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Rocinha não aceita continuar a ser discriminada

Jornal do Brasil DAVISON COUTINHO

A Associação de Moradores de São Conrado (Amasco) solicitou à Emop (empresa de obras públicas) uma reunião para apresentação do PAC 2 da Rocinha. A reunião, que aconteceu nesta terça-feira (10) em um luxuoso hotel em São Conrado, se deu pela preocupação dos ricos de São Conrado com os apartamentos do PAC, previstos para serem construídos de frente ao mercado Extra, em São Conrado.

A apresentação das obras iniciou-se com a arquiteta sendo vaiada. A mesma continuou a apresentação com muito nervosismo, até passar a palavra para o Sr. Icaro Moreno, presidente da Emop. O presidente continuou a apresentação até ser surpreendido pela fala de um dos moradores participantes: “Vamos ao ponto que interessa: os apartamentos serão construídos em São Conrado ou não?”, se referindo à proposta de construção de unidades habitacionais para moradores da Rocinha em São Conrado, em cima do metrô. A resposta de Ícaro foi que os apartamentos não seriam mais ali construídos, pois ele havia tido uma reunião anterior com representantes da Amasco e assim havia descoberto que o local era inapropriado para a construção.

Todos que vaiavam o presidente da Emop e sua equipe passaram a aplaudir quando o mesmo informou que os apartamentos não seriam mais construídos no local. Essa mudança se deu pelo pedido da associação de moradores de São Conrado. “Recebi o presidente da Amasco, com mais quatro participantes na minha sala na Emop, conversamos sobre o projeto, ele me colocou naquele momento sobre a questão das unidades habitacionais. Imediatamente eu falei que aceitava a sua colocação, e vou retirar os prédios dali”.

Será que foi preciso uma associação de moradores ir até o presidente da Emop para que eles, que são engenheiros experientes em obras públicas, descobrissem que o local era inapropriado?

Mentira. Os apartamentos foram retirados do projeto para satisfazer o desejo da elite, dos ricos. Eles não querem pobres chegando a seus espaços. Fazem imagem que gostam de favela, que favela é legal, que se preocupam com as questões da comunidade, que somos vizinhos, mas deixam claro que é cada um no seu espaço, nada de pobre morando perto.

O morador Rafael Matoso, líder comunitário do grupo Inove da Rocinha, se manifestou e gritou: “Por que que a Rocinha tem que perder para eles? Por que somos pobres? Por que não vão mais ser feitos os apartamentos?  Ícaro vocês está de parabéns. Aqui você se faz presente, na Rocinha você não participa das reuniões. Estamos cansados de perder”. Nesse instante, outros moradores da Rocinha iniciaram um protesto acusando os moradores de São Conrado de xenofóbicos e preconceituosos.

“Prometeram e não vão cumprir com os apartamentos.  Fizeram propaganda enganosa, botando bala na boca de crianças, alimentando o sonho do pobre que um dia sonhou em morar às margens da favela”, reclama Rafael.

O presidente da Emop sabia da "molecagem" que tinha feito com a Rocinha e não se dispôs a responder as questões. Informou que iria embora, pois o pessoal não sabia conversar, e se retirou da sala deixando o alvoroço.  É lamentável saber que o Governo do Estado favorece a classe rica, deixando de lado o desejo e sonho dos nossos moradores.

O resultado dessa reunião é o sentimento de muita indignação de todos nós moradores. É triste e revoltante saber que tantas pessoas, bem nascidas e bem formadas, que tiveram sempre melhores condições de vida, não se conformam com o crescimento do favelado. Não querem que a favela seja parte integrante da cidade, querem nos esconder. Melhor: querem nos exterminar.  

*Davison Coutinho, 23 anos, morador da Rocinha desde o nascimento. Formando em desenho industrial pela PUC-Rio, membro da comissão de moradores da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, professor, escritor, designer e liderança comunitária na Comunidade, funcionário da PUC-Rio. 



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