Jornal do Brasil

Quarta-feira, 18 de Julho de 2018 Fundado em 1891
Hildegard Angel

Colunistas - Hildegard Angel

Sara de la mancha

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A maior diva do teatro musical brasileiro é empoderada e linda, com ideias próprias, formação completa nas artes de seu ofício, timbre encantador e, apesar de protagonizar os grandes musicais estrangeiros, aqui e no exterior, tem discurso nacionalista: “Chegou o momento de o Brasil ter um teatro musical brasileiro genuíno, que conte a nossa história, com composições próprias, e não só repaginadas. Seria incrível contar histórias com a nossa musicalidade, nossa brasilidade.”

Ao voltar da entrevista com Sara, o repórter JOÃO FRANCISCO WERNECK contou que ficou sem fala diante de tamanha beleza. Mas não é só pela beleza que Sara brilha no palco.

Sara Sarres tem tantos diplomas em sua formação como atriz de musicais quanto atuações memoráveis. Foi a única brasileira a protagonizar “O Fantasma da Ópera” em turnê mundial, como Cristine. Também estrelou o curta “Cinco minutos”, de Ricky Mastro, que concorreu em festivais nacionais e internacionais. 

Sara Sarres está de volta, e pela terceira vez em cartaz, em “O Homem de La Mancha”, de Dale Wasserman

Atualmente, está de volta, e pela terceira vez em cartaz, em “O Homem de La Mancha”, de Dale Wasserman, com música de Mitch Leigh e letras de Joe Darion, baseada em Dom Quixote, de Cervantes. Direção de Miguel Falabella. Como Dulcinéia, foi indicada a Melhor Atriz no 3º Prêmio Bibi Ferreira de Teatro. 

Sara representa o reconhecimento de uma nova geração de atores e atrizes, que investe em sua formação artística e intelectual, como faziam os grandes artistas do teatro brasileiro da leva de Fernanda Montenegro, Marília Pera, Paulo Autran, Eva Wilma, saídos das grandes escolas de teatro e dos grupos teatrais, que também eram excelentes escolas.  Posteriormente, foram sucedidos por uma fornada de “atores celebridades” formados, não pelas escolas, mas pelo improviso das novelas de ocasião e as capas de revistas e, em seguida, descartados, ou consolidados na profissão mesmo com todos os seus cacoetes e deficiências, respaldados pela fama. 

A formação de Sara Sarres inclui aulas de canto lírico em Milão; o IVAI Summer Opera Program, em Tel Aviv; Teatro Musical em Nova York. Sara canta, dança, toca piano, percussão e interpreta. Quem quiser conferir, tem a oportunidade de vê-la em cartaz, no Teatro Bradesco.

Cinema, teatro e televisão, o que prefere fazer?

Estar no palco, onde imediatamente sentimos a reação do que estamos tentando comunicar. Traz a emoção do dia a dia, aquele frio diferente na barriga. Minhas experiências com televisão e cinema foram ótimas. Inclusive, gostaria de fazer mais papéis no cinema e na televisão, só que, com as peças em cartaz, às vezes seis, sete dias na semana, fica muito difícil conciliar. 

Como é fazer teatro no Brasil? 

Não só fazer teatro é difícil. Produzir arte no Brasil é difícil. A gente encontra por aí muita dificuldade econômica, e dificuldade política, também. Então, é realmente preciso matar um leão por dia. A gente vê muitos talentos em busca do “plano B”, porque é muito difícil. Eu, por exemplo, me considero uma pessoa de extrema sorte. Mas tenho medo de a cultura nunca ter voz neste país.

Por que é tão difícil?

Sempre existiu aquela primeira opção de só se investir em Infraestrutura. Até tirando da Saúde para colocar na Infraestrutura. E isso em todos os governos, desde a nossa colonização. Nunca houve um grande projeto cultural. No dia que nossos governantes entenderem que a Saúde precisa estar em primeiro lugar, e que a Educação também esteja em primeiro lugar, as coisas mudam.

E a cultura?

Para mim, educação e cultura andam juntas, são um só. Eu não vejo como coisas diferentes. (N.R. Originalmente, as pastas Educação e Cultura eram fundidas num só ministério no Brasil)

Você tem uma escola de canto. Fale dela.

Eu me considero uma pessoa de muita sorte. O meu espaço para ensinar é pequeno, e eu selecionei bastante quem fica comigo por lá. E isso começou em um momento da minha carreira em que eu precisava compartilhar o que eu sei. Como sou muito estudiosa, muito nerd, eu precisava compartilhar meu conhecimento. E isso começou com colegas. Descobri uma grande paixão, que é preparar as pessoas para que consigam desempenhar o seu melhor, daí nasceu minha escola. Sou apaixonada pela área científica do teatro.

Como foi atuar numa produção estrangeira, em turnê mundial, até à China, de “O Fantasma da Ópera”?

Para mim foi uma diferença gritante. A cada dia era um novo aprendizado. Fui contratada por uma empresa britânica, e pude ver o que é a valorização do profissional de teatro. Há uma questão de organização que é fundamental, porque mostra a importância da cultura para determinados países. Em Londres, eu pude ver a importância acadêmica da formação do profissional, tudo isso é diferente na terra da Rainha. E ver isso tudo me dava um pontinho de tristeza. É entender que as coisas poderiam fluir de maneira diferente no Brasil. Eu sou da bandeira de que educação e cultura podem erguer um povo. E nós estamos com uma peça que fala exatamente sobre isso, um texto de Cervantes, o segundo mais importante da Humanidade, depois da Bíblia, e extremamente atual. Diz exatamente isso, sobre “sonhar o impossível”, transformar pessoas...

Já que você começou a falar do espetáculo...

Então, é a terceira vez em que eu interpreto a Dulcinéia. Para mim, uma alegria incrível. Estar em terras cariocas é ótimo. Agora, a Dulcinéia é uma personagem que tem uma curva muito grande. Ela sai de um extremo sofrimento, de um estado de extrema miséria, de tortura, e acaba se empoderando. Descobre-se digna de ser amada, de ser bela, de estar viva... Então, isso tudo me comoveu muito. Eu precisei trazer todas as minhas pesquisas, todas as minhas emoções, toda minha experiência, para construir a Dulcinéia. Agora, musicalmente falando, é uma partitura muito difícil. Ela vai de um tipo de canto para outro, de extremos graves aos mais agudos, e isso exige muito do artista. 

A Dulcinéia é uma empoderada. Há alguma relação na leitura e na criação da sua personagem com o feminismo do século 21?  

Com certeza. Ela vive em meio à total opressão, com homens machistas que a diminuem, que a maltratam, que a violentam, e ela precisa realmente ser muito forte para sobreviver. Então, há nela um coração muito amargurado. A transformação dela é muito bonita. Ela consegue sair daquele estado tão baixo, de submissão...

Como é ser dirigida por Miguel Falabella?

É o meu grande padrinho. Ele me conheceu quando eu fazia a Cosette, em “Les Miserables”, em 2001, que foi o primeiro grande musical a chegar no Brasil, inaugurando o Teatro Renault, em São Paulo. A partir dali, foi uma relação de amor. Eu amo trabalhar com o Miguel. Ele consegue extrair o melhor de todo mundo, não só de mim. Ele é extremamente amoroso, gentil. 

 Seus projetos para o futuro...

Em um futuro longe, penso em direção, preparação vocal de atores, dar seguimento ao trabalho que está sendo feito na minha escola de canto. E tem muitas coisas que eu sonho fazer, textos, espetáculos, leituras... Por exemplo, eu gostaria de fazer os espetáculos do Stephan Sondheim*. Também acho que chegou o momento de o Brasil ter um teatro musical brasileiro genuíno, que conte a nossa história, com composições próprias, e não só repaginadas. Seria incrível contar histórias com a nossa musicalidade, nossa brasilidade.

Stephan Sondheim* - autor dos musicais West Side Story, Gipsy, Company, Follies, Road Show, Passion etc.

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SÁBADO DE Passeata Gay em Paris, ruas embandeiradas com as cores do arco-íris, inclusive o prédio da Prefeitura, onde, na fachada, pontifica há semanas imenso banner com foto de Marielle Franco. Homenagem que nenhum prédio público do Brasil lembrou de fazer.

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