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Turma do Bem: Fábio Bibancos luta para recuperar sorrisos com autossustentabilidade

O dentista é criador de ONG com mais de 17 mil dentistas atuantes em 14 países

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Maior rede de voluntariado especializado do mundo, a Turma do Bem conta com mais de 17 mil dentistas atuantes em 14 países e oferece atendimento odontológico gratuito para a população de baixa renda em condição de vulnerabilidade social. Por trás desses números impressionantes, está Fábio Bibancos. Criador e presidente da ONG que atende mais de 60 mil jovens entre 11 e 18 anos, além de mulheres vítimas de violência doméstica, o dentista especialista em Odontopediatria, Ortodontia e Mestre em Saúde Coletiva reuniu os integrantes da ONG no evento Sorriso do Bem, em Poços de Caldas (MG) para novos projetos. Mas ele se preocupa menos com títulos e mais em humanizar todas as consultas.

Por isso, em seus 15 anos de atuação ativa, a Turma do Bem impactou mais de 70 mil jovens e 750 mulheres. A proposta é sempre promover a inclusão social por meio do sorriso, oferecendo não só tratamentos odontológicos e ortodônticos, mas o resgate da autoestima. A organização tem um modelo inovador de gestão, baseado no voluntariado, e, por seus projetos, a OSCIP ganhou o prêmio Empreendedor Social da Schwab Foundation; tornou-se fellow da Ashoka; foi reconhecida pela Organização das Nações Unidas e escolhida pela fundação filantrópica Epic Foundation para integrar o primeiro portfólio de instituições que investem em alto impacto social.

Mas não é só com os dentes que Fábio se preocupa. Prova disso é o lançamento do Projeto 15,  uma rede de proteção e prevenção entre suas jovens beneficiárias e mulheres de coletivos feministas, estudantes ou formadas. “Estudando nossos beneficiários, identificamos que as nossas meninas não seguem o mesmo caminho que os meninos. Eles recebem tratamento dentário e vão. As meninas, quando procuramos exemplos, vimos gravidez precoce ou viraram donas de casa… o que acontece? Ela passa a ser bonita, assediada, vai para as relações sexuais sem educação sexual e sem aspecto preventivo. Então, nós começamos a perceber que tínhamos que mudar o cenário das meninas. Dando apenas dentes, estávamos enfrentando outro problema social”, explicou.

Pensa que acabou? Agora, Fábio dá passos ainda maiores: ele acaba de lançar o Ismyli, um aplicativo inovador que promete tornar sua Turma do Bem cada vez mais forte. Isso acontece porque a Turma do Bem investirá seu impacto social em uma empresa e ela retribuirá isso com dividendos e dinheiro para que a ONG continue existindo. Autossustentabilidade é a palavra-chave por aqui.

Heloisa Tolipan – Comente sobre o aniversário de 15 anos da Turma do Bem

Fábio Bibancos – São 15 anos da Turma do Bem, uma vida né… debutar. Não entendo como vitórias apenas, mas conseguimos trazer a odontologia para uma agenda política. Conseguimos falar sobre odontologia e os meios de comunicação terem total interesse nesse assunto. Não estamos falando sobre clareamentos, estética, facetas, mas sobre pessoas que não conseguem ter acesso a essa necessidade importantíssima para empregabilidade e sobre relações. Os 15 anos são importantes, mas os percalços são enormes. Ter uma organização social no Brasil é dificílimo. No primeiro momento as pessoas acabam em busca da própria sobrevivência, né? Eu até compreendo, cortou o budget… A gente não vive de capital público, mas quem vive também se mudar o governo também mudam as prioridades. Ficamos ao Deus dará. Nem sei como passei esses 15 anos. A pressão financeira é enorme e o número de crianças é cada vez maior.

HT: Quais são os números, hoje, da Turma do Bem?

FB: 70 mil crianças atendidas, 750 mulheres vítimas de violência beneficiadas. De dentista são 17 mil e 100 dentistas espalhados na América Latina inteira e em Portugal.

HT: O que esses dentistas fazem por essas crianças e adolescentes?

FB: Fazem o atendimento voluntário gratuito de crianças de 11 a 17 anos. Todo o atendimento, cuidam da criança até os 18 anos. Porém essas relações são muito maiores do que simplesmente o tratamento odontológico.

HT: Como essas crianças chegam à Turma do Bem?

FB: A Turma do Bem faz um processo seletivo nas cidades e seleciona as crianças mais pobres, mais próximas do primeiro emprego, e que estão com a boca mais destruída.

HT: E qual o apoio que você tem do governo para um trabalho de 15 anos?

FB: Olha, não temos apoio do governo, nunca tivemos, em nenhum dos governos. A odontologia nunca é pauta. Os governantes nem sabem que a gente existe.

HT: Com todo reconhecimento que você obteve no ano passado, do seu trabalho e desses 17 mil profissionais, os holofotes dos governos não conseguem atingir o bem que você faz?

FB: Nem com todos os holofotes na corrupção, conseguimos tirar eles de lá. Acha que vamos conseguir trazer o foco pra odontologia? Enquanto o governo estiver dessa maneira, convivermos ao Deus dará com esses políticos todos envolvidos em corrupção, é pouco provável que consigamos trazer luz para a questão.

HT: Mas mesmo assim você vai remando cada vez mais rápido e com olhar cada vez mais atento. Você acaba de lançar um aplicativo…

FB: A Turma do Bem passa por uma modernização né, temos que achar nossa maneira de captação de recursos. Temos um aplicativo para manter nosso processo de triagem mais barato. Corta muitos custos da organização e dá agilidade maior. Do outro lado temos o Ismyli, um aplicativo só para os dentistas do bem, em que temos um grande market place, área de ensino, área de certificação. Se o dentista comprar qualquer coisa no market place parte da renda do market place vem para turma do bem, se estudar com os professores do aplicativo, parte da renda vem pra Turma do Bem. Temos superinovador a área de certificação. Estamos trabalhando os melhores dentistas para o mundo. A pessoa procura um dos melhores dentistas para o mundo, que é um cara que tem um selo, que ele é legal com ele mesmo, com a sociedade e com o planeta. Por exemplo, no caso do planeta, se segue os padrões do Dentista Verde, uma padronagem que fizemos com ambientalista em que o dentista tem materiais de descarte específicos, controles, etc. Ele não estraga o planeta. Tem ele com a sociedade: se atende crianças da Turma do Bem, mulheres vítimas de violência, se emprega minorias… buscamos todo tipo de diversidade dentro do consultório odontológico. E ele com ele mesmo: é feliz? Sorri? Caminha? Quando ele é legal com ele mesmo é um dos melhores dentistas para o mundo. É nesse caminho que seguimos a certificação. Acho que vai ser muito legal permitir que o consumidor final saiba que esse dentista tenha todas essas posturas dentro do consultório. Ele sabe que o tratamento vai ser melhor com esse cara.

Um cara muito bom, mas que não entende a questão do menino pobre, do meio ambiente, ele não é legal. Simples assim. Nesse mundo que vivemos, ele não é legal. A proposta da certificação é essa. A outra é a redução real de custos da Turma do Bem, que fará com que nos tornemos sustentáveis. Se o dentista compra no aplicativo, todo mundo sai ganhando.

HT: A cada ano você surpreende com projetos inovadores e de cunho extremamente social, intrínseco, emocional. Ano passado tivemos ênfase nas Apolônias e, agora, o das Meninas, a partir de uma constatação, queria que você comentasse.

FB: Estudando nossos beneficiários, identificamos que as nossas meninas não seguem o mesmo caminho que os meninos. Eles recebem tratamento dentário e vão. As meninas, quando procuramos exemplos, vimos gravidez precoce e que viraram donas de casa… o que acontece? Ela era desdentada, coloca o dente, passa a ser bonita, assediada, em alguns casos ela é vítima de violência ou então vai para as relações sexuais sem educação sexual e sem aspecto preventivo. Então começamos a perceber que tínhamos que mudar o cenário das meninas. Dando dentes, estávamos diante de um outro problema social. Criamos o Projeto 15 junto às madrinhas, meninas de coletivos feministas, formadas ou estudantes que adotaram as meninas. São 17 meninas e 17 madrinhas. Fizemos processo de encontro delas, para fazer o match dos gostos e perfis. Elas foram criando vínculos, se falam por whats app, criando uma rede de meninas que cuidam de meninas. Empoderadas, formadas, estudantes, que conhecem leis, justiça, dificuldades das mulheres, que ajudam as nossas beneficiárias. Construímos nessas adolescentes um empoderamento e elas têm uma rede de proteção e prevenção junto às madrinhas.

HT: Qual a repercussão da sociedade civil com relação a todo esse trabalho feito pela Turma do Bem?

FB: Impressionante como conseguem reconhecer a importância do dentista e de tudo isso, mas fica muito longe do gabinete governamental. O reconhecimento existe, a necessidade todo mundo sabe que tem, mas é um momento triste do país. Não consigo nem pensar em ajuda governamental, porque nem me sinto governado. Há uma sensação de desgoverno. Vou exigir de quem? Vou fazendo minha parte. Não vou parar. Tenho uma rede sólida, todo mundo faz um pedacinho, mas é triste ver que existe uma sociedade mobilizada, ávida para fazer algo importante, e não temos um governo presente.

HT: O que o motiva?

FB: O beneficiário, as pessoas que recebem.

HT: O que te dá esperança?

FB:  Vou fazendo meu melhor, acho que é difícil, mas a esperança infantil não tenho mais. Sou um agente de mudança, se conseguir dar um passinho, está bom. Mas não dá para se sentir um cidadão esperançoso. Talvez um dia voltemos a ter essa conversa….

HT: Você escolheu como tema a Grécia. Você foi a fundo, mostrando para 400 dentistas, vida, ensinamento profundo do fazer o bem… você mexe com sensibilidade e emoção para um trabalho ser desenvolvido. Como escolheu o tema Grécia e o que te fez se aprofundar nesse tema?

FB: Olha, meu conhecimento era muito pequeno da Grécia até entrar em contato com o trabalho do Rodrigo Lopez. Traz um afago, um respirar novo, não só para Turma do Bem, mas pra todos, ao ver que gregos já haviam pensado nisso. A nossa civilização ela foi detonando tanta coisa, escondendo tanta coisa, colocando tanta culpa, que quando você vê a beleza, a leveza, a loucura dos gregos, vemos que dava para ter feito de outro jeito. Estava tendo uma aula sobre mulheres, sacerdotisas, eu vejo como tudo se conecta. Talvez isso tenha sido fonte de inspiração para o projeto das meninas, a observação sobre a história das meninas acontece no mesmo tempo. O grande encontro com o Rodrigo Lopez é que vou fazer um curso de Grécia e descubro que aqui, em Poços de Caldas, isso aqui foi criado como um santuário grego. Tem a parte da hotelaria, banhos, área de diversão. Aí eu entendi que o que estávamos fazendo intuitivamente já tinha sido observado pelos gregos na formação dos seus médicos. Treinamos dentistas para serem mais humanistas e esse é o modelo grego de saúde. Loucura essa sincronicidade. Poços de Caldas é uma cidade atípica em termos de cultura, temos cinemas de rua, não no shopping… é diferente. Tem um charme, cultura muito aguda na população. É um patrimônio histórico e cultural bem conservado. Trazemos as pessoas pra refletir e é uma delícia trazer pessoas num lugar como esse. E ainda descobrir que é inspirado no lugar em que se formavam médicos gregos. Incrível.

HT: Você deu ênfase ao sonho. O que Fábio Bibancos ainda sonha?

FB: Que a política pública assuma a saúde bucal dos brasileiros.



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