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Sábado, 18 de Agosto de 2018 Fundado em 1891
Hildegard Angel

Colunistas - Hildegard Angel

Lucinha Araújo: 'Estou velha para ficar brigando com o governo, eu faço a minha parte'

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Há alguns anos, Lucinha Araújo deixou de ser simplesmente a mãe de Agenor de Miranda Araújo Neto, o grande Cazuza, para se tornar uma das filantropas mais comentadas do Brasil. Hoje, é um símbolo, um ser humano capaz de nos fazer crer que ainda há bondade nesse mundo, apesar dos conhecidos pesares que permearam a sua vida. Afinal, foi justamente a perda de seu único filho que a levou  a começar um projeto para que não apenas a curasse de uma dor que se acusava insuportável, mas também as dores das outras mães, talvez até maiores que a dela. 

É com essa força feminina imensurável que há 30 anos ela coordena a Fundação que leva o nome de seu filho, vítima de complicações do vírus da AIDS em julho de 1990. Já mais de 200 crianças passaram pela sua Fundação Viva Cazuza, onde ela provê seu tratamento médico e o apoio psicológico, oferece os medicamentos, promove oficinas de aprendizado, aulas e, sobretudo, carinho. Hoje ela tem “centenas de filhos espalhados por aí”, conforme diz.

Como na canção do filho, o tempo nunca parou para Lucinha. E nem poderia. “Os meus projetos novos são para levar adiante o que eu já tenho. É uma luta, e é preciso mergulhar de cabeça”, explica. Em maio passado, na cidade de Vassouras, ela inaugurou o Centro Cultural Cazuza na casa que foi propriedade de sua família, datada dos tempos dos barões do café, meados de 1850. A reforma foi idealizada por Lucinha, com parceria do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Prefeitura Municipal.

Em entrevista a JOÃO FRANCISCO WERNECK, ela falou sobre a obra de seu filho, a ONG que administra, e comenta a onda conservadora crescente no país e a perseguição contra os homossexuais. Em meio a tantas tarefas e compromissos, escreve um novo livro, para lançar em 2019.

Como era a sua relação com o Cazuza? 

Três momentos da maternidade de Lucinha Araújo: do luto à luta

A nossa relação era uma bagunça. Porque o pai era uma pessoa muito séria, e eu não sou nada séria. Então comigo não era apenas uma relação de mãe para filho. Era uma relação de amigos, afinal de contas, eu só tinha 20 anos a mais do que ele. A gente se xingava e se amava do mesmo jeito. Só que com o pai ele não se fazia de bobo, que o João botava ele no lugar dele. Então comigo era uma relação mais esculachada.

Você tem algum episódio que possa nos contar?

Eu fui rígida sempre, principalmente quando ele frequentava a escola. Tanto que quando ele conseguiu se libertar de mim, ele repetiu de ano. Eu era muito rigorosa com relação a tudo, notas, boletim, estudo, leitura, frequência. Eu ficava louca com isso. Mas foi uma bobagem. Eu escolhi mal o colégio em que ele estudou, o Santo Inácio. Eu queria o melhor, e o melhor era esse. Mas eu não sabia no que aquilo ia transformar o meu filho. O Cazuza não tinha nada a ver com colégio de padre. Mas de qualquer forma ele fez até o ginásio por lá...

E como vocês ficaram sabendo da doença dele? Como foi esse momento?

Nós tínhamos um médico clínico que tratava da nossa família, a mim, ao Cazuza e ao João. E então ele, o Cazuza, começou a ter umas febres esquisitas. Fazia umas excursões pelo Brasil com o Barão Vermelho e voltava com febre. Foi quando eu sugeri que poderia leva-lo ao médico. Ele, claro, disse que “jamais iria ao médico com a mamãe, um homem naquela idade…”. Realmente, coitado, mãe de filho único não é mole. E então ele foi ao médico, que pediu uns exames e depois ligou para mim e o João pedindo para que fossemos até o consultório. Nesse dia ele falou: “O seu filho foi tocado pela AIDS”. Eu não queria falar isso para o Cazuza. Quem contou foi o médico. Naquele dia, ele voltou para casa, e nós dormimos os três juntos abraçados. Imagina o sofrimento…

Foi difícil aceitar a homossexualidade de Cazuza? 

Não foi difícil nem um baque. O João sempre trabalhou no meio artístico. Eu queria que o meu filho fosse feliz, só isso. Quando comecei a suspeitar de algumas coisas, ele já tinha 18 anos. Nessa época eu fui falar com o João, que me disse: “Você está maluca, vou mandar te internar”. Eu não aguentei e fui falar com o Cazuza, botei logo na lata. Ele me disse que gostava de meninos e meninas, e que eu não tinha nada a ver com a vida privada dele. E assim a gente foi muito feliz, com uma convivência muito boa.  

Como você vê essa crescente onda conservadora no Brasil, com discursos homofóbicos de políticos?

Eu vejo com horror. Acho uma babaquice, um absurdo. Honestamente, pensei que as coisas hoje em dia estariam melhores. Mas, tirando a cabeça de alguns políticos, as pessoas estão aceitando de uma maneira muito melhor. E tem mesmo é que aceitar. Acho que vida sexual é uma coisa muito privada. Quem me garante que eu não seria mais feliz casada com uma mulher? 

E as drogas?

Isso eu sou contra, sempre. Isso é algo que me incomodou muito. Eu não posso dizer que o Cazuza era um drogado. Ele gostava de tudo, e o que mais gostava era uísque, a bebida favorita do pai. E eu acho que a bebida alcoólica te conduz a outros vícios. Claro que a gente lutou muito com ele, mas a gente nunca precisou internar como dependente químico. Eu fiquei com pena porque todos os amigos faziam as mesmas coisas que ele, e ele foi o único que pegou essa doença. Estão todos casadinhos. Eu fiquei com muita pena. Por que meu filho? Até hoje espero uma resposta para isso…

Resposta de quem?

Olha, eu acredito em Deus, mas não acho que ele tenha a ver alguma coisa isso.  Não acho que meu filho tenha sido escolhido como mártir de alguma coisa por alguma entidade. Eu acho que ele mesmo procurou essa situação. Uma pena, né?! 

Qual o efeito do tempo na obra do Cazuza?

Eu nunca vi uma coisa tão atual. Agora, estrearam uma novela na Globo chamada o “Tempo não para”. Recentemente, a Elza Soares regravou essa música. Eu acho que o Cazuza é muito atual. Ele deixou diversas músicas inéditas que estão sendo gravadas por pessoas muito importantes. E eu tenho o projeto de lançar um CD nesse formato. Inclusive já tenho até algumas faixas prontas. Era um projeto para os 60 anos de nascimento do Cazuza, que seriam completados neste ano. Mas vai demorar ainda um pouco. Quem já gravou foi Caetano, Gil, Xande de Pilares, Carlinhos Brown, Rogério Fausino…  É um projeto bem eclético. A Paula Lavigne está produzindo...

Qual é o principal objetivo da Fundação Viva Cazuza?

O meu principal objetivo, lá no início, era atender pessoas portadoras do vírus do HIV, principalmente as em pior condição sócio econômica. Mas achei que atender a adultos seria um vídeo tape da minha vida. Eu não queria aquilo, então optei por crianças. E não me arrependo. Já passaram por aqui mais de 200 crianças, e a perda foi muito pequena: apenas três. Acho que eu cumpri meu objetivo. Atualmente, estamos atendendo adultos, porque muitos não sabem tomar os remédios, ou precisam de algum auxílio. Como prêmio, se cumprem nossa agenda direitinho, nós entregamos uma cesta básica. 

E como é a vida de uma criança que frequenta o Viva Cazuza? 

Eles aqui fazem tudo o que uma criança de classe média faz. Vão à piscina, estudam, fazem esportes, frequentam as oficinas, academias, programas culturais. Sobre agenda cultural, nós já fizemos tudo o que essa cidade tem para oferecer. Há algumas semanas nós fomos ao Projac. Nesse aspecto, estamos muito bem. Claro que a maioria das crianças por aqui, que tem HIV, não tem pai ou mãe, mas acontece que hoje, os que têm, são filhos de pais viciados em crack.  

A AIDS voltou, e muito em função do crack…

Eu vejo isso tudo com muito pesar. Vejo também que inexistem campanhas federais. Quando que o Ministério da Saúde, nos últimos anos, fez uma grande campanha contra a AIDS? Não me lembro. Se fez, não foram muito efetivas. O Cazuza já dizia: “Brasil mostra a sua cara”. E isso deve ser algo pensado para os jovens, já que todo mundo sabe que quem mais se contamina são jovens entre 16 e 26 anos.  A AIDS mudou de cara. Principalmente devido aos efeitos do chamado coquetel, os jovens de hoje não viram o estado em que ficavam as pessoas com essa doença, e então voltaram a transar sem camisinha. Mas eu estou velha para ficar brigando com o governo. Deixo isso para os mais novos. Eu faço a minha parte. 

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VEXAME! O BRASILEIRO está entre os que mais concordam com a frase “direitos humanos não significam nada”, atrás apenas de Arábia Saudita e Índia, entre 28 países - pesquisa da Human Rights in 2018/Ipsos. Envenenados por um noticiário que costuma responsabilizar os Direitos do Homem pela violência, dos nossos 23 mil ouvidos, 74% acreditam que pessoas tiram vantagem indevida dos direitos humanos. 



Tags: caderno b, cazuza, cultura, hildegard, lucinha

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