para assinantes – o reviwer Fred Bouchard concedeu quatro estrelas e meia (máximo de cinco) a Embrace, no qual Rudd e Fay Victor têm a companhia de Lafayette Harris (piano) e Ken Filiano (baixo).

O ativismo de Rudd na linha de frente do free jazz está bem documentado em Mama Too Tight (Impulse, 1966), registro histórico de um oiteto comandado pelo saxofonista Archie Shepp, e que incluía Howard Johnson (tuba), Perry Robinson (clarinete) e Charlie Haden (baixo). O trombonista e Shepp voltaram a gravar juntos, em 2000, no clube Jazz Standard, com a excepcional seção rítmica formada pelo baixista Reggie Workman e pelo baterista Andrew Cyrille (Archie Shepp-Roswell Rudd: Live in New York, Verve).

(Samples do CD Embrace em: itunes.apple.com/us/album/embrace-feat-fay-victor-lafayette-harris-ken-filiano/1293724822)

CODA

Este ano que chegou ao fim marcou também o fim da vida dos seguintes músicos de jazz que tiveram carreiras e discografias excepcionais: os guitarristas Larry Coryell (73 anos), John Abercrombie (72) e Mundell Lowe (95); os vocalistas Jon Hendricks (96) e Al Jarreau (76); os pianistas Muhal Richard Abrams (87) e Geri Allen (60); os bateristas Ben Riley (84) e Sunny Murray (81); o saxofonista alto Arthur Blythe.



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