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Terça-feira, 19 de Junho de 2018 Fundado em 1891
Hildegard Angel

Colunistas - Hildegard Angel

Amir Haddad: “Temos que exorcizar o Rio, que está sob o domínio do Cão”

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Ele é um dos mais importantes líderes culturais do país. Participou de todos os grandes movimentos do teatro brasileiro das últimas décadas, desde a fundação do Grupo Oficina, com Zé Celso e Renato Borghi, em São Paulo, à criação da Comunidade, no MAM-RJ, nos anos 60, às manifestações da vanguarda teatral, com as montagens do Terezão, como o Tango, e, no Opinião, o teatro de resistência, com montagens como Se correr o bicho pega... Até partir para as intervenções teatrais urbanas, criando, na década de 1980, o grupo Tá Na Rua. 

Nesta quarta-feira, dia 6, às 15 horas, Amir estará com seus “compas” da classe artística carioca na Cinelândia, celebrando o 6º aniversário da Lei dos Artistas de Rua 5429/2012. “No Rio de Janeiro, produzir cultura é uma luta pela sobrevivência”. A frase sintetiza a entrevista de Amir Haddad, ao repórter da coluna João Francisco Werneck.

Amir estará com seus “compas” nesta quarta-feira celebrando o 6º aniversário da Lei dos Artistas de Rua

Como era a arte nas ruas antes da Lei do Artista de Rua? 

“A lei foi desenvolvida através de contato direto dos artistas de rua com o vereador Reimont, um dos melhores políticos do Rio de Janeiro. Seu interesse pelas coisas públicas é muito grande. Com essa aproximação, foi feita a lei, que não veio de cima para baixo, e sim de baixo para cima. Ela se instalou quando já era uma realidade nas ruas. Já havia grande movimento de artistas de rua na cidade. Então se fazia a necessidade de uma lei que garantisse a liberdade do trabalho do artista urbano. E ainda teve o Choque de Ordem, do Eduardo Paes, que misturou muito o que era arte de rua e o que precisava, de fato, ser “limpado” da cidade. Então, eles apreendiam nosso material, davam porrada, expulsavam a gente dos locais. Aí é que se fez a necessidade da Lei. Só que no momento de a lei ser aprovada, o Paes a vetou. Acontece que como ele é muito hábil, político, inteligente, e sabe reconhecer seus erros, ele me recebeu para uma conversa, e eu pude explicar o que era a Lei. Fui lá, conversei, coloquei minhas razões, e deu tudo certo. Expliquei o que era arte de rua, arte urbana, o que era intervenção urbana, e então ele entendeu, e retirou o veto dele. Comparado ao bispo satânico, a saudade dele é inevitável. Quero dizer também que o apoio popular foi importantíssimo naquela época.” 

Por que comemorar esse 6º Aniversário? 

“Todos os anos a gente festeja. A adesão popular é sempre muito grande. Esse ano, contudo, nós não vamos ter muitos artistas por lá, porque eles fugiram da cidade. A cidade mudou de aspecto, desde que mudou a pessoa que está lá, na prefeitura. Ele irradia uma energia para a cidade inteira que não é boa. Então, muitos artistas desistiram de se apresentar no Rio de Janeiro, foram desestimulados. A cidade da cultura, dos espaços abertos, tudo isso refluiu muito. E nós achamos essencial esse espaço, esse canal de comunicação com a cidade. Então vamos ocupar um lugar ali, em frente à Câmara dos Vereadores, e vamos afirmar a importância dessa lei. Mas o esforço que estamos fazendo para ir é muito maior do que nos últimos anos. Nos dias de hoje essa saída é uma obrigação, para marcar presença.” 

Como você avalia o momento político no Rio de Janeiro? 

“Uma tragédia. Eu trabalho nas ruas, então meu contato com a vida na cidade, com a população, é direto, imediato. Eu estou ali, na rua, todos os dias, toda quinta feira com o meu grupo Tá na Rua. Faço um trabalho de exorcização, para espantar os demônios que estão invadindo essa cidade sob a aparência da santidade. A pior coisa que o Diabo faz é se fantasiar de Santo. E nós estamos sob o domínio do cão. A cidade está entristecida, daí nós fazemos questão de levar nosso brilho, nosso colorido, para animar essa gente toda. Hoje, eu me sinto como um núcleo de resistência, da possibilidade humana de se transformar, avançar, e fazer justiça social. O Teatro é utopia, o equilíbrio entre o coletivo e o particular. Cada momento desse é para instaurar no espectador a esperança por dias melhores.” 

Na premiação da Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro, você disse aos artistas: “Estamos todos no mesmo barco. Ou nos salvamos todos ou estaremos todos f...”. Para quem foi essa crítica? 

“Não é uma crítica, é um alerta para a classe artística. Não pense que você está protegido. Muita gente se abstém de fazer algumas coisas em nome do conforto. Não existe salvação individual. Ou estamos todos salvos, ou estamos todos perdidos. E isso foi uma chamada para os artistas: Não façam qualquer arte, qualquer teatro, não percam a alma, porque o buraco que está sendo cavado é grande e cabe todo mundo. O momento que o país vive, culturalmente, é o pior da história. Eu vivi 80 anos, sobrevivi a uma ditadura militar de 20 anos, e tenho que dizer que nunca vi nada tão assustador, deprimente, de má qualidade. Não é possível ser feliz tendo toda essa sujeira na cabeça.” 

E seu grupo Tá Na Rua? Como é trabalhar com teatro de intervenção urbana? 

“O que eu corro atrás é de uma linguagem. No trabalho com atores profissionais há sempre um questionamento muito grande sobre o que é o ator, qual é o sentido dessa profissão? E para todos que trabalharam comigo, sempre foi uma experiência definitiva. Agora, a diferença entre trabalhar com grandes nomes e os atores que fazem parte do Tá na Rua, que são menos conhecidos, é que eles chegam preparados para receber o teatro. Então eu dou liberdade, música, fantasias. O objetivo é fazer eles se interpretarem antes que sejam ensinados a interpretar determinado personagem. Então, a verdade é que eu consigo mostrar para eles que quem inventa o teatro é o ator. Não é o teatro que inventa o ator. E, quando se trabalha com atores solidificados, é muito difícil fazer com que eles deixem alguns vícios de trabalho. Trabalhei agora com a Maitê Proença, e fiz ela voltar ao teatro antes do teatro. A ideia é recuperar essa ancestralidade do ser humano em sua maneira de narrar suas aventuras, na crença de que não há contemporaneidade sem ancestralidade. Não há discurso que chegue aos outros sem a história.” 

Nessa crise, vocês ainda conseguiram produzir o espetáculo “Minha”, que estreia no dia 9...

“Um autor como o Wilson Sayão, o Sayão é um autor queridíssimo, de extrema qualidade, com textos brilhantes, e que merece montagens dignas do seu talento. Eu já fiz algumas peças com textos dele. Ele nunca conseguiu a visibilidade que merecia. E o “Minha” é um monólogo pungente, uma história de amor linda, uma capacidade amorosa inacreditável do personagem. Um homem que está com sua mulher em coma, e todos os dias ele vai ao hospital para conversar com ela. São dois atores da minha escola, o Tá na Rua. E eu acho que o trabalho está muito bom. Ela (Fátima Leite) como diretora, e ele (Osvan Costa) como ator, e os dois sob a minha supervisão. Conseguimos espaço no CIDA, e o CIDA é lindo. Nós montamos o espetáculo dentro do palco daquele teatro. Ficou magnífico.”

Qual é o quadro atual da cultura na Cidade do Rio de Janeiro?

“Foi tudo muito depressa, né?! Essa esterilidade cultural é contagiosa. Os motivos são muitos, até porque o Brasil, como um todo, vai mal. Eu acho que há um desestímulo da vida artística do país. No governo Dilma, a coisa já estava meio capenga, havia dinheiro no início, fomento, mas depois foi esmorecendo. Só que, depois do Golpe piorou muito, a vida cultural foi para um buraco sem fim. Muito ruim mesmo.  Criminalizando, inclusive, a vida cultural no país, uma coisa louca. Um medo da inteligência que a arte propicia. Eles têm medo da luz, porque a luz ilumina a feiura deles e, por mais que eles desejem se disfarçar, não tem jeito, o casco do bode sempre fica à mostra na batina. E isso é muito assustador. Então é preciso viver uma vida de resistência. Depois do Impeachment, foi muito rápida a degringolada. E no Rio de Janeiro, o Eduardo Paes sempre dedicou dinheiro para a arte. Mas esse prefeito que veio contingenciou esse dinheiro, e aí ninguém recebe mais nada. Zero de dinheiro para a cultura da cidade, das periferias, dos coletivos urbanos… Não há política cultural para o Rio de Janeiro no momento.”

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ABERTO HÁ 38 anos, com grande reconhecimento, o grupo teatral Tá Na Rua fechou suas portas na Av. Mem de Sá por não poder pagar luz e água. A verba para isso era uma pequena doação do gabinete do vereador Reimont. Mas, segundo o diretor Amir Haddad, “o prefeito atual foi lá e pegou o dinheiro”. Pelo visto, além de não ajudar, ainda atrapalha.

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Entrevista por João Francisco Werneck



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